Dawkins: “Deus: um Delírio” (1)
Mau sinal: logo no começo do livro, Dawkins menciona o Alistair McGrath, autor de “Dawkin’s God”, um livro que percorre todos os livros do Dawkins só para mostrar o seguinte: é impossível provar a inexistência de Deus (ou a sua existência), Dawkins não faz isso, e sua afirmação de que a ciência mostra que Deus é altamente improvável é só uma frase: nenhuma tentativa séria de medir a probabilidade da existência de Deus é oferecida ao leitor. McGrath é doutor em bioquímica por Oxford, onde atualmente ensina teologia, e, assim como eu, fã do “Gene Egoísta”, o melhor livro de divulgação científica que eu já vi (aliás, graças ao sucesso do Dawkins, o livro finalmente saiu em edição decente em português, pela Companhia das Letras).
Dawkins (p.85) diz que a afirmação de McGraith é “inegável, mas ignominiosamente fraca”. Suspeito que a palavra em inglês seja “feeble” (pouco viril, canhestro, tíbio), não “weak” (fraco, ou, no caso de um argumento, ruim). Seria meio esquisito se Dawkins dissesse que o argumento é inegável, mas ruim.
E aí acaba a discussão do McGraith: até o final do livro o Dawkins não discute mais seu adversário mais qualificado. Não gosto dessas coisas, não.
(Naturalmente, se o McGraith vier me provar cientificamente que Deus existe, vai estar falando besteira também)
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Quanto ao McGrath, a palavra é weak mesmo, mas a tradução do livro é bem ruim de modo geral.
Faço como Dawkins e escrevo na margem do seu comentário “Teapot”. É tão óbvio que não se pode demonstrar a existência ou não de Deus, assim como não se pode demonstrar a do Bule que não vejo porque Dawkins perderia tempo com refutações do irrefutável. Ok, tá bom, é isso mesmo… agora vamos para o campo da razoabilidade e falemos de probabilidade…
Mariana, o argumento do bule está errado, a analogia não saiu certa. A inexistência do bule e a inexistência de Deus são hipóteses de naturezas epistemológicas completamente diferentes.
Para quem não leu o livro: o argumento é, se não me engano, do Russell, e diz mais ou menos o seguinte: certo, é impossível saber se Deus existe, mas é igualmente impossível saber se existe um bule de chá na lua. Não há motivo para levar uma das proposições mais a sério que a outra.
Nesse caso, o Dawkins peca não por ler mal teologia, mas por ler mal o Popper (perdoemos o Russel por não ter lido um cara que escreveu depois). A tese do bule é perfeitamente verificável do ponto de vista lógico, só é muito difícil de checar. Não há nenhuma objeção lógica a que se lance um satélite artificial sobre a lua com capacidade imensa de refinamento de imagens e processamento computacional, e tal satélite poderia, sim, checar se o bule está lá.
Uma vez encontrado o bule, caberia o problema de explicar sua existência, mas isso é outra história. Poderíamos concluir, por exemplo, que o bule prova que existem alienígenas inteligentes, e, mais: que as circunstâncias que favorecem o surgimento da vida são sempre as mesmas, e que a evolução social de seres inteligentes é sempre muito parecida, a ponto de todos eles fazerem chá.
Não é possível fazer um experimento para testar a existência de Deus, porque seria impossível imaginar um mundo sem tempo, espaço, sem causalidade, sem características que normalmente são consideradas consequências da existência de Deus. Como seria o mundo se ele existisse, ou se não existisse? É, aliás, interessante que o Dawkins cite o Wittgenstein perguntando por que, afinal, achava-se, antes de Copérnico, que a Sol girava em torno da Terra (quando responderam, porque era isso que parecia, ele mandou de volta, como pareceria se fosse o contrário?), e não note que aí está justamente o problema.
Para a hipótese do bule constituir uma analogia boa, o bule teria que existir além de todas as categorias de compreensão humana, o que, imediatamente, converteria a analogia em uma repetição da hipótese teológica chamando Deus de bule.
Então você está me dizendo que Deus está além de todas as categorias de compreensão humanas, ok? Ok. Mas acredito que o Dawkins esteja atacando algo bem menos elaborado conceitualmente que a crítica da Crítica da Razão Pura, e todo um mar de teoria do conhecimento que nem ele, nem francamente eu, lemos. porque não é a nossa praia. Também não acho que os crentes em geral sejam PhD. no assunto. A propósito, é engraçado como as pessoas não exigem fundamentação teórica de um crente ao passo que se infere a ignorância como pressuposto do ateísmo (experiência própria). Voltando ao assunto…
O ataque do Dawkins, me parece, é à concepção teísta. Então, estamos falando de milagre, orações, intervenção divina, livros sagrados, danação eterna, e por aí vai. Esse Deus intervém no tempo, no espaço e na matéria (ou não!). Até poderiamos discutir a Causa se ao menos os efeitos existissem…
Ademais, vale insistir, o ônus da prova não está com Dawkins. Dawkins não tentou e nem vai tentar demonstrar a não existência de Deus, ao contrário da religião. Esse é um ponto crucial na crítica de Deus um Delírio: por que alguns teólogos tentam desesperadamente provar que Deus existe, de preferência utilizando categorias bem ao alcance da compreensão humana?
Outro ponto importante no argumento do livro: ciência e fé não são conciliáveis. Não adianta dourar a pílula. Ou aceita a teoria da evolução de Darwin ou o Deus criador, a Bíblia, Adão e Eva, etc. Isso, como biólogo, o Dawkins faz muito bem.
Quanto ao Bule, se o meu modesto exemplo do milagre não pôs a questão divina na órbita dos fenômenos passíveis de investigação, então que se conceda a transcendência do Bule de chá. Só que ao invés de chamar Deus de Bule, vamos chamar o Bule de Deus, e vamos chamar de Deus também a fada dos dentes, os gnomos, e vamos adorar a tudo aquilo que esteja além dos limites nossa compreensão (pelo gosto da teologia esses limites seriam os de dois mil anos atrás ou mais).
De mais a mais, gostaria de encerrar minha participação no debate dizendo que considero o livro irregular, com saldo positivo. Tem pontos muito pertinentes, argumentos brilhantes e nada triviais, é uma leitura agradável, tem humor, mas, para mim, tem muitos problemas conceituais na medida em que o autor tenta sair de sua zona de conforto, a Biologia (nem sei se isso não seria, por outro lado, uma qualidade). Também não se vê nenhuma menção ao papel político da Religião, o que é uma tremenda alienação, a meu ver. E várias outras coisas que mancham o brilho do livro. Isso, sem mencionar que alguns de seus caros colegas, reverencialmente citados no texto, extrapolam suas conclusões em defesa do intervencionismo no Iraque, ou saem por aí apregoando a desigualdade intelectual entre as “raças”, e outras bobagens pseudo-científicas.
O livro cumpre seu papel de divulgar o ateísmo e talvez seja isso que incomode tanto os religiosos. O efeito do lançamento desse livro no Brasil me parece anódino, mas seria reconfortante saber que as pessoas por aí deixaram de discutir O Código Da Vinci para debater Deus um Delírio.
Para o Napráticaateoriaéoutra gostaria de dizer que valeu o enorme trabalho da resenha e agradecer a disposição em responder às minhas considerações. Quem sabe, continuamos a discussão pessoalmente qualquer dia desses. Não pretendo encher mais o seu saco com esses textos enormes que eu demoro meia hora pra digitar, nem encher o meu com replies toscos de três linhas, acintosamente rudes que andei recebendo por aí. ;P
Um abração amigo!
Se Deus existe… eu não sei. Porque acredito eu, que Deus dêva ser uma coisa muito pronfunda, e nós seres humanos somos muito limitado para encontrarmos. Então se ”Tudo flui e o mundo esta em constante movimento”, como o proprio filósofo Heráclito de Éfeso em palavras no sec VI a.c , pra que procurar Deus?. Deus talvéz seja somente um sentimento, e,todo sentimento vem em sua maioria, dotado de paixão, sem nenhum compromisso com a razão.
trabalho de filosofia
compreensão humana sobre deus….
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grupo 4 pessoas….