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A idéia básica do livro: a facilidade de recolher e analisar dados cresce exponencialmente com os novos meios de armazenamento eletrônicos. Cada vez mais coisas são decididas com análise estatística (em especial, com modelos de regressão), por isso é melhor se acostumar e aprender esse negócio.

O melhor do livro são as histórias: o cara que bolou um modelo para prever o preço do vinho usando só umas poucas varíaveis, e fez previsões melhores que os especialistas. O cara que fez um modelo que analisa os elementos do roteiro de um filme e prevê a bilheteria (acertou 6 em 9; a média de acerto dos estúdios é 3 em 9. E os programas de diagnóstico médico que acertam mais que a média dos médicos.

É impressionante também ver a assustadora tendência das empresas de fazer, a partir do seu perfil, modelos de previsão de quão bom você será como consumidor, pagador de empréstimo, empregado, ou segurado, e tratar você diferente conforme o resultado.

E, o que eu achei o mais interessante (mas aí sou eu que acho), a parte sobre políticas públicas testadas empiricamente. O exemplo do cara é realmente estranho (pelo menos pra mim): o governo americano testou uma porrada de métodos de ensino em uma enorme amostra de escolas, e os resultados estatísticos mostraram que o mais eficiente, disparado, foi o seguinte: o professor recebe um roteiro fixo de aula, em que tudo o que ele fizer já está programado, e segue o roteiro mais ou menos facilmente. A folha começa com algo como “dizer: alô, turma” e segue por aí.

Vale dizer, fiqueis curioso sobre o método, vou ver se estudo isso. Agora, aqui começa a ficar aparente uma fraqueza do livro: o cara é bom jogador, mas às vezes arrisca perder o gol por causa daquele driblezinho a mais.

Há uma certa tendência, a começar pelo subtítulo, a dizer que o que está realmente em alta é a análise estatística. Na verdade, o que eu acho que está acontecendo é: por causa da análise estatística, os caras realmente acima da média estão ganhando poder, enquanto os que estão da média pra baixo estão ferrados. Alguém, afinal, prepara o roteiro do método educacional, escolhe as variáveis dos modelos, faz teorias sobre que coisas seria importante medir, etc. Esses devem ser mais valorizados. O resto vai repetir e rodar programa, mesmo (ou, ao menos, é isso que se depreende da história do livro). É a velha alienação do Marx - a perda progressiva do controle do processo de trabalho por parte do trabalhador, como o próprio autor nota.

O furo do livro chega quando o cara diz que coisas como o House, que acerta mais que os modelos, só acontecem na ficção. Isso é errado, em primeiro lugar, porque o House é meu amigo, brigou com ele, brigou comigo. Em segundo lugar, porque o que todos esses modelos e testes medem é o resultado na média. O programa de computador deve ser melhor mesmo que o médico médio. Em parte, porque os médicos ruins baixam a média. Mas o cara realmente fodão sabe, inclusive, quando usar e quando não usar o modelo, e, analisando o paciente, consegue perceber muito mais dados do que o programa. Claro, eventualmente os macetes dele podem ser computadorizados, também. Mas enquanto o computador não criar seus próprios macetes, o Dr. House não perde o emprego.

Quem já fez análise estatística sabe que é tudo complicado, cheio de aproximações, relações causais que você não sabem pra que lado funcionam, e, principalmente, dificuldades de mensuração. Medir a bilheteria de um filme é provavelmente possível. Prever que filme provocará uma revolução estética é outra coisa.

O autor cobre seus flancos, e no final afirma que o que vai prevalecer são os caras que sabem usar a intuição e a estatística ao mesmo tempo. Concordo inteiramente. Mas de vez em quando o livro força pra dizer que a estatística é mais legal.

E tem o velho problema: no fundo, o fato de que você prevê preços usando preços se deve ao fato de que o preço é uma construção social espetacular (voltamos ao Hayek) que sintetiza a informação de milhares de pessoas ao mesmo tempo. Vejam só: as duas áreas em que é mais fácil fazer análise estatística são naquelas em que as pessoas concordam em serem tratadas como números fixos, a economia e os estudos eleitorais. No primeiro caso, convencionou-se socialmente que você vale o quanto tem no bolso, e pode escolher entre as opções que encontra oferecidas no mercado. No segundo, se convencionou que você e todo mundo valem 1, e escolhem um número de opções limitadas oferecidas pelo sistema político. Uma vez que a sociedade se trancou na quantificação, entra em cena o analista estatístico. Mas essa análise não é exatamente só baseada nos números, ela é resultado de um processo pelo qual milhares de pessoas concordaram em transmitir informação por meios que são somáveis, subtraíveis, divisíveis, etc.

Tendo dito isso, repito: é melhor todo mundo aprender uma estatísticazinha, mesmo. E livro é uma leitura muito agradável.


Estudo mostra que a variável que prediz melhor a probabilidade de um prisioneiro no corredor da morte ser efetivamente executado é seu nível educacional.

(hat tip: Andrew Sullivan)

PS: ainda no Sullivan, Brokeback Mountain com final feliz. Melhor parte: os caras se conheceram no Baile do Celeiro da Associação Gay de Rodeios.


Fonte: Zoação F.C., onde também tem essa:

Colômbia: Libertadores entregam mulher desesperada.

Brasil: Mulheres desesperadas entregam Libertadores.

PS: Foi mal aí, Amiano, eu torci pro Flu, mas essas eram boas demais pra deixar passar.

PS: leitores de fora do Rio, vocês conhecem os supermercados Mundial?


No Zimbabwe não tem mais como emitir moeda porque a empresa alemã que imprimia a moeda de lá resolveu parar de fazer. Detalhe: a empresa é a mesma que fazia a grana da República de Weimar, de modo que a questão de imprimir nota de um trilhão pra eles é fichinha.

Pergunta do Tyler Cowen: qual o propósito de evitar a falsificação (gastando grana pra imprimir direitinho) se a grana rapidamente vai valer menos que o papel em que é impressa?


LDU Campeã

03Jul08

Porra, torci pelo Fluminense, de verdade. Não falem com o Amiano Marcelino hoje.

Agora, fica aqui o registro: no mês de Março, o Pera, que sempre comenta aqui, me disse: qualquer hora dessas a LDU vai ganhar a Libertadores. Rapaz, amanhã mesmo vou te entregar meu bilhete de loteria esportiva para você preencher.

PS: eu tinha tido um pressentimento ruim hoje, pouco antes do jogo fiquei com o HINO DO VASCO na cabeça. Resultado: o time pra quem eu estava torcendo foi vice.


Libertaram!

02Jul08

        


Artigo da Martha Nussbaum (leiam essa dona) na Dissent sobre a violência em Bengala Ocidental, causada pelo esforço do governo comunista de industrializar na marra.

Ótimo para quem quiser saber como anda a Índa, em especial as áreas historicamente sob governo comunista (eleito democraticamente), como anda a esquerda indiana, e como anda o esforço de modernização por governos stalinistas pró-capital, cujos membros tendem a ser de casta superior. Um bom teste para os candidatos no vestibular de sociologia seria: vocês acharam a frase anterior interessante ou não? Se não, se mandem.

A violência causou um racha na esquerda de Bengala Ocidental, com a formação de um grupo grande de artistas e intelectuais (entre eles o Amartya Sen) que criticam a violência, ao mesmo tempo em que apóiam o esforço de industrialização, desde que se ofereça alternativas de treinamento para os camponeses que venderem suas terras, que se pague um preço justo por elas, etc. A Nussbaum, que foi co-autora do Sen, conhece todo mundo lá na esquerda indiana e oferece um quadro bastante rico.

Em síntese:

“What led to this breakdown in governance? The seeds of catastrophe lie, no doubt, in the never-sufficiently-de-Stalinized background of this Party, always suspicious of democracy, always used to treating people as agents of class struggle rather than as individual human beings who need specific life prospects if they are to give up their land. This general orientation toward human beings led to a lack of appreciation that an industrial strategy, even if basically correct, needs to focus on what real people are able to do and to be, rather than thinking only in statistical terms. “

Porque isso é importante? Porque reafirma a necessidade da esquerda criticar a esquerda anti-democrática, sempre. Ao contrário do que faz o Chomsky (quaisquer que sejam seus outros méritos) no episódio em questão:

“A particularly fatuous document of this kind was a letter authored by Noam Chomsky, signed by a number of Indian American intellectuals who should know better, and published in the Hindu, a leading national India newspaper, on November 22, 2007. Besides lauding the CPI(M) for “important experiments” for which it deserves no particular credit (such as “local self-government”), the letter reasons that people on the left ought to focus on opposition to the actions of the United States in Iraq, rather than fighting with one another. “This is not the time for division when the basis of division no longer appears to exist,” concludes Chomsky, having asserted, entirely without cause on that date, that things are basically back to normal and that the two sides have reconciled. This is the type of left politics that holds that the enemy of my enemy is my friend, no matter how many rapes and murders that friend has actually perpetrated.”

PS: Gostaria de saber como o governo de Kerala, historicamente o governo comunista mais bem sucedido da Índia (e talvez do mundo), lidou com esses fatos. Aliás, eu tenho uma certa curiosidade sobre o que daria uma reflexão conjunta das esquerdas brasileira e indiana.

PS: vejam que maravilha:”na ocasião do Prêmio Nobel de Sen houve uma parada comemorativa de um milhão de pessoas em Calcutá”.


                 

Anúncio de assinaturas da Dissent.


George Konrad

02Jul08

Saiu a auto-biografia romanceada do George Konrad, que, para a imensa massa dos que se interessam ainda por dissidentes do Leste Europeu, é famoso por ter escrito Os Intelectuais a Caminho do Poder de Classe, com o Ivan Szélenyi, que depois virou o maior sociólogo da região. 

Na nota de rodapé sobre o livro no artigo linkado acima, o resenhista diz que ele critica os intelectuais húngaros por sua passividade. O que eu me lembro é que esse é um dos primeiros livros a notar que os quadros técnicos (em especial os gerentes e outros administradores econômicos) estavam assumindo o controle nos países socialistas (por oposição aos quadros políticos, do partido, etc.). Ou seja, não estavam muito passivos, não. No final os diversos quadros em questão chegaram a graus variados de acordo entre si e com a oposição dissidente, o que resume a fórmula geral do colapso das sociedades do Leste.


Hayek

02Jul08

Artigo interessante sobre “O Caminho de Escravidão” na Dissent (que anda ótima, vou botar um monte de coisas aqui). O texto faz vários elogios ao cara (que os merece), mas, como vocês já devem ter adivinhado pela revista em que foi publicado, discorda no geral (como eu também faço). Mas achei especialmente interessante esse trecho:

“In titling his individualist manifesto The Road To Serfdom, Hayek clearly was equating collectivism with a tendency to slavery. It is surprising that he apparently did no research on the historical roots of serfdom. For serfdom in Russia came about through the loss of collective solidarity, as free peasant communes, starting in the mid-fifteenth century, first lost their community right to negotiate terms with estate holders throughout the year, except on St. George’s Day; then saw this exception suspended, and finally terminated by decree. With no bargaining power, and with the state on the side of its aristocratic vassals in underpopulated rural Russia, the peasants became the property of the estate and later of the manorial lord.”