Declaração de Voto: Lula

05out06

Tanto Lula quanto Alckmin são bons candidatos. Mas eu queria tomar uma posição, e tomei. Lá vai:

Consciente de que as acusações de corrupção contra o governo são, em sua imensa maioria, verdadeiras, e do risco da tentação chavista em caso de polarização, e não sem um certo medo, o blog anuncia seu apoio à reeleição do Lula. E o faz pelas seguintes razões:

1) Para recompensar à conversão do PT à racionalidade econômica, que hoje parece um dado, mas foi uma grande realização. Em caso de derrota de Lula, os moderados do PT seriam, erradamente, responsabilizados pelo fracasso, e os radicais ganhariam poder de novo, como se os abusos de Dirceu não fossem herança bolchevique. Isso seria uma catástrofe.

2) Por temer que uma reação anti-petista que se siga à derrota de Lula erradique o “movimento PT”, toda a rede de movimentos sociais que, pela primeira vez na história do Brasil, se articularam em um projeto de poder nacional. Esse movimento é mais importante do que Lula, do que o PT e do que a esquerda, sendo uma das bases sobre as quais se assenta a democracia nacional. Se Lula perder, confio em Alckmin para não reverter o Bolsa-Família. Mas não confio no que acontecerá nos editoriais de jornal, não confio no PFL, não confio na Veja. Não acredito que Gabeira ou Heloísa Helena continuem tendo espaço na mídia no dia seguinte em que o PT se esfacelar. Nesse dia, aliás, começa a marginalização do PSDB pelo PFL.

3) Por temer que um governo do PSDB seja ruim. O PSDB é um partido sem base social, que, como FHC, nunca ganhou uma eleição sem apoio de plano econômico heterodoxo, nunca ganhou como oposição. Por sua falta de base, precisa de sempre novos projetos desenvolvimentistas que acabam desembocando em eleitoralismo, como foi o caso dos planos Cruzado e Real, levados muito além do que deveriam por motivos eleitorais. A falta de base desperdiça os grandes quadros que o PSDB tem. Parte do fenômeno Palocci se deve a isso: o PT, dono de uma máquina partidária razoável, não precisa de heterodoxia econômica para se eleger (como vemos agora). Tanto PT como PSDB só têm futuro se aproximando, nem que para isso tenham que acabar como partidos.

4) Por que a direita brasileira ainda não está preparada para exercer o poder na democracia. O caso de Collor foi paradigmático, como o foi o fato de ter que se apoiar em um presidente de centro-esquerda por oito anos. É do supremo interesse nacional que um novo partido de direita limpo e programático se organize, mas isso ainda não aconteceu.

5) Pelos bons resultados na redução da pobreza, graças ao Bolsa-Família (inspirado na idéia original de Cristovam Buarque) e na ampliação do acesso ao ensino secundário, graças à bem-vinda imitação do FUNDEF (que resultou na criação do FUNDEB) de FHC. Deve-se dizer, entretanto, que não há por que crer que Alckmin descartaria essas conquistas, como Lula não descartou a política econômica equilibrada do segundo governo FHC (depois da catástrofe do final do primeiro).

6) Pela esperança de que as lideranças do PT nacional, sobretudo gaúcho e mineiro, assumam a erradicação do bolchevismo dirceuzista filocubano, bem como a aproximação com o PSDB, no que for possível. Essa aproximação deve ser feita com a necessária humildade, visto que, compreensivelmente, o PSDB, bem como parceiros como o PDT de Cristovam, o PPS de Jungmann, o PV de Gabeira, e mesmo intelectuais independentes como Mangabeira Unger, não querem se associar ao fracasso da coordenação política de Lula. Se alguém do PSOL se interessar em participar do diálogo, ótimo.

7) Pela aversão à idéia de deixar a liderança da esquerda latino-americana nas mãos do palhaço do Chávez, que no momento a exerce.

8) Por que Lula é, de longe, o melhor político (no sentido estrito) entre os candidatos, e a situação não admite amadorismos.

9) Por que quando penso nos militantes de base que respeito, um número absolutamente desproporcional é do PT. Já quando penso nos dirigentes que não respeito, eles se distribuem mais ou menos igualmente por todos os partidos.

Uma vez eleito Lula, o combate da esquerda deve ser eminentemente interno: é preciso fixar a opção pela social-democracia, que implica reconhecer que a direita democrática é mais aliada que a esquerda autoritária. É preciso insistir nas reformas do mercado de trabalho, e convidar Alckmin a sugerir o “choque de gestão” que pretendia dar no setor público. É preciso um consenso político em torno da aprovação das PPPs. E é preciso fazer do investimento em educação a marca do novo governo Lula: se Cristovam fundar seu movimento pela educação, que seja considerado um parceiro.

É evidente, é extraordinariamente óbvio, que eu posso estar errado. É facílimo imaginar cenários perfeitamente plausíveis em que o governo Lula degenera em catástrofe. Mas voto pelas razões acima. Noto que o voto em Alckmin traz outros riscos, apesar de Alckmin ser um bom candidato (o que os tucanos não achavam até domingo à noite; agora devem estar disputando a paternidade da ida ao segundo turno. O mérito é só do Alckmin).

É a primeira vez na vida que voto para presidente pensando nas consequências políticas do meu voto, menos do que na minha identificação ideológica com o candidato. Quem sabe desta vez dá certo.

E assumo responsabilidade se der merda. Mas eu gosto de assumir responsabilidade.

Sintam-se livres para me esculhambar. Se alguém quiser escrever uma defesa do voto no Alckmin, eu respeito, e publico.

PS: caso o PT não complete a virada para o centro, considero seriamente a possibilidade de votar no PSDB nas próximas eleições, quando a aliança com o PFL for quebrada.
PS2: se Alckmin ganhar, e concordar em obrigar Garotinho a levar mais a sério sua próxima greve de fome, recebe meus parabéns.

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