Adeus a Blair (1): Iraque

10maio07

Tony Blair anunciou hoje que renuncia até o final de Junho. Como todo mundo vai falar mal, e nós aqui temos simpatia pelo Blairismo, aqui vai uma interpretação relativamente simpática dos anos Blair.

Blair foi o último clintonista, o representante bem-sucedido da geração de líderes dos anos 90 que representavam uma esquerda moderada, e, mais distintivamente, globalizante. Blair, assim como Clinton, acreditava nas Nações Unidas, acreditava na OMC, acreditava no Banco Mundial. Os anos 90 foram minha década favorita pelo cosmopolitismo, a idéia de uma governança mundial, de uma cidadania global, unviersalista. O maior contraste é com o anti-nacionalismo rastejante de um Mainardi, feito para impressionar dondoca em festa.

Inspirado por isso, Blair apoiou a intervenção no Kosovo, contra a facção mais analfabeta da esquerda e contra os instintos dos Tories de Major, que barraram todo esforço para intervir na Bósnia antes e se tornaram cúmplices de genocídio. Blair organizou a intervenção em Serra Leoa, tão bem sucedida que nem despertou muita atenção. Apoiou a guerra do Afeganistão, que não apenas era justa pelo apoio do Talibã ao 11 de Setembro, mas também evitou a catástrofe humanitária que se previa para aquele ano (uma fome em massa causada pela proibição de plantar ópio).

E, naturalmente, apoiou a guerra do Iraque. Eu não apoiei, por achar que esfacelaria o sistema internacional, como de fato aconteceu. Mas, ao contrário do que se diz hoje, era uma decisão difícil: Saddam era mesmo um facista, e as sanções só estavam matando pobre. Para além da questão da justiça, a intervenção fazia sentido estratégico. Se o Iraque tivesse um governo pró-ocidente, isso diminuiria a dependência com relação aos sauditas, cuja guerra civil latente transbordou no 11 de Setembro.

Mas aí ficou claro que o cosmopolitismo de Blair dependia de Clinton do outro lado, com o maior exército do mundo e alguma noção de como usá-lo. Mesmo tendo sido contra a guerra, eu não acho que a situação no Iraque precisava ter degringolado. Os ódios étnicos explodiram dois anos depois da invasão, tempo durante o qual uma alternativa de Iraque estável poderia ter sido oferecida à população, que apoiava fortemente a derrubada de Saddam. Mas Rumsfeld falhou em tudo: não mandou tropas suficientes, estabeleceu um governo fantoche da mais baixa qualidade, demorou para convocar eleições, e, erro gravíssimo, propôs a des-Baathificação completa.

Os países pós-comunistas, por exemplo, já sabiam que, fora o grupo dirigente do partido comunista, não era negócio sair perseguindo todo mundo que colaborou com o regime antigo. Entenderam que, em sistemas totalitários, muita gente colaborava simplesmente para ter direito a exercer sua profissão, subir na vida, enfim, nada de extraordinariamente maligno. E, no caso dos militares, se os caras perdem o emprego, o que eles sabem fazer a não ser matar gente? Daí a insurgência.

E a idéia de de-Baathificação foi americana. O Ian Duncan Smith, ex-líder conservador, disse em uma entrevista à TV inglesa que, durante uma visita às tropas logo antes da invasão, ouviu de um oficial que o plano era chegar a um acordo com lideranças menores do Ba’ath para garantir uma transição tranquila. Pois é.

E assim morreram os anos 90, e os ideias cosmopolitas que lhe inspiravam. Alguém aí sabe o nome do novo Secretário-Geral da ONU? Ou o que ele anda fazendo?

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