Fichamento On-Line: What Should the Left Propose? (Cap.8)

22maio07

Nesse Capítulo, Unger dá suas sugestões para os Estados Unidos, o lugar onde ele morou esse tempo todo.

Os EUA são a maior potência do mundo, mas está fora de sintonia com os debates do resto do planeta (ao contrário do que acontecia no século XIX, quando os grandes embates da Europa se irradiavam pelo mundo afora). Entretanto, os EUA são fundamentais para o futuro da esquerda porque a grande religião da humanidade atualmente é um ideal de humanidade que é mais forte nos EUA: é o ideal, encontrável em toda a cultura popular, do indivíduo que rompe com os constrangimentos de seu contexto social e constrói a si mesmo, não apenas do ponto de vista econômico, mas do ponto de vista da história de sua personalidade. O ser humano, portanto, deve preferir formas de convivência que diminuam o preço de servidão, exploração e baixeza que se deve pagar para viver em comunidade.

É esse ideal de humanidade que deve embasar a esquerda do futuro, mas isso coloca um problema: como os EUA, que mais do que ninguém se identificam com esses ideais, podem, ao mesmo tempo, não ter esquerda?

É porque esse ideal, nos EUA, é pervertido por alguns mitos:

1) O mito de que os EUA, na sua origem, descobriram a fórmula da boa sociedade, e que daí em diante as instituições não precisam mudar. Ora, os grandes momentos de dinamização dos EUA foram a Guerra de Independência, a Guerra Civil e a Grande Depressão/Segunda Guerra/New Deal. Esse fetishismo institucional impede que os EUA realizem o sonho que eles fizeram o mundo todo sonhar: a possibilidade do “little guy” (qualquer mané) ser senhor da própria vida, ideal que era bastante concreto no começo do século XIX, quando 9 em cada 10 homens brancos não tinham patrão.

2) O mito de que é possível ao indivíduo se construir e crescer sem depender da solidariedade social (o ideal de pequenos Napoleões que coroam a si mesmos). Daí vêm alguns problemas dos norte-americanos, como a preferência por um meio-termo entre a intimidade e o distanciamento, sua oscilação entre individualismo extremo e coletivismo extremo [fundamentalismo religioso?], e sua necessidade de negar qualquer demonstração de fragilidade e dependência.

Isso não quer dizer que os norte-americanos não tenham sido singularmente capazes de cooperar nas mais diferentes situações e (ver capítulos anteriores) serem bem-sucedidos de diferentes formas, com o livre-mercado tanto quanto com o dirigismo econômico da época da guerra.

O que falta é um equivalente do New Deal Rooseveltiano. E entre as coisas que impedem que isso aconteça está a herança da Guerra à Pobreza, do Lyndon Johnson, nos anos 60, que definiu a pobreza como um segmento demográfico específico. A segregação racial foi definida como o mal supremo, e as políticas de ação afirmativa alienaram muitos setores sociais que poderiam apoiar políticas de esquerda. E, para colaborar, a esquerda fez três besteiras:

1 – Tentar judicializar a política [imagino que se refira ao Roe vs. Wade, processo em que o aborto foi legalizado por decisão da suprema corte]

2 – Tentar impor a agenda modernista das minorias urbanas – em especial a legalização do aborto – ao conjunto da federação. A decisão sobre o aborto deveria ser deixada para os Estados, e as mulheres pobres que quisessem abortar, mas vivessem em Estados onde isso fosse proibido, deveriam poder contar com transporte gratuito para outros Estados.

3 – Aceitar a ortodoxia econômica, ao invés de usar o esforço fiscal necessário para propor novas alternativas econômicas [economizar o máximo para poder gastar em outras coisas, ver abaixo]

Houve quatro abordagens de combate da desigualdade racial: (a) a integração dos negros livres em posições subordinadas, mas seguras, do sistema – como pequenos burgueses, (b) o separatismo negro, uma palhaçada miserável [frase nossa] que, apesar do blábláblá, acaba levando ao mesmo isolacionismo subordinado do item anterior, (c) a ação afirmativa, que produziu ganhos importantes, mas separou as lideranças negras potenciais de sua base, gerou hostilidade dos trabalhadores brancos, e beneficiou muito pouco a “underclass” negra, que mais precisava de ajuda. Além disso, a opção preferida é (d) tratar o problema da raça pelo problema da classe, e resolver o da raça através do combate à pobreza (que tende a ser negra). Naturalmente, expressões claras de racismo devem ser criminalizadas de qualquer maneira.

Segue o núcleo do programa, o mesmo dos dois capítulos anteriores: imposto sobre consumo, alta taxação, alta taxa de poupança + aproximação com o investimento, uma série de agências promovendo a inovação organizacional e tecnológica e competindo entre si, etc., mas as medidas já expostas para fortalecer o trabalho. Especial atenção deve ser dada ao fortalecimento do setor voluntário da economia, tradicionalmente muito forte nos EUA, mas em declínio. Esse setor deve ser fortalecido com o direcionamento de parte das deduções fiscais de caridade para fundos de apoio aos necessitados (independentes do governo), bem como da idéia de que todo cidadão saudável deve participar da ajuda aos necessitados pessoalmente. E, finalmente, a política deve se tornar mais flexível, sem o culto exagerado da constituição, e com a possibilidade de plebiscitos para resolver impasses entre poderes (bem como outras formas de acelerar a mudança democrática).

Essas mudanças têm que ser trabalhadas no contexto do espírito da nação, que, no caso dos EUA, tem as seguintes qualidades: energia, engenhosidade, generosidade, boa fé prática, disposição para cooperar, e o sentido de que algo está faltando de suas vidas pessoais e nacional. E os defeitos são a idolatria de suas instituições, o fracasso em admitir que a auto-construção individual depende da solidariedade social, sua disposição para se relacionar pessoalmente pela média distância, sem os benefícios da solidão nem da companhia [Millor: chato é quem não te deixa sozinho nem te faz companhia], e sua falta de imaginação [dessa eu discordo totalmente: americano é criativo a ponto de ser doido, mesmo que isso não se manifeste politicamente].

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