Livro Legal: "Sobre Cigarras e Formigas", do Palocci

24maio07

Naturalmente, nenhuma das pessoas bem informadas que lêem esse blog vai comprar esse livro por causa da historinha, que todo mundo conhece. Por isso vamos destacar alguns pontos que parecem interessantes (além do trecho sobre a Agenda Perdida, já comentado):

1) Suspeito que o Brasil tenha dado uma sorte na sua política econômica (alguma hora tinha que acontecer) quando teve, em seguida, Armínio Fraga e Antonio Palocci como czares sucessivos da economia. O nível intelectual e político dos dois é muito superior ao da média nacional (ahhh bom).

2) Palocci é sinceramente convertido à moderação econômica. O livro é, antes de mais nada, um manifesto pelas reformas de mercado, tanto as “de sempre” (trabalhista, das agências de regulação, da previdência, etc.) quanto, com especial entusiasmo, da agenda microeconômica (melhoria do ambiente de negócios, desburocratização, melhoria do acesso ao crédito, etc.). Defende a proposta do esforço fiscal de longo prazo, e a cita, inclusive, como uma das causas de seu enfraquecimento político (o fogo amigo). Sugere que, em algum momento, o Brasil considere abrir mais sua economia como forma de conseguir acesso a mercados internacionais. No final do livro, e, na minha opinião, sem a ênfase que me pareceria adequada, se refere à necessidade de uma política de inovação.

Mais: em vários momentos, enfatiza que uma das virtudes de sua gestão foi a ausência de medidas “heterodoxas”, e expressa sua admiração por grandes economistas (alguns mais, outros menos) mainstream. Especialmente interessante é sua discordância com Marco Aurélio Garcia, que defendia a política econômica, mas sugeria que ela fosse apresentada como reação necessária às besteiras do governo anterior. Palocci não nega que houve besteiras no governo anterior, mas afirma que a moderação econômica é boa e pronto, de qualquer maneira.

3) Ninguém deve esperar grandes polêmicas, pois Palocci é patologicamente diplomático, o que, no sistema político brasileiro, é, sem dúvida, um progresso. Mas fica a impressão de que seu grande crítico dentro do governo não foi o Dirceu, como se pensava, mas o Mercadante.

4) Interessante o episódio da negociação com o Gordon Brown sobre ajuda internacional. Há várias histórias interessantes como essa.

5) Sobre o episódio da queda do caseiro: o argumento é bem construído para mostrar que as denúncias eram motivadas politicamente. Começaram exatamente quando saiu a primeira pesquisa com a recuperação de Lula. Palocci diz que uma grande figura da política nacional (não identificada) o chamou em casa e disse que, em uma reunião, PSDB e PFL resolveram que a única forma de deter a nova ascensão de Lula era ir atrás dele. Mostra que as acusações do caseiro eram fracas (em várias das datas que o caseiro disse que ele foi à casa dos caras de Ribeirão Preto, ele estava em viagem internacional) e até aí está tudo beleza.

6) O problema, naturalmente, que, a meu ver, justificou sua queda, foi a quebra de sigilo, imperdoável. Nessa hora, Palocci, em duas páginas, afirma que não quebrou o sigilo nem vazou a notícia, mas diz que acha que quem fez isso fez para ajudá-lo, e portanto, pede desculpas e assume “responsabilidade política”. Enfim.

Nós aqui continuamos onde sempre estivemos: o Palocci foi um salto qualitativo na gestão de esquerda brasileira, que, aparentemente, não deixa sucessores.
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