Morre um cara fodão: Richard Rorty

11jun07

O filósofo americano Richard Rorty morreu ontem. Amanhã vocês vão ver vários obituários explicando melhor a filosofia do cara, na qual há algumas coisas interessantes, mas também há uma certa teimosia, meio que uma pirraça, em admitir que a idéia de verdade pode ser útil. Mas aproveito para falar de algumas coisas que li dele e que, indiscutivelmente, provaram para mim que o cara era inteligente (além de escrever brilhantemente).

1 – Um ensaio chamado Trotsky e as Orquídeas Selvagens, publicado, se não me engano, no livro Philosophy and Social Hope. Os pais do Rorty eram militantes trotskystas, e ele foi criado em um ambiente altamente politizado, por isso sentia um certo remorso por gostar de subir uma montanha lá para procurar orquídeas (acho que era essa a história). O ensaio mostra como ele foi aprendendo a conciliar a militância política e o gosto pela cultura. Aliás, não sei se é nesse ensaio ou em outro que ele diz mais ou menos isso: você pode admirar o Trotsky, mas é difícil negar que a Rússia teria se dado melhor se a turma dos mencheviques tivesse ganho. É verdade.

2 – Um ensaio em que ele discute o quanto se pode deduzir o nazismo do Heidegger da sua obra (ou, em geral, a posição política do cara da obra do cara). O argumento é uma historinha: imagine se o Heidegger tivesse casado com uma namorada judaica e largado a mulher ariana (lembremos: Heidegger foi amante da Hanna Arendt). Não daria para ele virar nazista. Mas ele certamente poderia ter continuado com a mesma filosofia que tinha. Provavelmente teria ido par ao exílio, e virado um conservador mais ou menos moderado. Perfeito.

3 – O livro “Realizando a América”, combinado com “Back to Class Politics”, do Philosophy and Social Hope. O livro é um antídoto para o antiamericanismo da galera. Mostra o lado realmente grande dos EUA, inclusos episódios da história da luta da esquerda norte-americana pré-1968. Em no Back to Class Politics, ele argumenta que a esquerda americana precisa voltar a ter a velha base social meio entediante (trabalhadores, sindicato dos contadores, essas coisas) que lutava por melhorias sociais. Nesse e em vários textos, critica a esquerda americana pós-1968, que só quer saber de identidade e se lixa para a solidariedade social. Aliás, acho que é ele, e acho que é nesse texto, que ele lembra que muitas das conquistas sociais atribuídas à turma dos anos 60 foram conseguidas nas lutas da década anterior, como o fim da segregação racial, os direitos das mulheres, etc.

4 – Os textos do Rorty foram o primeiro lugar em que ouvi falar da filosofia pragmatista, à qual não me converti porque não tenho competência para me converter a filosofia nenhuma, mas que me parece uma coisa a ser levada em conta. Lembro da frase que ele sempre cita, creio que do William James, “A verdade é o que funciona em termos de pensamento”, (the expedient in terms of truth, estou citando de cabeça e traduzindo meio nas coxas). Depois o Giannotti me mandou ler o Wittgenstein, li uns ingleses contrários à idéia, mas, se um dia eu fosse escrever sobre filosofia (podem ficar tranquilos, não vai rolar), essa seria uma das idéias com as quais eu dialogaria. Agora, suspeito que o bom senso que ele tinha com relação à esquerda e ao pessoal de 68 pode ter faltado com relação ao próprio impulso iconoclasta na filosofia dele.

Eu já suspeitava que ele estava doente porque não vi tanta coisa dele tendo impacto na discussão política pós-11 de Setembro.

Esse vai fazer falta.

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