Livraço: The Right Nation, de John Micklethwait e Adrian Woolbridge

23jul07

Para vocês terem idéia de como esse livro é bom, o Micklethwait virou editor da The Economist depois de escrevê-lo. É de 2004, se não me engano, mas só agora tive tempo de ler.

O livro é um estudo sobre a “Nação à Direita”, o conservadorismo americano. O tema é fascinante para quem gosta de política: o conservadorismo americano é um movimento organizadíssimo (o que não quer dizer centralizado), que atua em várias frentes – cultural, política, religiosa – e consegue eleger presidentes conservadores no país mais capitalista (isto é, onde “tudo que é sólido” tende a “se desmanchar no ar”) do mundo.

Não dá para resumir o livro, alguém tem que traduzir e vocês têm que ler. Mas aqui vão algumas idéias discutidas, e comentários.

Há algumas tendências da história americana que favorecem uma nação à direita da Europa desenvolvida. Em primeiro lugar, dizem os autores, a geografia: os amplos espaços disponíveis para os poucos colonizadores garantiam que o sujeito que normalmente viraria um proletário pobre nas cidades conseguisse se tornar proprietário nas terras à Oeste.

O Wild West formou algumas das tradições do conservadorismo norte-americano, como a preferência por sentenças criminais severíssimas, típicas de áreas de expansão de fronteira, onde o Estado é fraco para impor a lei. Ao mesmo tempo, produziu a peculiaridade do conservadorismo americano, se contraposto ao europeu: o conservadorismo americano é um movimento expansionista e otimista, não defensivo ou nostálgico. É resultado da combinação de grandes oportunidades de lucro com o risco permanente de anarquia, característicos da fronteira, que geram uma ideologia ao mesmo tempo dinâmica e rígida.

Se os autores conhecessem a história brasileira, talvez preferissem dizer que não foi a geografia o fator preponderante, mas a atitude política diante da geografia. Se bem me lembro das minhas aulas de história, um dos episódios mais polêmicos de nossa história foi a famosa Lei de Terras, que declarou que as terras devolutas eram do Estado, o que matou na origem o processo de “corrida para o Oeste” no Brasil (ou, pelo menos, fechou-o aos pobres).

Há, além disso, a religiosidade intensa – grande parte dos primeiros colonos era formada por dissidentes religiosos, e a separação entre Igreja e Estado, longe de enfraquecer a religião, fortaleceu-a, pois, conforme era a intenção dos founding fathers, forçou as Igrejas a irem atrás dos fiéis ou irem à falência.

E há o fracasso da esquerda americana em lidar com a herança dos anos 60. Reagan conquistou vários eleitores democratas dizendo “Não foram vocês que deixaram os democratas, foram os democratas que os deixaram”. A partir do momento em que os democratas passaram a defender fanaticamente as bandeiras dos anos 60 (como, por exemplo, o direito ao aborto até quase o dia do nascimento, só revogado faz uns dois anos), perderam grande parte de seu eleitorado. Os negros, por exemplo, a mais sólida maioria democrata, também são um eleitorado mais religioso que os brancos. Lembram do que a Jandira Fhegalli fez na última eleição para o senado no Rio? Então, os democratas também fizeram, com o mesmo resultado.

Finalmente, há uma espécie de dinâmica global em curso: muitas das idéias novas (goste-se ou não goste-se delas) têm vindo da direita. A esquerda cada vez mais fala de “defesa dos direitos”, “defesa da soberania”, mas fica só na defesa, mesmo.

Agora, há uma tensão fundamental dentro do conservadorismo americano, que pode ser resumida entre os republicanos “não mexam no meu dinheiro” da Costa Oeste, representados pelo Reagan e, hoje em dia, pelo glorioso Schwaznegger, e a turma do cinturão bíblico, representada pelo Bush e sua turma. O problema é o seguinte: se é verdade que a maior defesa da direita vem do coração da América, também é verdade que esses são os setores com menos condições de competir economicamente. As áreas mais dinâmicas são ou controladas por republicanos Costa Oeste (minoritários dentro do partido) ou por democratas (ou, ainda, por republicanos meio democratas, como esses prefeitos de Nova Iorque que são repbublicanos mas defendem o direito ao aborto, os gays, etc.). Esse último ponto ainda enfatiza que essa diferença de interesse econômicos também são acompanhadas de diferenças de valores: o Schwaznegger está pouco se lixando se os gays quiserem casar, mas para a base do Bush isso provavelmente traria o apocalipse.

Enfim, livraço.

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