Mensalão

03set07

Com a publicação da Carta Capital dessa semana, reabre-se uma discussão daquelas que dificilmente serão travadas em clima de civilidade, mas, vamos lá: o mensalão existiu ou não? Minha opinião é a seguinte:

1) A Carta Capital tem razão em dizer que o mensalão – o pagamento mensal de propina a deputados para que votassem no governo – não foi provado. Não foi. Eu não acho que foi sequer investigado. A denúncia do Roberto Jefferson era: o governo dá dinheiro mensalmente para deputados de PTB, PL, etc. para aprovar emendas. As provas dessa alegação, portanto, seriam os depósitos (ou o súbito aparecimento de grana) nas mãos dos potenciais receptores do dinheiro. Que eu saiba, os deputados em questão (excetuados os presidentes de seus partidos, a quem,  em tese, cabia apenas reidstribuir a grana) não tiveram sequer seus sigilos bancários quebrados. Ao invés disso, descobriram uma grana preta que foi parar na mão do PT, uma parte da qual foi redistribuída para deputados petistas e aliados.

Em nenhum momento, que eu saiba, Jefferson disse que o mensalão era pago a parlamentares petistas. Se bem entendi sua denúncia, os aliados recebiam mensalão porque só os petistas recebiam cargos. Lembro dele dizendo “quando você não quer dividir o poder, precisa recrutar um exército mercenário”.

Vale dizer, o PT sempre votou fechado, e não vejo porque um deputado petista, que pela primeira vez na vida podia indicar aliados para cargos públicos, pediria suborno de 30 paus por mês. Por outro lado, dado que os referidos petistas são, em sua maioria, ligados ao Campo Majoritário do PT, é altamente plausível que, se o PT se metesse em caixa 2, eles receberiam o dinheiro primeiro.

Por isso suspeito que essa grana que descobriram aí não seja mensalão coisa nenhuma. É grana de caixa 2 que o Valério passou para o PT e ele redistribuiu entre aliados.

Então, concluirão vocês, estou dizendo que os acusados no STF são inocentes?

Não. Pois:

1) É possível que o mensalão tenha acontecido, mesmo. Não sabemos se aconteceu, porque isso não foi investigado a sério. Alguém devia investigar. Mas, de qualquer modo, não tenho como saber se aconteceu, porque, como já disse, ninguém investigou isso (embora, vale dizer, a Heloísa Helena tenha insistido na necessidade de se ir atrás dos acusados de receber o suborno).

2) Os defensores do governo afirmam que caixa 2 é ruim, mas não é essa coisa toda. Bom, caixa 2 por caixa 2, pode não ser. O problema é: em que sacanagem estavam metidos os financiadores do Marcos Valério (ou vocês acham que aquilo era grana do bolso dele?) para ter o incentivo para liberar aquela grana toda para o caixa 2 do PT? ESSE SIM É O ESCÂNDALO DE CORRUPÇÃO. Porque, se valia a pena um soborno daquele tamanho, imaginem a quantia envolvida do outro lado. O problema do caixa 2 não é tanto a violação da lei eleitoral (o que também é ruim), mas o fato de que, se o cara quis dar o dinheiro pelo caixa 2, não deve ser porque estava confiante na transparência de suas ações.  A grande questão, portanto, é saber se os corruptores conseguiram fechar a negociata.

Assim, é possível que processem 40 sujeitos (alguns dos quais são só uns manés) por um negócio que nem de longe é “o maior escândalo de corrupção da história do país”, e que sua condenação acoberte alguma sacanagem muito maior (a negociata dentro da qual o suborno do MV foi pago).

Além do risco de deixar passar um crime indo atrás de outro, temo pela insatisfação popular quando não conseguirem provar a tese da “quadrilha”, para a qual, pelo menos por enquanto, não há mesmo provas. Ou seja: é possível que o processo (que é justo, e já defendi aqui) acoberte uma sacanagem maior e não condene sequer os acusados da sacanagem menor.

Um colega advogado certa vez me disse que o Collor foi absolvido justamente por problema parecido: quiseram condenar ele por um imenso crime contra a civilização, ao invés de acusá-lo do que era possível provar. Ao acusá-lo do que ele não fez (ou pelo menos, não sabemos se ele fez), absolveram-no do que fez.

Agora, o principal é o seguinte: por conta da crise política, o Brasil perdeu um tempo que não poderia ter perdido e entrou em uma polarização imbecil que não interessa a ninguém. A oposição tem o dever de investigar, xingar, gritar, tudo isso, mas não de não querer votar as reformas necessárias. E o PT tem que parar com a defensiva e propô-las.

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3 Responses to “Mensalão”

  1. 1 Japajato

    É um princípio do aikido: se o seu inimigo ataca com um “8”, se defenda com um “2”; se ele vem com “6”, responda com “4”. Somando 10, não haverá excesso nem escassez de energia em sua defesa. Ou seja, para um movimento complexo e intricado do adversário a melhor resposta é uma defesa simples e direta, e vice versa.

    Isto posto, qualquer que seja a negociata que estão encobrindo deve estar bem à vista e parecer inócua a princípio ou extremamente maligna (dependendo do gradiente do mensalão), para se perder facilmente nessa cacofonia como inconsequência ou delírio, assim como uma via moderada é destroçada pelos extremismos do “debate” sobre o mensalão. Ninguém de fora vai prestar atenção no cara que serve café no plenário.

  2. Belo site, mestre! Gostei. Concordo com você, em gênero, número e grau. E também com relação ao que você colocou abaixo, sobre a importância do PT. Ah, só pra constar: voltei a atualizar o Amiano. Abs.

  3. 3 napraticaateoriaeoutra

    Grande Japajato! Pois é, faltou a defesa simples e direta. Majestade, postarei sobre vossa sumidade imediatamente.


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