11 de Setembro

11set07

Hoje faz seis anos da atrocidade perpetrada contra Nova York em 2001. Naturalmente, é hora de lembrar os mortos inocentes. Mas, se me permitem, vou tecer algumas considerações sobre o efeito do ataque sobre a esquerda mundial.

Na minha opinião, para a esquerda, 2001 foi muito pior do que 1989. A queda do Muro de Berlim foi uma eutanásia: o socialismo real era um morto-vivo que assombrava (e ainda assombra, em alguns casos) a reflexão sobre a esquerda democrática, e sua queda, ainda mais por ter sido precipitada, na Polônia, pelo movimento operário, deve ser saudada com entusiasmo. Para quem viveu no Brasil em 1989, especialmente dentro do PT, foi uma liberação.

O 11 de Setembro, por outro lado, foi um aborto. Muito aos trancos e barrancos, duas novas formas de esquerda se articulavam depois da queda do Muro, e da reação neoliberal radical do começo dos anos 90 (que, diga-se de passagem, tem vários legados excelentes): uma era o novo trabalhismo de Blair, uma nova versão da social-democracia com mais abertura para a economia internacional e menos estatismo. A outra era o povo de Seattle, aqueles moleques meio porra-loucas, mas que traziam um germe de ser um movimento de esquerda militante global. As respostas deles ainda eram muito toscas, mas as perguntas  – o meio-ambiente, o direito das minorias, a superexploração do trabalho – eram mais ou menos as certas.

Com o 11 de Setembro, Blair apoiou a Guerra do Iraque, e a turma de Seattle se aliou à esquerda tradicional em sua defesa de toda forma de excrescência reacionária que fosse anti-americana: o Saddam, o regime do Irã, o Chávez, enfim.

Eu não sei a saída pra isso, não. Mas o fato é que a nova fase da globalização encontra a esquerda democrática desarmada.

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10 Responses to “11 de Setembro”

  1. Concordo. Estávamos no ponto de construir, enfim, uma esquerda pós-totalitária, completamente democrática e republicana, quando veio o 11 de setembro. Depois disso, parece que parte da esquerda começou a namorar um certo autoritarismo, ao mesmo tempo que outra parte esqueceu seus compromissos de reforma social e política — não há mais a perspectiva de uma crítica democrática à democracia.

    Não causa surpresa que uma determinada direita esteja jogando no colo da esquerda, de forma sectária e sacana, é verdade, a batata quente da defesa da democracia. Voltamos ao pré-64, quando a direita chamava a esquerda de antidemocrática e isso era uma… meia-verdade! Abs.

  2. 2 Pictor

    Olha, ontem eu vi um sindicalista inglês falando que o movimento sindical nunca se internacionalizou (como o capital) apesar de todas as facilidades eletrônico-internéticas por causa do modelo hierárquico-partidário. Os partidos (e os sindicatos aparelhados) olham pra esse caos que é a internet e pensam “vamos perder poder” e a evitam a todo custo. Segundo o sujeito, ou o sindicalismo se arruma em novas bases ou a cada ano a idade média dos membros do movimento sindical vai aumentar um ano.

  3. 3 napraticaateoriaeoutra

    Artur, concordo, mas não entendi bem qual direita está tentando fazer isso.

    Pictor, é isso aí, mesmo (pô, eu só concordo com os meus comentaristas), mas devo dizer (pelo menos uma ressalva eu tenho que fazer) que há alguma solidariedade internacional de sindicatos apoiando sindicatos em lugares onde existem, ou existiram até outro dia, ditaduras. Os sindicatos ingleses estavam dando uma assessoriazinha para os novos sindicatos iraquianos (esses estão fodidos: todo mundo é contra eles, essa é, provavelmente, a única causa que une todas as facções em guerra no Iraque atualmente).

    No fundo, o problema é: alguma forma de sindicalismo internacional é necessária, mas, você quer ter um poder global administrado por um cara do PSTU? Alguma renovação ideológica precisa vir antes.

  4. Acho que um Reinaldo Azevedo, um Olavo e colunistas do MSM fazem o que afirmei: ao colocar que toda esquerda é totalitária, eles “resgatam” a democracia para o campo político conservador e, ao mesmo tempo, denunciam a “hipocrisia” de qualquer esquerda que tenha um discurso democrático. Assim, toda esquerda é comuna; mais ainda, e isso é curioso: é comuna e fascista. Embora julgue a tática vulgar, considero-a ardilosa, pois essa direita, dessa forma, desgruda de suas formas totalitárias. Já li neocon afirmando, por exemplo, que o nazismo é um totalitarismo de esquerda (!?) ou que o Estado social-democrata é um passo ao totalitarismo.

    Acho até interessante uma direita brasileira que “resgate” o discurso democrático; pena que seja um discurso que elimina qualquer diálogo com a esquerda, já que, por definição, esta é totalitária — no fundo, é um discurso que esconde uma forma sinuosa de fascismo, pois suprime um ponto central da democracia moderna: a alternância de poder (como a esquerda é totalitária, ela não pode estar no poder).

    Acho que essa manobra (ainda) retórica é muito parecida com a prática discursiva utilizada durante a Guerra Fria, especificamente no Brasil pré-64: toda esquerda era vista como um perigo à democracia, justificando assim qualquer tipo de golpe ou de meio para sua supressão. Enfim, esse discurso da direita nutre-se amplamente da ambiguidade de setores da esquerda (principalmente, da extrema-esquerda) em relação à democracia, quando estes defendem, por exemplo, Cuba, China e quejandos. Abração.

  5. 5 napraticaateoriaeoutra

    Artur, entendi o que você quis dizer, eu não poderia ter dito melhor, é isso mesmo.

  6. 6 Pictor

    Porra, napratica, você só concorda com os seus comentaristas!

  7. também creio que 11 de setembro só fortaleceu discursos autoritários. no ocidente a direita conservadora americana e no oriente o radicalismo islâmico. para mim é como se fosse uma briga de irmãos gêmeos-siameses. o trágico para a esquerda é que ela acabou indo a reboque nesta discussão. se com o povo de seatle e o movimento antiglobalização estava claro a existência de duras críticas em torno do capitalismo financeiro, com 11 de setembro isso sumiu de pauta. de uma hora para outra o debate passou a ser monopolizado pelo “terror”. e grupos de esquerda, sejam a extrema esquerda autoritária ou a esquerda libertária foram jogados no mesmo saco sob a alcunha de terroristas. ficou ainda mais fácil para a direita, por que aquela esquerda antiglobalização se transformou em movimentos contra a guerra do iraque. lembro-me que os primeiros protestos anti-guerra se organizaram da mesma forma que os movimentos antiglobalização, conseguindo até mesmo um apoio timido de uma direita liberal-democrática na europa.
    quanto ao futuro da esquerda pós-11/09 não sou tão fatalista assim. talvez essa onda de autoritarismo não seja das piores, talvez sirva para deixar as coisas mais transparentes, saber quem é quem. e disseminar novas lutas. talvez eu esteja sendo meio poliana, mas 89 foi um bem, serviu para sepultar dentro da esquerda um debate que já existia a tempo, a de que determinados projetos de esquerda foram autoritários e dogmáticos. depois disso ficamos mais livres, embora ainda existam setores que não fazem essa avaliação.
    a esquerda de hoje pode não ter a visibilidade como a de antes, até porque não existe mais organização central, opressor comum, estratégia universal, etc. a pluralidade tomou conta da esquerda e a transformou em algo mais horizontal, fragmentada e por isso mesmo mais dificil de ser quebrada.
    o poder imperial dos EUA continuará por algum tempo sendo uma grande bandeira, que pode tanto seduzir a esquerda a apoiar hugo chavez, irã, cuba, etc. como também apoiar o fim da ocupação no iraque ou o movimento contra o aquecimento global. resumir a esquerda a um ou a outro não dá.

  8. 8 napraticaateoriaeoutra

    Lafargue (ó, resenhei um livro sobre o seu sogro aí em cima), tomara que você esteja certo e a coisa seja mais variada do que eu ando pensando. Deve ser, mesmo.

  9. Concordo Plenamente… Para mim, suas considerações calaram fundo. Penso no 11 de setembro como uma dupla catástrofe: o atentado em si, claro, mas também o momento em que o discuso da diferença, da democracia das diferenças, do que havia de melhor nessas críticas ao capitalismo que emergiram entre os anos 1970 e 1990 (que foram fundamentais para a luta contra uma série de preconceitos, por exemplo, contra a discriminação racial e contra a discriminação pela AIDS, além da luta ecológica) caírem, em grande medida, na vala comum das ideologias.

  10. 10 napraticaateoriaeoutra

    Grande Renato, sejam bem-vindo de volta! Valeu pelos comentários, é isso aí mesmo. Se Vossa Senhoria tiver alguma idéia de como sairemos dessa roubada, diz aí.


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