Livro Bacana: “”O Capital” de Marx: uma biografia”, de Francis Wheen

11set07

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Gostei da idéia de fazer biografias de livros. No caso do Capital, isso é um trabalho que já deveria ter se tornado disponível para o grande público há muito tempo: quem ler o livro percebe que é um negócio fragmentário e incompleto, que só teve um volume publicado durante a vida do Marx. Os índices que Marx organizou para o livro já indicavam que a obra deveria ser imensa, e a parte efetivamente realizada era apenas um pequeno fragmento do que estava planejado.

Isso já tornaria difícil transformar o livro em um texto fechado em que se encerra um sistema. Mas, no caso de Marx, isso é ainda mais enlouquecedoramente difícil, por causa do método. Wheen mostra exemplos (fora do Capital) em que Marx usa a escrita dialética para dar uma enrolada, mas isso não quer dizer que só a usasse para isso.  No Capital, a cada capítulo novas relações são apresentadas, e as novas modificam bastante o que havia sido dito sobre as velhas. Daí que, se você tem um volume e faltam vários, fica difícil saber onde exatamente o cara queria chegar – e como interpretar o volume que você tem.

A melhor parte do livro é a narrativa do Marx escrevendo (ou não escrevendo, porque ele adiava o negócio por qualquer distração) o livro. Francis Wheen é um biógrafo famoso de Marx, e era de se esperar que privilegiasse esse aspecto. Se você ainda não se convenceu de que o Engels servia para alguma coisa (além de ter apresentado o Marx ao pensamento econômico da época), vai descobrir que ele servia pra encher o saco do Marx para ele parar de se distrair com besteira e escrever a porra do Capital. Para se ter uma idéia, Marx parou tudo por um ano para polemizar com um mané alemão de quem ninguém nunca jamais ouviu falar, levando o Engels à loucura. Quando o Engels viu que o Marx escreveu aqueles capítulos imensos, de 200 páginas, com só quatro ou cinco subdivisões, só faltou encher o cara de porrada: ninguém ia conseguir ler aquele troço.

O Marx acaba escrevendo o livro duro, com o casaco penhorado, com o fígado estropiado, coberto de furúnculos, e, vejam essa, teve que terminar de escrever em pé o finalzinho porque estava com hemorróidas. Esse tremendo encosto passou quando o livro acabou, o que fez o Engels achar que o problema de saúde do Marx era que ele não conseguia acabar o livro.

Aí passam vários anos, e o Marx morre sem fazer o segundo volume. Cabe ao Engels organizar os outros, e quando ele vê as anotações do Marx fica meio desanimado: eram escritos muito rascunhados, e o Engels teve que fazer um senhor trabalho de edição para fazer os dois últimos volumes virarem livros mais ou menos com cara de livro. O Kautsky ainda organizou o chamado “quarto volume”, com teorias do Marx sobre a economia clássica.

O livro ainda mostra a recepção do livro no movimento socialista europeu, entre os populistas russos, e entre os estelionatários, como um safado que copiou dois capítulos inteiros e publicou como se fosse dele. Essa história, entretanto, é muito longa e complicada, e até que o livro faz o melhor trabalho possível para contá-la em quarenta páginas. 

O problema do espaço também explica o outro aspecto da obra que deixa o leitor meio insatisfeito: no capítulo central, há uma espécie de resuminho do primeiro volume do Capital, bem bacana, mas, novamente, não dá pra fazer isso em poucas páginas. Faltou mostrar mais o aspecto incompleto, que ficaria claro quando se comparasse o primeiro volume com os outros dois.

O valor, por exemplo, é definido como o tempo de trabalho socialmente necessário para a produção de um bem. A chave aqui é o socialmente necessário: quem calcula isso é o mercado funcionando em competição mais ou menos perfeita, e o burguês sabe o que é socialmente necessário também pelos preços. Tudo fica mais complicado quando a competição não é perfeita, quando se leva em conta o papel da ciência, do Estado, etc., e há sinais claros de que o Marx pretendia abordar (ou abordou esquematicamente)  esses aspectos em outros volumes. Daí que se o estudante ler o primeiro capítulo e quiser sair por aí medindo o tempo de trabalho socialmente necessário, vai estar, com toda a probabilidade, perdendo tempo.

Quem não quiser ler o Marx, pode não ler. Há muitos outros autores que podem ensinar várias das coisas que ele ensina. Agora, quem quiser ler, tem que levar em conta que está lendo um esboço, um insight, que ainda nem começou a ser desenvolvido adequadamente. É um fato sociológico aterrador que um grande sistema tenha sido construído em torno dele, e servido de justificação para a opressão e o assassinato de milhões, e a sociologia das idéias políticas ainda não é boa o suficiente para explicar isso. Mas nada disso muda o fato de que o Marx era um pensador único, muito rico: baseado na minha experiência, quem tiver o saco de ler (e, repito, não é estritamente necessário fazê-lo) vai aprender coisa pra cacete.

Algumas coisas que você pode aprender com ele: 1) a maneira pela qual os homens se juntam para trabalhar é importante pra cacete para determinar como eles vivem juntos; 2) muita coisa política é inexplicável sem se saber que tem uns caras que trabalham e outros que organizam o trabalho – e a divisão de seus frutos; 3) o capitalismo anarquiza as relaçõe sociais e culturais de cima a baixo, e tende a mandar os Estados-Nação para o saco; 4) o capitalismo apropria uma parte cada vez maior da riqueza para a geração de mais riqueza, e a distribuição, tanto da referida riqueza, quanto do poder para decidir sobre ela, é condicionada pela propriedade dos meios de produção; 5) O trabalho sob o capitalismo gera uns caras que só tem o trabalho para vender, e têm cada vez menos controle sobre o trabalho: um dos seus principais interesses – diria eu, inspirado pelo Gorz, o seu principal interesse – é reduzir a jornada de trabalho para poder ter uma vida; 6) se alguém for dar um jeito nisso, são esses caras, os proletários, quem disser que vai resolver por eles está de sacanagem; 7) É difícil pra cacete inventar um sistema que resolva isso, e mesmo um cara brilhante como o Marx não conseguiu. 

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8 Responses to “Livro Bacana: “”O Capital” de Marx: uma biografia”, de Francis Wheen”

  1. Muito bom, especialmente seus últimos sete pontos sobre Marx. E, claro, muito boa a resenha — lerei o livro. Abs

  2. 2 Rabo de cobra

    Eu vi esse livro na prateleira e não botei muita fé, agora eu tenho que comprar – claro, quando tiver tempo para me dedicar à leitura. Bela resenha. Sou o último cara a gostar de Marx, mas já me peguei, sem querer, defendendo várias opiniões dele (as de verdade, não as que botaram na sua boca). Você que parece saber muita coisa dele, é verdade que ele chegou a aplicar na bolsa de Londres?

    Outra coisa que você disse sobre o controle do trabalho, que “se alguém for dar um jeito nisso, são esses caras, os proletários, quem disser que vai resolver por eles está de sacanagem”. Não há dúvidas. O problema é que socialista, na hora do vamos ver, são os últimos a acreditarem realmente na sociedade civil e entregam tudo para “cúpulas”, “núcleos duros”, etc.

    Como você bem lembrou no seu post posterior (ô combinação de palavras horrorosa) a este, o Solidariedade, combatendo o “socialismo real”, mostrou o que é verdadeira movimentação social.

    Quando você disse que “se o estudante ler o primeiro capítulo e quiser sair por aí medindo o tempo de trabalho socialmente necessário, vai estar, com toda a probabilidade, perdendo tempo”, achei fantástico. Isso deveria ser a primeira coisa no primeiro dia de aula de “Marx I”, ou “Introdução a Marx”. Como tem gente com muita tendência a se fanatizar nos cursos de Sociologia (sem demérito algum por essa grande Ciência), um aviso desses viria a calhar.

  3. Talvez a vantagem do ssistema que o Marx estava tentando combater sobre o sistema que ele construiu é que, ao contrário dos grandes sistemas utópicos, o capitalismo nunca foi utópico. O capitalismo nunca foi pensado ou planejado, a não ser post-factum: fica mais fácil, assim, incorporar idéias políticas e econômicas liberais, fazer ajustes de rota incorporando políticas de bem-estar social, usar a polícia pra baixar o cacete em operário, etc. Não existe modelo, paradigma. Aquele livro do Christopher Hill sobre as Origens Intelectuais da Revolução Inglesa é excelente nesse sentido – não é que o capitalismo seja o resultado de burgueses distraídos preocupados em ganhar dinheiro; o negócio é que o capitalismo é um processo histórico mais amplo e incoerente do que seus críticos conseguem dar conta.

  4. Ps: needless to say, a resenha é ótima, nem vou ler o livro 😉

  5. 5 napraticaateoriaeoutra

    Pô, galera, valeu, pelos elogios (momento macho).

    Artur, valeu, depois apareça e nos diga o que você achou do livro.

    RDC, eu tenho grande experiência com sociólogo e posso afirmar com segurança que é tudo picareta, inclusive eu. Valeu pelos comentários, realmente o ensino de sociologia está uma coisa terrível. Há alguma esperança em alguns centros, mas está feio, mesmo.

    Fiquei curioso de saber se o Marx investiu na bolsa, mas acho que, se não investiu, foi por falta de dinheiro. Esses caras boêmios eram menos malucos do que a gente pensa (fiquei curioso de ler a coletânea de artigos do Fernando Pessoa sobre economia, organizada pelo Gustavo Franco).

    Amiano, como sempre, fala com grande sabedoria. Realmente, a vantagem do capitalismo é ter evoluído progressivamente, dentro do regime anterior, se adaptando, enfim. Curioso é que o Marx mesmo diz que todos os modos de produção são assim, menos o socialismo (por que, afinal, seria esse o caso? Não sei, não).

  6. 6 Rabo de Cobra

    Nada como minha enorme erudição googleana. Parece que aquela história do Marx na Bolsa de Londres procede…

    “Como conta o historiador Niall Ferguson, no livro “A Lógica do Dinheiro”, editado no Brasil pela Record, Karl Marx, o autor de “O Capital”, escreveu a Friedrich Engels, seu colaborador a vida inteira, dizendo “ter feito uma festa na Bolsa de Valores”. Dizia Marx ao amigo: “Voltou a época em que, com tino e pouquíssimo dinheiro, dá para ganhar dinheiro em Londres”.

    “Três semanas mais tarde, ele escreve para outro amigo: “Tenho me dedicado, o que não deixará de surpreendê-lo, à especulação – em parte com fundos americanos, mas sobretudo com ações inglesas, que este ano parecem cogumelos, de tanto que se multiplicam (mais que qualquer sociedade por ações, verdadeira ou imaginária), subindo a patamares inteiramente despropositados para em seguida, na sua maioria, entrar em colapso. Com isso, já ganhei mais de 400 libras e, agora que a complexidade da situação política está ampliando as oportunidades, vou começar tudo de novo”, disse.”

    Aqui: http://www.letraselucros.com.br/noticias/pages.aspx?id=80

    É mole? E tem carinha que se anima a fazer protesto em frente Wall Street, da Bolsa de Sampa, etc, em nome do marxismo.

  7. 7 napraticaateoriaeoutra

    RDC, essa vai ter que virar post!

  8. Ando procurando um jeito de ler com proveito um “O Capital” e achei legal demais seus comentários. Valeu!


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