Longa Duração

13set07

No blog do Dan Rodrik, referência a um artigo de Nathan Nunn sobre o efeito de longo prazo da escravidão negra no desenvolvimento africano: as regiões de onde saíram mais escravos (que eram, na época, as mais desenvolvidas do continente) são hoje as mais estropiadas.

Segundo o autor, o link causal está no fato de que onde mais escravos foram capturados houve mais guerras inter-tribais (o que fez os ódios étnicos se acirrarem, e aumentou a probabilidade de guerra civil futura), o colapso de Estados locais, enfim.

Vou lá no Sequências Parisienses perguntar o que o Alencastro tem a dizer sobre isso. 

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16 Responses to “Longa Duração”

  1. 1 Felipe Basto

    O argumento é um pouco ultrapassado. Essas regiões eram mais desenvolvidas, muitas vezes, por causa do tráfico, um negócio altamente rentável.Muitos Estados militarizados se organizaram na África em função desse negócio e se dedicavam a captura de gente para comércio com os europeus. O colapso dos estados locais (nenhum nos moldes europeus)se deve a colonização imperialista (século XIX, Conferências de Berlim e Bruxelas)que demarcou suas fronteiras sem, obviamente, levar em conta rivalidades étnicas, ou incentivando-as,como no caso de Ruanda,. Os problemas entre hutus e tutsis só começou mesmo no século XX, quando um censo britânico declarou a existência de duas etnias e desmontou o sistema de posse de terras que mantinha a coesão social. Para saber mais tem o livro da Leila Leite que é ótimo: A África na sala de aula, que eu estou estudando em História da África.

  2. 2 Pictor

    Povo nenhum tem culpa pelo seu próprio subdesenvolvimento, a culpa é sempre dos imperialistas malvados, fora dos domínios imperialistas só há santos e mártires, nunca visões canhestras e políticas que funcionam a curto prazo. O que me lembra o Renan Calheiros… o nosso congresso não é uma merda enquanto reflexo da sociedade, o nosso congresso deve ser uma merda porque a CIA manobra pra esses putos serem eleitos né?

    (Pictor, o Direitista)

  3. 3 Felipe Basto

    Ok, Pic. Não havia na África(até o século XIX) estruturas de Estado do tipo que conhecemos hoje. Logo não havia políticas e visões canhestras sendo implementadas, a não ser a das metrópoles que só estavam interessadas em extrair o máximo possível do continente, muitas vezes com o apoio das elites locais. Num processo que começa com a tomada de Ceuta pelos portugueses e vai até o século XX,com a descolonização, quando os povos africanos começaram a tentar tomar as próprias decisões canhestras baseadas em visões obtusas que o FMI, a URSS, USA, o Banco Mundial e outros organismos legais e injustiçados tanto condenaram…
    Até a próxima.
    PS1: O Renan reflete a falta de política de educação e isso não é culpa do povo, mas dos “imperialistas internos” que se aproveitam daqueles que não tem o acesso que você parece ter tido. Pode apostar que ele não acha isso canhestro, uma vez que está dando certo, ao menos para ele.
    PS2: Acho melhor nós desenvolvermos tecnologia espacial, para o caso de sermos invadidos por alguma raça alienigena tecnológicamente superior,e sermos culpados pela própria escravidão.

  4. 4 napraticaateoriaeoutra

    Grande Felipe, valeu pela aula. É isso aí, mas eu acho que esses trabalhos de econometria sempre devem ser vistos como a identificação de um dos fatores que importam para explicar o fenômeno, o que não exclui explicações mais macro como as que você oferece.

    O Pictor gosta de dar uma esculachada mas a gente até entende o que ele quer dizer, que isso não impede que os governos africanos atuais sejam uma desgraça. Além do que, o cara anda por aí vestido de centurião e você quer que ele não seja imperialista?

  5. 5 Felipe Basto

    Pictor é quem eu estou pensando????
    Eu desconfiei, afinal não conheço mais ninguém que ache o latim uma lingua viva. Os governos de lá e dqui são uma bosta, mas como melhorar a curto prazo, sem educação, saúde e tudo mais? E por que eles iriam fazer isso, se a primeira consequencia seria sua expulsão do poder? Os governos só são uma bosta para quem não faz parte da mamata, eles se acham o máximo…

  6. 6 napraticaateoriaeoutra

    Felipe, quem mais seria? É ele mesmo. O homem, a lenda.

  7. 7 Pictor

    Pois é, Téo. O preconceito é tão grande que tem historiador que acha que africano nem política faz. No máximo come e dorme e mata ursos… Aliás, não tem isso na África né? Deve matar leão. Com os dentes, porque organizar caçada involve uma certa ação polítca e política é coisa de grego…

    Você já parou pra pensar porque é que os portugueses não entraram na África enfiando o pé na porta que nem policial em favela? Porque havia reinos bem organizados e fortes, e onde há reinos e sociedades há políticas e visões, mesmo que praticadas por ahn, africanos, capiche? Dom Sebastião que o diga… resolveu tocar terror por lá numa dessas cruzadas e foi parar no microondas!

    Agora, se os reinos africanos resolveram apostar no comércio de escravos com os europeus não dá pra dizer que a culpa é toda do colonizador malvado, né? A China também foi vitma de colonizadores malvados e tá deixando a gente pra trás… Acho os imperialistas malvados sempre estarão aí para fazer o papel deles, se eu fosse um cara grosso eu diria que “quando se quer muito dar a bunda tem sempre alguém pronto a comer”. Conheces aquela história da mulher que vive reclamando do marido? Pois que tome uma atitude ou foda-se, estou de saco cheio de ladainhas.

    E por favor não me subestime a ponto de achar que eu só quero jogar a culpa dos problemas da África nos africanos. Meu argumento foi um contraponto ao seu. Uma visão mais equilibrada deveria levar em conta ambos os fatores. Se bem que há argumentos “seguros” e argumentos “incorretos”. Mas isso aqui não é a academia, se eu tiver que ser PC neste blog não comento mais 🙂

    PS: Como vai tu, tatu?

  8. 8 fyiblog

    Concordo com o Pictor 1000%. Dizer que “Logo não havia políticas e visões canhestras sendo implementadas” doeu no fundo do estomago.

    Alem da China temos muitos outros exemplos que provam a completa falta de fundamento desse historicismo. Quer pais mais abusado que a Coreia do Sul? E olha que eles tem malucos por todos os lados hoje em dia!

    Dizer que casos como o do Zimbabue, que esta literalmente se desfacelando depois de Mugabe, sao culpa somente de influencias externas eh um absurdo na minha opiniao.

  9. 9 Felipe Basto

    Parei, Góes. O maior interesse deles na África era como parte do caminho para as Índias. Tudo (marfim, ouro, diamantes, escravos, sal, pimenta, etc) que eles podiam querer do continente era conseguido através das caravanas, que faziam a ligaçào entre as cidades e costa, eles só estabeleceram feitorias. A América também tinha reinos fortes e organizados, mas Cortez e Pizarro arrasaram tudo em dois tempos.As Cruzadas só ficaram em torno do Mediterrâneo, combatendo osárabes no Norte da África, acima do Saara, área sempre considerada como diferente do resto, daí a denominação “África Negra” comum a todo o continente. Os europeus não faziam a menor idéia do que tinha lá: Terra Incognita. China, EUA, Austrália, Canadá… todos colônias e bema nossa frente,mas um processo incomparável. PC,Eu? olha só VAI #%* NO !@^^++
    Por aqui,tudo bem. Abraços

  10. 10 Aparecida Francisco

    Bem meninos, parem de brigar. Ouçam a voz da jornalista de o A VOZ DA CIDADE que pretende ser imparcial como a profissão exige. De certo não saco tanto quanto vcs de História, porém vou consultar meus ancestrais e tirar algumas conclusões. Eparrê minha mãe, Oxalá meu pai. Pronto. Segundo minha tatatatatatarávo, um máxima é verdadeira: NINGUÉM É SANTO, MAS ALGUNS DEMÔNIOS SÃO PIORES QUE OUTROS.
    Nesse caso, é lógico que já existia um tráfico local entre os negros. Muitas tribos capturavam pessoas de outras e as escravizavam. Isso é tão sabido quanto a fórmula da água. Qual é mesmo a fórmula da água? Vou perguntar para o Garotinho. Bem, mas como estava dizendo muitos negros não só conheciam a escravidão como a aceitavam. Os primeiros escravos que foram oferecidos já eram escravos na África e não colocaram tanta resistência com os brancos, como fizeram os nativos (negros da terra ou índios) no Brasil. A coisa saiu de controle quando branquinho começou a levar Rei africano como gado nos navios negreiros.
    Aí tá a parada, sabe. É que não existe raça mais ruim do que imperialista. Eles detonaram etnias colocando tribos ( ou civilizações) com culturas diferentes no mesmo baláio de gatos.
    Afinal jovem imperialistazinho de Copa vc sei lá quantos séculos depois, não consegue distinguir A MIM das outras namoradas do Théo. Afinal, todas elas são negras mesmo…
    Só para constar fui confundida com uma tal de Carla (ex- horrorosa dele) 15 vezes, apesar de não termos NADA a VER UMA COMA OUTRA. Sou linda!
    Ps. Não consiguo ser impacial, é por isso q trabalho aqui e nào no GLOBO.

  11. 11 napraticaateoriaeoutra

    Baixou o Baixo Gávea aqui! Bom, minha opinião sobre isso é o seguinte:

    As proposições

    (1) O tráfico de escravos desarticulou as sociedades mais ricas da África e acirrou conflitos étnicos.

    (2) Reorganizações posteriores da geopolítica africana pelas potências européias tiveram efeito semelhante.

    (3) Os governos africanos pós-independência foram grotescamente incompetentes. No caso do Zimbabwe, citado pelo FYI, uma das colônias britânicas que tinha mais chance de se desenvolver se tornou o pesadelo de pobreza e horror que é hoje. Os governos africanos são também notoriamente incapazes de administrar as riquezas naturais africanas sem cair na tentação de montar uma cleptocracia que vive do suborno das companhias petrolíferas e/ou mineradoras. E a incompetência dos governos africanos favorece o conflito étnico, pois líderes impopulares têm dificuldade em assegurar a lealdade de seus asseclas, o que é mais fácil no caso de pertencerem todos à mesma tribo.

    Não se contradizem. É possível que sejam todas verdade ao mesmo tempo. O paper citado pelo Rodrik ajuda a estabelecer (1), mas não exclui nem (2) nem (3).

    Há também aqui o velho problema de se evitar a falácia de que, se você remover as causas, resolve o problema. Vou escrever um post sobre isso.

  12. 12 napraticaateoriaeoutra

    PS: de fato, Cida, você é mais bonita que a Carla :))
    PSdoB: galera, sempre que o Goes estiver incorporando o caboclo Pictor, vocês devem ler suas afirmações dando o desconto de que ele sempre está meio de sacanagem. Nesse caso, acho que estava mais querendo equilibrar o debate do que dizendo que a escravidão não teve nada a ver com o subdesenvolvimento africano.
    PStu: rapaz, como eu conheço maluco.

  13. 13 Olavo de Carvalho

    São os imperialistas de copa que sustentam com seus impostos os paladinos das ações afirmativas. Machiavelli sempre disse que é legal ser generoso com o dinheiro dos outros. Se nos mudarmos para os EUA só restará a vocês viver de retórica. Vão tirar dinheiro de quem? Portanto, respeito.

  14. 14 napraticaateoriaeoutra

    Ué, o Olavo de Carvalho já não tinha ido para os Estados Unidos?

  15. 15 Pictor PC

    Os portugueses conforme já se disse, só conseguiram estabelecer feitorias, a partir das quais obtinham “marfim, ouro, diamantes, escravos, sal, pimenta, etc”. Me
    parece coisa pra caralho. Essas mesmas coisas que você citou levaram os
    espanhóis a invadir a América, mas os portugas não conseguiram fazer o mesmo
    na África. Segundo um negão respeitável, professor da UERJ, não conseguiram
    exatamente porque não tinham cacife militar pra isso. Isso é a opinião do
    cara, eu não vou estudar África só pra discutir com vocês, mas o cara me
    parece mais razoável que ultrapassado.

    Agora, se em 1500 as potências européias não tinham condições de submeter os
    africanos da mesma maneira que submeteram os já dilacerados Incas e tiveram
    que se contentar em NEGOCIAR através de entrepostos, já em 1800 as potências
    européias tinham plenas condições de passar o rodo. E porque? Porque em
    algum momento alguns reinos africanos acharam legal passar 300 anos vendendo
    matéria prima pros Europeus, organizando sua economia enquanto fornecedora
    de coisas pra eles e torrando os lucros sabe-se lá como, ao passo que a
    Europa aproveitou pra fazer revoluções científicas e tecnológicas.

    O Brasil tem uma escolha semelhante: se a gente escolher passar os próximos
    200 anos plantando bananas enquanto a Venezuela investe em armas, a China na
    indústria e os EUA em tecnologia, qualquer destino escroto que tenham os
    nossos descendentes dever-se-á à maldade dos outros, mas também à nossa
    burrice.

    É isso. Um dia eu volto.

  16. 16 Edson Alves Jr.

    “Porque em algum momento alguns reinos africanos acharam legal passar 300 anos vendendo matéria prima pros Europeus, organizando sua economia enquanto fornecedora de coisas pra eles e torrando os lucros sabe-se lá como, ao passo que a
    Europa aproveitou pra fazer revoluções científicas e tecnológicas.”

    Uma dúvida, Pictor (se vc ainda estiver aí): pode-se falar que foi isso realmente foi uma escolha dos reinos africanos? Por acaso alguém no século XVI sabia que o progresso do mundo viria daquele monte de experimentos parecidos com alquimia ou da aventura quase suicida de ir em frente ao mar desconhecido? Se analisarmos os fatos com um olhar um pouco (um pouquinho só) menos anacrônico, não chegaríamos à conclusão que era muito mais racional para os reis africanos ficarem ganhando o seu dinheirinho com o tráfico de escravos e matéria-prima? Vc, no lugar deles e com o conhecimento que eles tinham, faria diferente?

    É uma coisa que eu acho engraçado na direita liberal. Vivem falando da incapacidade de um governo centralizado tomar decisões racionais frente ao mercado, mas acreditam que líderes políticos e sociedades inteiras teriam uma capacidade ainda mais sobrenatural: a de identificar as sementes de um gigantesco progresso futuro em práticas estranhíssimas que acabavam de surgir num local completamente desconhecido, e colocar os seus países nesse caminho. Os que não foram capazes disso, claro, não passam de derrotados ressentidos e incompetentes.

    Se vc falasse sobre o século XX pelo menos, vá lá. Mas no século XVI… Eu, hein.


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