Causalidade e Subdesenvolvimento

20set07

Aproveitando a animada discussão sobre o post da Escravidão, gostaria de fazer uma consideração, digamos, metodológica, sobre a questão das causas do subdesenvolvimento.

Normalmente a gente vê dois argumentos sobre isso:

1) A culpa é do passado colonial. Essa tese tem versões mais ou menos sofisticadas, mas a idéia vocês entendem claramente qual é. Em geral, quem defende isso costuma ser de esquerda.

2) A culpa é nossa por não fazermos as reformas de mercado que deveríamos. A culpa é da previdência, do gasto público, da regulação estatal, etc. Essa tese também tem várias versões mais ou menos sofisticadas. Em geral, quem defende é liberal.

Em geral supõem-se que é preciso escolher entre uma das duas teses, porque é preciso descobrir as causas do desenvolvimento para então descobrir o que precisamos fazer. Mas isso não é sempre verdade.

Stanley Lieberson, e seu clássico Making it Count, discute o fenômeno da “causalidade assimétrica”: x causou y, mas, uma vez que isso tenha acontecido, remover x não elimina y, que pode ser impossível de eliminar, ou talvez só eliminável por um terceiro fator, z.

Por exemplo: se eu te der um tiro (x), você pode ficar à beira da morte (y). Mas se eu remover a bala (x), você continua à beira da morte (y). A bala foi a causa do seu problema, mas sua remoção não desfaz o estrago. Para fazer isso, será necessário tratamento médico apropriado (z).

Isso é importante, por exemplo, na discussão sobre criminalidade. A pobreza aumenta o risco do sujeito se tornar criminoso (a maioria dos criminosos foram pobres), mas isso não quer dizer que, para que eles deixem de ser criminosos, basta eliminar a pobreza. Se alguém tivesse dado ao infante Beira-Mar a chance de ser, sei lá, operador de telemarketing, ele provavelmente não teria virado criminoso. Mas ninguém vai convencê-lo a deixar o crime agora oferecendo um emprego de operador de telemarketing.

Por analogia, é altamente provável que nosso subdesenvolvimento tenha sido causado pelo fato de termos sido colônias de exploração (vejam lá o Caio Prado Jr.). A esmagadora maioria das colônias de exploração continuam sendo pobres (com as exceções de sempre, Coréia do Sul e mais um ou outro), e, como provou um paper publicado faz um tempo no QJE (vou ver se acho), eram justamente as colônias mais ricas antes da colonização.

Isso quer dizer que a solução é eliminar a influência estrangeira nesses países? Provavelmente, não, por causalidade assimétrica. Agora provavelmente precisamos fazer outras coisas completamente diferentes para começarmos a nos desenvolver a sério. E é perfeitamente possível que o fator z seja o argumento 2) acima.

O que eu quero dizer é que os caras que defendem reformas de mercado agora não precisam, necessariamente, por isso, rejeitar, por exemplo, os historiadores marxistas do subdesenvolvimento. Por outro lado, os marxistas e desenvolvimentistas variados precisam parar de argumentar que a solução para o subdesenvolvimento está, necessariamente, em remover os fatores que o causaram quinhentos anos atrás.

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2 Responses to “Causalidade e Subdesenvolvimento”

  1. 1 Felipe Basto

    Boa, rapaz, ordem no pedaço.Mas discordo e,relação ao Beira, ele vem de uma família de classe média baixa, de comunidade,mas que nunca deixou faltar rango na mesa e nem morava em barraco. Foi bom aluno, estudou, fez segundo grau e desde pequeno os professores e colegas lembram dele como valentão, esperto e “do mal”. O cara está na mesma categoria de um Renan ou de um Cacciola, que é o que ele seria se tivesse condição. Lembra que quando se escondeu em Minas, ele foi cursar Direito? Tava se dando bem na faculdade, como muita gente pobre por aí, que precisa de bolsa e coisa e tal. Ele não precisava do telemarketing, podia conseguir mais por conta própria, da forma que subiu no tráfico subiria em qualquer empresa, mas não quis. O problema da questão é do vapor, do falcão, do aviãozinho, o carinha que não estuda, não pensa, não tem estrutura familiar, usa o que vende (o Beira não cheira,nem fuma), e só serve de bucha tanto pros Beiras da vida quanto pra fazer estatistica pra polícia.Passa na locadora e aluga o Falcão-Meninos do tráfico do MV Bill.Não tem nenhum Beira-mar.

  2. 2 napraticaateoriaeoutra

    Grande Felipe, é mesmo, o Beira-Mar não foi um bom exemplo. Mas vocês entenderam o que eu quis dizer.


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