História do Brasil for, quer dizer, by Dummies

20set07

Aproveitando que agora tem um monte de historiador lendo isso aqui.

Quando eu ouvi gente reclamando de que havia um livro didático fazendo propaganda marxista, achei logo que era uma dessas maluquices do Olavo de Carvalho e cia., que tanto reclamam dessas coisas que acabam desmoralizando a denúncia.

Afinal, meu livro de oitava série era escrito por um autor marxista, mas o cara em geral era competente, evitava pontos mais controversos, e, como os livros da época quase não tratavam do pós-guerra, se safava mais ou menos bem Não descrevia a tragédia do stalinismo com a ênfase necessária, mas não a escondia, e expunha o lado trágico da industrialização e do colonialismo com competência. Como todo livro sempre vai ter algum viés, não me impressiona que esse tivesse, e não conheço um único colega que tenha virado marxista por causa do livro.

Mas quando vi a reportagem do Ali Kamel no Globo, reproduzida hoje no Estadão, fiquei apavorado. A obra Nova História Crítica, de um vagabundo chamado Mário Schmidt, é um show de horrores. O livro que eu usei na escola era marxista como os livros do Hobsbawm são marxistas. Esse aí é marxista como um trotskysta que eu conheci no movimento estudantil, que vivia bêbado, sempre tentando convencer puta a dar pra ele em troca de conscientização política. Estou tentando lembrar se o nome dele era Mário Schmidt, mas não me recordo.

Vejam a matéria do Ali Kamel e o editorial do Estadão para ver que coisa horrorosa é o livro. O melhor momento, para mim, é esse, sobre o Mao:

“Foi um grande estadista e comandante militar. Escreveu livros sobre política, filosofia e economia. Praticou esportes até a velhice. Amou inúmeras mulheres e por elas foi correspondido. Para muitos chineses, Mao é ainda um grande herói. Mas para os chineses anticomunistas, não passou de um ditador.”

Já é ruim o cara esconder o fato de que o Mao matou 30 milhões de chineses de fome no Grande Salto para a Frente, o que o qualifica como o maior assassino de camponeses desde a Peste Negra (e tem gente no MST que gosta dele, um espetáculo). E deixemos de lado o fato de que, com a Revolução Cultural (porque só matar 30 mizinhos não deixou o Mao satisfeito, não), Mao lançou a China na Idade da Pedra, deixando o país por vários anos sem ensino superior e em total desagregação social. Deixemos de lado, enfim, o fato de que a China teria sido melhor governada por um macaco cheio de LSD nas fuças, e que o maoísmo foi uma das piores coisas que já aconteceram na história humana, servindo ainda de inspiração para o Pol Pot matar seu povo no Camboja até acabar a munição.

O que me impressiona é que o cara realmente acha que a mulherada dava pro Mao porque gostava dele. Depois de chegar ao poder, quantos foras vocês acham que o Hitler levou? A dona está andando na rua, o chefe da KGB para o carro e diz, “E aí, totosa?”, vocês acham que ela faz o que?

Outro grande momento é a discussão do quadro de Pedro Américo sobre a Independência do Brasil:

“um anúncio de desodorante, com aqueles sujeitos levantando a espada para mostrar o sovaco”.

Ou seja, as crianças já aproveitam para ir aprendendo um pouco de história da arte e semiótica.

Bom, é óbvio que todas as cópias do livro devem ser jogadas fora imediatamente, e seu autor forçado a andar pela rua de chapéu de burro (ele não gosta da revolução cultural?).

 Agora, o que eu achei esquisito foi o seguinte: segundo o Estadão, o livro foi aprovado pelo MEC em 2000 (Calma aí, Olavo, era governo FHC). Segundo matéria do Globo, foi aprovado também pelo MEC do Lula, mas em 2005 e 2007 foi rejeitado pela comissão que cuida disso, que o excluiu da lista de livros. Entretanto, segundo a matéria, esse ano ainda foram distribuídas milhares de cópias. Que porra é essa?

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7 Responses to “História do Brasil for, quer dizer, by Dummies”

  1. O autor publicou um esclarecimeto e uma crítica ao artigo de Kamel. Diz que Kamel descontextualizou as afirmações do livro e omitiu outras que, inclusive, criticavam Stalin e Mao. Quando li o esclarecimento, pensei que estava diante, novamente, de uma difamação interesseira de Kamel. Escrevi até no Hermenauta um comentário apoiando Mário Schmidt. Arrependo-me, pois, cotejando várias afirmações do livro, percebi que é um samba do crioulo doido; no mínimo, apresenta uma ambiguidade incompatível com um livro didático. Mao, por exemplo, é visto, ao mesmo tempo, como “um grande estadista” e “de forma parecida com Stálin, perseguindo os opositores e utilizando recursos de propaganda para criar a imagem oficial de que era infalível”. As afirmações sobre a URSS vão na mesma pegada: ao mesmo tempo, foi uma ditadura e um país onde, a citação é um evidente juízo de valor positivo, “o desenvolvimento econômico e a boa distribuição de renda garantiam o lar e o jantar para cada cidadão. Não existia inflação nem desemprego. Todo ensino era gratuito e muitos filhos de operários e camponeses conseguiam cursar as melhores faculdades. (…) Medicina gratuita, aluguel que custava o preço de três maços de cigarro, grandes cidades sem crianças abandonadas nem favelas…”. No final das contas, achei muito esquisito.

  2. 2 rabo de cobra

    Pois é, parafraseando um cara aí que eu esqueci o nome, o argumento de Mário Schmidt é que Mao não foi um fracasso, foi um sucesso mal explicado.

  3. Há um excelente texto de Kazumi Munakata, de nome “História que os livros didáticos contam, depois que acabou a ditadura militar no Brasil”. O texto faz parte do livro “Historiografia Brasileira em Perspectiva”, e apresenta uma investigação muito interessante sobre como, ao longo dos anos 1980 e início dos anos 1990, a indústria do livro didático atingiu um auto grau de profissionalização, aliando-se às pesquisas universitárias em história; enquanto isso, o Estado brasileiro ausentava-se de um projeto educacional, situação agravada por causa da briga entre os historiadores “petistas” e os “comunistas”, durante os debates de organização dos Parâmetros Curriculares Nacionais para o ensino de História (PCNs).

    O que se percebe, segundo Munakata, é um distanciamento enorme ocorrido entre Universidades e Editoras, de um lado, e o sistema de ensino, de outro. Enquanto, nos anos 1980 e 90, o Estado e os educadores brigavam em torno da redação dos PCNs, Universidade, autores e editoras continuavam seu trabalho. O resultado: muitos livros didáticos saíam carregados de marxismo althusseriano (foi o que ocorreu em Minas Gerais, por exemplo), ou, o que foi pior: muitos livros paradidáticos, construídos a partir da História Nova, diluíram-se no chamado “ensino temático de História”, na prática uma série de recortes temáticos tais como “Escravidão”, “Cultura Popular”, “Lutas populares”… Alguns paradidáticos que lidam com a história temática são realmente bons, mas a baixa qualidade da infra-estrutura escolar, a ausência de práticas pedagógicas adequadas, as deficiências na formação de professores, acabaram por transformar a proposta de uma história temática em uma verdadeira “história em fatias”… o resultado, segundo o Munakata, foi a produção em série de ignorância…

    Recentemente, alguns livros escolares, procurando uma linguagem mais “dinâmica”, uma abordagem mais “atraente”, acabaram por adotar uma linguagem de texto e uma diagramação que lembram, um pouco, os semanários e vários jornais… O resultado: generalizações grosseiras, anacronismos, juízos de valor de todo tipo. Pedagogicamente, muitos livros e professores, sob a bandeira da “crítica”, acabam apenas REFORÇANDO OPINIÕES.

    Quem quiser me criticar fique à vontade, mas… Ensinar opinião aos adolescentes, travestindo-a de saber acadêmico, professoral ou científico é desastroso! No mais das vezes o que se produz é um arremedo de história oficial juntada a um arremedo de história nova juntada a um arremedo de marxismo que, simplesmente, é um desastre! Não é nem mais uma questão de ideologia… Penso que a escola não pode ensinar opiniões, mas sim formas de entender, codificar, decodificar e refutar opiniões, ou seja: pensamento! Hoje, ela sequer melhora o senso comum, talvez o torna, apenas, mais confuso…

  4. 4 napraticaateoriaeoutra

    Arthur, é meio esquisito, mesmo, mas há frases que ficam em pé sozinhas. “Mao foi um grande estadista” é uma delas. Se o cara escrevesse “Os judeus tinham mais é que morrer, mesmo”, não adiantaria depois escrever depois “se bem que o Hitler era um filho da puta, também”. Vale dizer, suspeito que, se algum moleque leu mesmo o livro, deve ter ficado meio confuso.

    RDC, se não fosse mórbido, alguém poderia fazer um concurso de publicitários tentando defender o Grande Salto para a Frente. Se você defender isso, defende qualquer coisa.

    Renato, é isso aí, disse tudo.

    Pois é, continuo concordando com meus comentaristas.

  5. 5 Japajato

    Acho que a distribuição extemporã (?) se deve à inércia da máquina estatal, como sempre. Alguém deve ter esquecido de atualizar a lista de livros em 2007.

    Nitpicking, foi mal Na Prática, mas a KGB era (ainda é?) a polícia secreta soviética. Se o cara abordasse uma alemã no meio de Berlim em 1941 até eu saía com ele, porque ele devia ser muuuuito macho.

  6. O Haddad “explicou” que a lista de obras reprovadas pelo MEC é sigilosa, para não “arranhar a reputação” dos autores. Mas parece que agora resolveram que é melhor arranhar a reputação dos autores do que a vida das crianças e agora a lista passará a ser pública. Parece entulho autoritário, mas acho que é entulho editorial _ as editoras devem adorar a lista secreta dos reprovados.

  7. 7 napraticaateoriaeoutra

    Japajato, as frases sobre o Hitler e a KGB devem ser lidas separadamente 🙂

    Hermenauta, esse que eu achei o lado mais esquisito da história toda. Livro ruim sempre vai ter, mas como é que isso continuou a ser distribuído depois de ser rejeitado pelo próprio MEC é meio assustador.


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