A Cabeça do Brasileiro

21set07

Vocês já devem ter notado que todas as resenhas de livro aqui são a favor. Isso tem uma explicação simples, como estou apertado de grana, só compro livros que eu suspeito que vou gostar, livros bem resenhados por gente respeitável, de autores que eu já gosto, enfim.

Se tivesse mais dinheiro, compraria “A Cabeça do Brasileiro”, de Alberto Carlos Almeida, que, como não poderia deixar de ser, é sociólogo. Não compro porque suspeito seriamente que é ruim. Pode ser que seja excelente, não li. Mas minhas suspeitas foram reforçadas por um artigo publicado por ele no Valor Econômico e reproduzido no Hermenauta.

A idéia é simples: não se impressionem com o caso Renan, os brasileiros pobres não ligam para essas coisas. Termina assim:

“O meu pedido àqueles que têm superior completo é um só: tenham paciência com o Brasil, não esperem de nosso eleitorado o que ele não pode nos dar. As coisas estão melhorando, mas se trata de um processo muito lento. Em suma, hoje, a absolvição de Renan está de acordo com nosso eleitorado.”

Desde que o livro saiu, a turma mais oposicionista interpretou-o como explicação para a vitória de Lula em 2006. Não, a oposição não perdeu porque Alckmin foi abandonado pelos aliados, porque o eleitorado não acha seus aliados menos corruptos do que os de Lula (lembrem de Garotinho), porque o governo Lula conquistou bons resultados em várias áreas. Lula ganhou porque pobre topa corrupto numa boa.

Não critiquei o livro quando saiu porque não li, e é perfeitamente possível que o cara tenha feito um trabalho sério, que depois foi explorado politicamente por gente não tão séria. Mas, já que ele resolveu publicar um artiguinho sem-vergonha como esse, lá vai.

Aceitamos as seguintes premissas:

1 – Todos os dados indicam que a parte mais pobre da população, sob o governo Lula, experimentou uma explosão de consumo que, nas palavras do presidente do Ibope, pode ser caracterizada como “chinesa”, algo em torno de 9%.

2 – A classe média brasileira não experimentou, durante o governo Lula, nada remotamente semelhante.

3 – Os pobres votaram em Lula,  cujo governo recebeu várias acusações de corrupção.

4 – A classe média votou menos em Lula (dependendo de como você defina a classe média, eu acho que o Lula ganhou lá, também, mas não vem ao caso, é preciso refutar os argumentos em suas versões mais fortes).

O pessoal concluiu que o fato de 1 e 2 terem influenciado 3 e 4 é sinal de que os pobres se preocupam menos com corrupção. Esse procedimento é inequivocamente errado, 100% errado, não há a mais remota sombra de respeitabilidade nessa conclusão.

Para se entender porque, basta ver que seria igualmente legítimo deduzir que a classe média é mais sensível que os pobres à estagnação de consumo, o que é evidentemente um absurdo.

Um experimento para testar essa hipótese deveria submeter os dois grupos ao mesmo tratamento: isto é, se a expansão do consumo fosse a mesma para os dois grupos, e os mais pobres continuassem votando em Lula (deixando de lado todos os outros fatores), a hipótese de que os mais pobres não dão a mesma atenção a denúncias de corrupção permaneceria não-refutada. Entretanto, sem esse experimento, o voto parece completamente explicável sem qualquer referência a isso, ele reflete perfeitamente o quanto cada grupo ganhou materialmente sob o governo Lula. É o clássico “It’s the economy, stupid!”.

E, vejam, já houve experimentos semelhantes no Brasil. Maluf governava para a classe alta, roubava mais do que Marcos Valério jamais sonhou, e, por tê-la beneficiado materialmente, ganhava o voto entusiasmado da classe alta (inclusive da Hebe, do “Cansei”). Enquanto FHC dava bolsa-Miami para a classe média, fazia o que queria, depois que teve que arrumar a casa no segundo mandato penou para se livrar da CPI da corrupção.

Mas há ainda outro fator: o experimento só seria realmente adequado se os opositores de Lula fossem inequivocamente mais honestos, ou se, ao menos, o eleitorado não os conhecesse (como aconteceu com Collor e com o PT) e pudesse ao menos ter essa esperança.

Agora vai, neném, tente convencer o titio disso.

Para você aceitar a tese levantada, tem que responder afirmativamente à seguinte pergunta: se Lula tivesse proporcionado à classe média uma expansão de consumo de 10% ao ano, a classe média teria retirado seu apoio ao governo por causa das denúncias de corrupção?

Eu permaneço cético.

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3 Responses to “A Cabeça do Brasileiro”

  1. 1 Pera

    Bicho, não li o livro e provavelmente não vou fazê-lo. Só li o artigo falando sobre o troço. Então, o que vou falar é só pitaco, mesmo.

    Concordo contigo nos seus argumentos. Além do mais, essa história de que pobre é burro, safado e folgado só serve para justificar o fato de que, no geral, todos estão se lixando para eles. Quando li a resenha achei interessante mostrar que temos os políticos que merecemos. No fundo (ou nem tão fundo assim), passamos por cima do que é certo se nossos interesses forem atendidos. Agora, dizer que só pobre é assim já é forçar demais, mesmo.

    Abraço

  2. 2 Minetti

    Bem, li alguns capítulos do livro, e nesses poucos pude constatar que o autor não aponta o pobre em si como a causa. E sim aqueles sem instrução, que na maioria são pobres, mas não que o fato de não ter dinheiro seja a grande causa e sim o fato de não ir á uma escola.

    Não concordo porém, em várias parte do texto, quando ele cita que os graduados em maioria são contra o “jeitinho brasileito” pois na minha opinião, os mais abastados são os que mais aproveitam de tal ferramenta. Ai sim ele mostra nítida proteção a uma classe.

    Abs

  3. 3 Gabriela Ferreira

    Sou pedagoga e recomendo a leitura do livro, principalmente pela possibilidade de refletir em nossas atitudes como cidadão brasileiros.
    Na realidade o livro é excelente, pois critica a cultura brasileira, o jeitinho brasileiro, que para muitos é normal, porém na verdade não deixa de ser corrupção.
    Em momento algum deixa explicito que pessoas oriundas são “burras”, e sim, mostra que quanto maior o grau de escolaridade, maior as possibilidades de definir corrupção/jeitinho/ favor.
    Dessa maneira, as regiões sul, sudeste e centro-oeste, por terem mais jovens , logo, maiores índices de escolaridade caracterizam corrupção e os demais (nordeste) que tem pessoas mais velhas e com baixa escolaridade acreditam no jeitinho.
    Este jeitinho, citado por Almeida é o que vemos e também fazemos todos dias, é burlar as leis, dar um jeitinho de não pagar impostos, de cortar fila, entre outras coisas que, infelizmente, hoje faz parte da cultura brasileira, isso é algo que não encontramos em nenhum outro país com tanta “discaridade”, como se fosse atitudes corriqueiras.
    Bom, acredito que essa leitura é válida sim, pois evita a ocorrência do jeitinho, ou seja, evitamos a corrupção.


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