Morre um cara muito, muito fodão: André Gorz

27set07

gorz.jpg 

Foto: Libération

Puta que o Pariu, a Uliana acaba de me avisar que o Gorz morreu (vejam no Libération aqui)! Antes de dizer porque isso é importante pra todo mundo, digo porque foi importante pra mim:

Em 1995, eu havia tomado pau na seleção de mestrado e estava trabalhando num negócio chato. Enquanto isso, fazia duas matérias como aluno especial no mestrado. Na primeira, sobre pensamento liberal, com o (marxista) Reginaldo Moraes, li o debate sobre o cálculo socialista, entre o Hayek e o Lange, e me interessei por estudar economia. Na segunda, com o fodão da balaxita Josué Pereira da Silva, dei um seminário sobre o livro do Gorz, “Adeus ao Proletariado”, que me proporcionou três coisas importantes: 1) ficar amigo do Josué, um dos maiores especialistas em Gorz do mundo, com tese sobre o tema: Josué é um cara gente finíssima e brilhante, uma das influências decisivas sobre minha formação; 2) descobrir no Gorz uma saída do marxismo por dentro dos problemas mesmo do marxismo, não impondo ao Marx questões que não lhe interessavam e depois reclamando que ele não respondia; 3) ganhei a antipatia de uns marxistas ortodoxos muito chatos, e é sempre bom quando pentelho para de falar com você.

Eu não tenho competência para resumir o Gorz aqui,  leiam o Josué. Mas como a falta de competência nunca me impediu de fazer nada, lá vai:

1) O controle dos meios de produção não é mais, no capitalismo moderno, centralizado no capitalista: a firma capitalista é uma rede, um organograma, que pode ter várias formas diferentes de propriedade jurídica. De maneira que se você quiser estatizar esse troço, pode estatizar, mas as relações de produção vão continuar lá. 

2) O capital precisa de cada vez menos trabalho para funcionar. Esses caras excluídos do processo não são proletários. O proletariado tradicional provavelmente vai continuar querendo manter sua posição dentro dos regimes social-democratas europeus, e esses caras excluídos estão ferrados. Mas há outra alternativa: parar com esse negócio de puxar o saco do trabalho capitalista, e, por conseguinte, dos trabalhadores do capitalismo. Se a tecnologia permite liberar mão de obra, vamos todos trabalhar menos e fazer algo útil da vida no tempo livre, a mais clássica das reinvindicações do movimento operário, que, vejam só, só poderá ser realizada se formos buscar apoios além da classe trabalhadora tradicional. A idéia é uma jornada dual, parte com trabalho autônomo, parte com trabalho heterônomo (o velho trabalho capitalista).

3) Assim, o novo programa passa a ser: luta pela redução da jornada e ampliação das possibilidades de trabalho autônomo no tempo livre, luta pela renda básica independente do trabalho. O capitalismo continua aí, por ser mais eficiente, mesmo, mas passaríamos a levar mais a sério a idéia de que a sociedade não é só um modo de produção, e tentaríamos defender esses espaços de fora do trabalho, onde o cara pode ser realmente livre.

Certo, pode-se criticar isso de mil maneiras, o Gorz mesmo desenovlveu algumas outras posições; e eu não sei como conciliar isso com as coisas de economia das quais eu também gosto. Agora, vocês hão de convir, se eu conseguisse seria maneiro. 

O Gorz se suicidou com a esposa Dorine, pois nenhum dos dois admitia a possiblidade de sobreviver ao outro. O último livro de Gorz foi uma coleção de cartas a sua esposa, subtitulada “História de um Amor”. Alguém duvida que esse cara merecia mais tempo livre?

PS: bom post nesse aparentemente ótimo blog português, que será linkado aí do lado esses dias.

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10 Responses to “Morre um cara muito, muito fodão: André Gorz”

  1. 1 bensaiddeitapevi

    Caro blogueiro fã do Gorz:

    Lamento, sinceramente, a morte trágica do casal. Não sou insensível aos dramas pessoais. A obra do autor Gorz, no entanto, não deve deixar de ser avaliada. Tomemos, por exemplo, o que você destacou:

    “1) O controle dos meios de produção não é mais, no capitalismo moderno, centralizado no capitalista …”. Quem leu o Marx com a devida atenção jamais diria que isso vai contra os escritos dele. Classe social, em Marx, não pode ser confundida com um grupo identificável de pessoas, como uma pessoa ou um sujeito unificado e consciente à imagem do sujeito racional da psicologia clássica. Classe social, em Marx, não pode ser reduzida a um atributo de indivíduos ou de um conjunto de indivíduos. Uma classe social isolada, para Marx, é um não-senso, pois os fatos sociais, na sua obra, são tratados como relações.

    “2) O capital precisa de cada vez menos trabalho para funcionar…”. Isso foi dito pelo próprio Marx. O capital é um momento transitório do movimento da sociedade capitalista porque tende a reduzir ao mínimo o trabalho direto mas não pode prescindir do tempo de trabalho como medida da riqueza, daí que há, nesse processo, uma evidente contradição. Tentar manter uma sociedade fundamentada naquilo que tende a desaparecer. O resultado, portanto, será o socialismo ou a barbárie.

    “3) Assim, o novo programa passa a ser: luta pela redução da jornada e ampliação das possibilidades de trabalho autônomo no tempo livre, luta pela renda básica independente do trabalho…”. A luta, segundo Marx, não é a redução pela jornada de trabalho, porque isso significa manter as relações de exploração. A luta, segundo Marx, é a massa se apropriar do tempo livre. Entendeu a diferença? Apropriar do tempo livre. Sabe o que isso significa? Sabe porque apropriar-se do tempo livre? Porque o processo de socialização do trabalho, a redução ao mínimo do trabalho direto, a colocação do trabalho direto em suspenso, a transformação da ciência na principal força produtiva, faz com que o tempo de trabalho passa a ser uma medida “miserável” (ênfase de uma medida pobre) do valor. Não dá mais para definir qual a sua ou a minha participação na elaboração do produto, daí que o princípio distributivo correto é: de cada um, de acordo com a sua capacidade; a cada um, de acordo com a sua necessidade. Isso, caro blogueiro fã do Gorz, só é possível com a abolição do mercado, da propriedade privada dos meios de produção e do Estado.

    Desculpe-me, mas temos avaliações distintas e opostas ao trabalho do Gorz.

    Abraços.

  2. Legal, vosmecê gostar de Gorz. Li o cabra na década de 80. Causou polêmica no nosso marxismo recauchutado, velho e enfadado. Cheguei a assistir a uma palestra sua no início da década de 90. Gostei muito do seu “metamorfoses do trabalho” de 1988, se não me engano, e publicado somente em 2003 no Brasil. Seu último livro que li foi o “Misère du présent e richesse du possible” — não sei se foi traduzido. Um livro com veia utópica acentuada e que tenta ultrapassar teoricamente a “sociedade salarial” e a centralidade do trabalho. Já não gostei tanto.

    Sobre esse livro, há uma boa entrevista no endereço http://multitudes.samizdat.net/spip.php?article379. Sobre seu conceito de capitalismo cognitivo (tenho dificuldade cognitiva em entendê-lo), outra entrevista no http://multitudes.samizdat.net/spip.php?article1284

    Aí vai a notícia que recebi:

    “PARIS – O filósofo francês André Gorz, co-fundador da prestigiosa
    revista /Le Nouvel Observateur /junto com Jean Daniel, se suicidou em
    companhia de sua mulher em sua casa de Vosnon, no centro da França,
    informaram nesta segunda, 24, seus parentes.

    Os corpos dos dois foram encontrados um ao lado do outro, enquanto um
    cartaz colocado na porta pedia que a polícia fosse avisada. A mulher do
    filósofo sofria de uma doença degenerativa há anos.

    Nascido em Viena, em fevereiro de 1923, filho de um vendedor de selos
    judeu e de uma secretária católica, Gorz chegou a Paris em 1949, após
    ter estudado na Suíça.

    Logo entrou em contato com o mundo intelectual da capital francesa e
    começou a trabalhar como jornalista em diversas publicações, onde seus
    primeiros artigos foram divulgados sob o pseudônimo de Michel Bosquet.

    Em 1961, entrou para o comitê de direção da revista /Les Temps
    Modernes/, que tinha sido fundada em 1944 por Jean-Paul Sartre.

    Em poucos anos assumiu a direção política da publicação, onde se
    posicionou como o líder intelectual da tendência “italiana” da “nova
    esquerda”, inspirada em nomes como Bruno Trentin, Garavani e Vittorio Foa.

    Em 1964, funda juntamente com Daniel /Le Nouvel Observateur/, à qual
    esteve ligado durante anos, até que surgiram diferenças com os demais
    dirigentes, contrários a suas posturas radicais, cada vez mais
    inclinadas à ecologia.

    Seus ensaios e trabalhos neste campo o levaram a ser considerado um dos
    pais da ecologia política na França e do anticapitalismo.

    Desde o início da década de 90 estava afastado do mundo jornalístico e
    vivia em retiro ao lado da mulher em Vosno”

  3. 3 napraticaateoriaeoutra

    Artur, valeu pela matéria. Deve ter sido bacana ver a palestra do cara. Eu também não conheço o trabalho mais recente do cara, vou ver se descubro como é, quando souber posto sobre isso.

    Bensaid, não precisa pedir desculpa para discordar (e não acho que a história seja trágica).

    Sobre seus pontos:

    1) Concordo totalmente que a concepção do Gorz é a única interpretação razoável da concepção do Marx sobre classe, mas falta tirar a necessária conclusão política: de nada adianta mudar a propriedade de privada para estatal, as relações de produção continuam lá.

    2) Não há contradição entre as proposições

    a) O capital precisa de trabalho para existir
    b) O capital precisa de cada vez menos trabalho para existir, mas sempre precisará de algum trabalho.

    Como deve ser óbvio. Se não, reformulemos:

    a) Eu preciso levantar a cabeça para respirar enquanto nado.
    b) Conforme eu me torne um nadador melhor, precisarei levantar a cabeça cada vez menos frequentemente, mas sempre precisarei levantar a cabeça em algum momento.

    Isso é trivial. Contradição é um negócio muito mais profundo, é algo que necessariamente precisa se resolver, que não pode ser administrado. Essa aí não é, não.

    3) O tempo de trabalho socialmente necessário nunca é uma boa medida, é uma construção teórica que leva de um ponto do argumento do Capital a outros pontos, não desenvolvidos porque o livro não acabou. E ainda lhe resta o ônus de provar que, da proposição

    a) é necessário se apropriar do tempo livre.

    deve se deduzir

    b)Isso (…) só é possível com a abolição do mercado, da propriedade privada dos meios de produção e do Estado.

    Non Sequitur na maior, rapaz.

  4. 4 bensaiddeitapevi

    Caro blogueiro,

    Está claro que não consegui expressar-me adequadamente.

    No caso do primeiro item, por exemplo, há sim uam contradição entre a visão de Gorz e a de Marx sobre classe social. Gorz diz que, em certa época, o controle dos meios de produção estava centralizado nas mãos dos capitalistas, mas hoje já não está mais. O que eu não tive sucesso para expor é que, para Marx, isso nunca aconteceu, pelo simples fato de que classe social não é um grupo identificável de pessoas, não pode ser vista como uma pessoa ou um sujeito unificado e consciente à imagem do sujeito racional da psicologia clássica, não pode ser reduzida a um atributo de indivíduos ou de um conjunto de indivíduos.

    Não tive sucesso, também, no segundo item. O que eu quis dizer é que a constatação de Gorz, de que o capital precisa cada vez menos de homens para trabalhar, nada tem de original. Pior, e isso eu deixei de dizer, Gorz coloca isso num contexto de geração de desemprego, algo incompatível com Marx. O problema do desemprego, para Marx, está na queda da taxa de lucro, fruto da elevação da composição orgânica do capital. Tecnologia, para Marx, não causa desemprego. O que se desemprega aqui, devido ao aumento dos volumes de produção e aprofundamento da divisão social do trabalho, é absorvido ali. O emprego não acaba. O trabalho não tem fim. O que entra em colapso é o sistema baseado no trabalho para o outro.

    Talvez, pela omissão acima referida, eu não tenha tido sucesso em mostrar que a proposta de Gorz significa a manutenção do capitalismo. Como, afinal, se apropriar do tempo de trabalho excedente/livre se se mantém a propriedade privada dos meios de produção? Como manter o sistema de mercado se se acaba com a propriedade privada dos meios de produção? Como manter um estado que não passa de uma hipostasia, de relações sociais fetichizadas?

    Espero ter tido, agora, sucesso em mostrar que não vejo mérito no trabalho de Gorz.

    Abraços.

  5. 5 Décio Malho

    Sobre o ponto das relações de produção: isso foi dito antes por uma dúzia de marxistas não-leninistas.

    A piada é que agora os proletários disseram adeus ao Gorz. rá!

  6. 6 K.

    Gostei muito do seu blog.
    Sobre Gorz é uma pena, mas eles fizeram o que tinha que ser feito. Em vida e agora na morte.

    bjo

  7. 7 napraticaateoriaeoutra

    Décio, a piada é boa, mas, visto que o cara se suicidou, acho que foi ele mesmo quem disse Adeus ao Proletariado.

    K, obrigado pela audiência, seja bem-vinda, mas não acho uma pena, não. Eu acho que o cara teve uma morte gloriosa.

    Bensaid, valeu pelos comentários. A chave para nossa diferença está no fato de que o Gorz, de fato, não diz a ninguém para acabar com o capitalismo. Vou resenhar o livro do Ruy Fausto essa semana, vou falar mais disso, e aguardo ansiosamente seus comentários!

  8. 8 K.

    Eu também acho. Acho que teve a morte certa (se é que ela existe).
    O admiro mais por isso. Pena pra gente. Sorte a dele.

    beijo

  9. 9 zedeabreu

    Seu blog é uma surpresa das mais agradáveis. Sua maneira irônica e bem humorada deescrever sobre assuntos “cabeludos” é muito legal.
    Claro que cheguei aqui via Google, correndo atrás do Gorz. Estou escrevendo minha dissertação de mestrado e preciso urgentemente ler Adeus ao proletariado. Acontece que não achei para comprar em lugar nenhum e nenhuma biblioteca em Salvador possui a obra para consultar/emprestar. Sintomático, por certo.
    Agora, corro atrás de alguém que possua o livro para xerocar (fodam-se as editoras, pois a incompetência é deles.
    Se souber de alguém, por favor, me informe.

  10. 10 Luciano Pita

    Os filósofos já entederam o mundo. Agora vamos mudá-lo. Vejam bem, é na luta que construímos o mundo. Crer que o capitalismo irá alcançar naturalmente o socialismo é uma ilusão infantil. Apenas a contrução de um partido mundial e revolucionário pelos proletariados poderá produzir essa mudança, que acontecerá de forma violenta, em armas, ombro a ombro, nas ruas, com lideranças diversas em conflito ou não.
    O que define um proletário e sua consciência não é o seu emprego, seu trabalho, nem o fato de estar empregado, mas a sua natureza de quem só tem a prole para entregar aos patrões.
    Vejo tantos marxistas dizerem que a greve de anda adianta. Mas no final aceitam calados e felizes as conquistas que dela provêm. Somente na luta, na greve, no partido revolucionário é possível a mudança, a revolução. Se a teoria não partir desse pressuposto, o teórico acabará se suicidando em emio a tantas ilusões pueris.


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