Livraço: “A Esquerda Difícil” de Ruy Fausto

08out07

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Ao contrário do que eu pensava, esse livro não reúne os últimos textos do Ruy Fausto sobre política, mas sim textos mais densos sobre Marx e diversos aspecotos do Socialismo Real. É um livro muito bom, mas para um público específico – a turma do marxismo acadêmico que não terminou direito seu ajuste de contas com o totalitarismo soviético – é absolutamente indispensável. Por departamentos de ciências sociais por todo o Brasil, a ordem deveria ser parar o que se estiver fazendo e ler esse livro.

Coisas bacanas do livro:

1- O melhor texto que eu conheço sobre a relação entre o pensamento de Marx e o totalitarismo soviético. A idéia de que Stalin estivesse embutido n’ O Capital é besteira, mas Marx claramente tinha uma visão insuficiente da importância da política, e, em especial, dos riscos que uma revolução violenta trariam. E, o que é fundamental: o projeto do comunismo de Marx, uma sociedade totalmente transparente, era tão utópico (mais, em certa medida, do que os socialismos “utópicos” que Marx criticava) que se prestava à instrumentalização totalitária. A melhor frase sobre isso que eu já li está nesse livro (cito de cabeça, amanhã corrijo com o livro em mãos): “dada a insuficiência dos fins propostos, os meios foram utilizados para outros fins”.

2 – O livro não tem nenhuma complacência com relação aos regimes soviéticos, com relação aos bolcheviques, com relação a nenhuma variante do tema, inclusive – e isso isola o livro no meio esquerdista brasileiro – a cubana. O terror é descrito como se deve, os ditadores são chamados de ditadores, os genocidas de genocidas, e os vacilantes diante do genocídio são caracterizados como tais.

3 – O livro recupera os escritos de Kautsky, um tremendo autor, grande especialista em Marx do começo do século, que só entrou para a história como “renegado” na falsificação historiográfica bolchevique. A crítica de Kautsky ao autoritarismo bolchevique, feito na hora em que as coisas estavam acontecendo, desmente muita gente que só percebeu a natureza do regime na fila do fuzilamento por traição. Fausto não é condescendente com Kautsky, mas mostra como muita coisa boa em suas obras, bem como nas idéias dos mencheviques massacrados, foi perdida.

4 – Fausto mostra como o marxismo, mesmo em seus melhores momentos, não basta para explicar os horrores do século XX. Mesmo que se caracterize adequadamente o modo de produção existente na sociedade soviética, na China de Mao ou na Alemanha nazista, o horror experimentado por essas sociedades exige uma antropologia mais refinada. Tendo a discordar com a caracterização das sociedades do Leste como sociedades “controladas pela burocracia”, porque ela obscurece os conflitos entre dirigentes de empresas e administradores econômicos em geral, a burocracia propriamente dita, e o partido, que não era bem uma coisa nem outra (era, frequentemente, pior que ambos). Mas Fausto faz bem em distinguir o elemento “burocrático” dos regimes do Leste e seu elemento “despótico”, predominante em períodos como o stalinismo e o maoísmo (e levado além de qualquer limite no Camboja). No geral, entretanto, em que se possa discordar de algumas caracterizações conceituais, o julgamento político que Fausto faz do socialismo real é irrepreensível.

Minha reclamação: falta ao autor uma visão econômica do processo, que o leva, por exemplo, a acreditar que a redução da jornada de trabalho é solução para o desemprego – como se a demanda por trabalho não mudasse com esse aumento de preço. Em geral, o livro não é uma grande obra programática. Isso, evidentemente, é um mal menor: se Fausto chegasse ao poder e implementasse políticas sociais ruins, seria removido posteriormente em uma eleição que certamente reconheceria como legítima. O que é mais do que se pode dizer de seus críticos.

Descontado isso, o livro sem dúvida aponta na direção certa, e o fato é que um autor com o peso que Fausto tem no meio intelectual brasileiro – para quem não sabe, ele ensina Marx na Universidade de Paris – deu sua cara a tapa para ajudar a esquerda brasileira a abandonar seu entulho ideológico. Por isso, para sempre merecerá nosso respeito.

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5 Responses to “Livraço: “A Esquerda Difícil” de Ruy Fausto”

  1. 1 Fábio

    Mas é tão difícil abandonar esse entulho… requer uma mente aberta e um exame dos próprios preconceitos. Quantos de nossos amigos comuns não se rendem ao fácil mantra do “fora daqui o FMI (facista)” como panaceia futura para todos os males?

  2. Gosto muito de Ruy Fausto. Comprarei o livro. Sabe dizer se apresenta alguma novidade em relação à introdução “Hoje (introdução geral)” do seu livro “Marx: lógica e política”? Fausto defende uma esquerda pós-totalitária, e isso é fundamental nas discussões dentro da esquerda. Pessoalmente, acho que Marx tinha um “déficit democrático” menos por uma visão insuficiente da política do que por uma visão restrita da democracia — fazia, praticamente, apologia da democracia direta e das formas de organização, que podem se burocratizar rapidamente, tipo as da Comuna de Paris (a comuna e o soviete são parecidos). Marx tinha uma visão restrita da representação política por causa de sua visão restrita de democracia. Tal visão possui uma afinidade eletiva com a sua radicalização igualitária, isto é, com seu igualitarismo.

  3. 3 Fábio

    Calmae. Eu também sou fã da democracia direta. Quanto mais estudo os gregos mas nos acho uns merdas. Só que democracia direta é direta mesmo, não tem esse negócio de soviete que vota em soviete que vota em soviete que vota em soviete até chegar no politiburo. Preciso lembrar que Atenas VOTAVA nos generais? Que os funcionários públicos eram escolhidos por SORTEIO? Que guerra ou paz ou destituição de alguém eram atribuições do conjunto da população, através de assembléia?

    Talvez o problema todo esteja aí: Será que a democracia direta é extensível além dos limites de uma pólis?

    Agora… se for pra comparar a URSS com alguma coisa compare com o MIP (malvado império persa). Democracia direta, faz-me rir.

  4. 4 Fábio

    Olha, relendo ficou parecendo que eu estava apenas implicando com o Arthur. A questão central é que se uma sociedade se organiza em comitês que escolhem delegados para representá-los em comitês e assim por diante até um comitê central, isso não é uma democracia direta burocratizada. Essa “democracia” seria, por definição, indireta, se democracia fosse.

  5. 5 Felipe Basto

    Nada a acrescentar diretamente.É difçil para muita gente reconhecer que o credo de toda uma vida não faz sentido nenhum. Sobre renovação de esquerda e tudo mais eu achei isso hoje:
    http://revistacult.uol.com.br/website/news.asp?edtCode=8FE51465-5268-40F5-8990-0D4D00C2B0A4&nwsCode=FD286606-873E-4C18-BA04-3BCB70C8C781
    Não conheço esse Zizek, mas curto o som do Laibach. E juntar Marx e Lacan no mesmo saco deve dar samba.


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