Outubro/90: Alec Nove, História Econômica da URSS

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Se você não tiver tempo e quiser ler um só livro sobre a URSS, leia esse. Vamos comentar para dar uma resumidazinha do processo todo, a ser discutido em outros posts.

O livro dá uma geralzinha sobre o desenvolvimento da Rússia antes da Revolução, a roubada que foi para o czarismo entrar na guerra, e o estado de desagregação em que se encontrava a sociedade russa quando meia dúzia de bolcheviques conseguiu tomar o poder em um país daquele tamanho. Frase: “se um sujeito arromba uma porta com um único chute, algum crédito deve ser dado à porta”. Porta firme não quebra com um chute.

Nove descreve bem o comunismo de guerra, fase que vai de pouco depois da revolução até mais ou menos o fim da guerra civil, marcada por uma tentativa de estatização total da economia que deu grotescamente errado, com colapso da produção e crise de fome. Na verdade, o que se vê é que, quando os bolcheviques diziam que acabariam com a moeda, estavam transformando a necessidade em virtude: eles não sabiam era como acabar com a inflação.

Segue-se a NEP, um recuo estratégico em que Lenin readmite as relações de mercado, com propriedade estatal na indústria, mas propriedade privada no campo (que os camponeses tomaram na marra dos antigos senhores e depois garantiram na marra contra os bolcheviques, até que o Stalin foi lá e matou eles todos).

Chegamos então a um novo agravamento da chamada “crise das tesouras”: as tesouras são, em um gráfico, o preço dos bens agrícolas e dos bens industriais. Como a agricultura se desenvolveu bem mais, seus preços caíram bem mais, a tesoura abriu, e surgiu o seguinte problema: pra que os camponeses continuariam produzindo tanto se a cidade não tinha mais tanto para lhes vender por um preço razoável? Melhor voltar a produzir para a própria subsistência. E, naturalmente, matar o resto do país de fome.

[os economistas lendo isso estão pensando: porque não importar bens industriais baratos, porque não derrubar os entraves à concorrência na industria; lembrem-se, estamos falando de um regime comunista ainda entusiasmado de ter vencido]

No livro do Nove vocês vão ver vários dirigentes propondo deixar o campo se desenvolver mais livremente e taxá-lo, investindo essa grana na indústria: diferentes versões  dessa proposta circularam pela Rússia desde a época do czarismo.

Mas é claro que você também podia ir lá roubar tudo que os camponeses produziram e escravizar quem não morresse de fome, que foi o que o Stalin fez: a coletivização começa e progride desordenadamente, como confiscos de grãos, e depois vira uma competição de lealdade ideológica entre os comissários e burocratas, que não querem parecer “fracos” diante dos camponeses. O nível de alucinação disso é tão grande que o próprio Stalin escreve, no meio do processo, um artigo dizendo que alguns camaradas haviam ficado “tontos com o sucesso” e cometido, enfim, alguns excessos. Que beleza.

Mas o melhor ponto do Nove é o debate sobre a industrialização e planificação. Ele reconstitui o debate dos excelentes técnicos soviéticos, divididos entre as correntes genética (vamos ver como estamos daí a gente vê pra onde pode ir) e teleológica (vamos ver pra onde a gente quer ir, daí a gente vê como faz pra ir), e como o primeiro plano quinquenal começa genético e termina alucinadamente teleológico (quem que ia discordar das revisões do plano para cima e ser acusado de sabotador?). A economia planificada, na verdade, era uma mega mobilização de recursos, para produzir tudo o que der (voltaremos a esse assunto quando falarmos de outros livros).

[uma curiosidade: alguém aqui ia querer ser economista nessa época? Dizer pro Stalin, “pô, isso aí não dá pra fazer, não”? Se não me falha a memória, o primeiro livro de economia publicado na URSS desde que Stalin consolidou seu poder foi publicado depois de sua morte, e foi um manual da academia de ciências]

Nessas, e copiando o paradigma tecnológico fordista, a URSS se industrializou e se desenvolveu, ganhou a guerra (não, não foi por causa da ajuda americana), mas travou na hora em que o paradigma tecnológico mudou. Aí fez diferença o Ocidente ter a flexibilidade de milhares de empresas cada uma tentando uma coisa, e um mega sistema financeiro que aposta nelas mais ou menos racionalmente. A agonia foi lenta, mas a crise se precipita com a Perestroika e o vácuo de autoridade que então se cria (esse é um dos melhores capítulos do livro).

Certo, o livro tem pouca história política, nada  de história militar, etc. Mas se você quiser ler só um livro, ou se quiser começar a estudar economia soviética, eu aconselharia ler esse (e depois ir atrás das referências citadas).

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2 Responses to “Outubro/90: Alec Nove, História Econômica da URSS”

  1. Parabéns NPTO, bela iniciativa… Você resenhará “A luta de classes na União Soviética” de Charles Bettelheim? Sei, sei, é antigo, mas causou furor na época. Abs

  2. 2 napraticaateoriaeoutra

    Valeu Artur, e não tem jeito de eu não escrever sobre o Bettelheim.


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