Tropa de Elite (agora eu vi)

17out07

Finalmente vi o filme, e achei excelente. Antes de mais nada, é muito bom como filme, não tenho grandes competências para falar de montagem, etc., mas é inegável que ele funciona. o Wagner Moura é, como bem lembrou o Dr. vtYjr, um dos melhores atores do mundo, e o Fábio tem uma certa razão quando fala que parte da identificação do público com o Capitão Nascimento vem daí. A história é muito bem contada e muito boa em si mesma, cheia de reviravoltas interessantes. Enfim, recomendo.

Mas o debate que todo mundo está fazendo é, naturalmente, sobre a mensagem política do filme. Eu não acho que, em si, o filme faça apologia da tortura ou coisa que o valha; no começo do filme há, sim, um lado meio “herói de ação” no Capitão Nascimento, mas no final quem tiver prestado atenção vai sentir é uma enorme angústia sobre todos os personagens, Nascimento inclusive, mas sobretudo o par romântico do filme. Tampouco achei que os bandidos sejam demonizados: o traficante Baiano é, enfim, bandido. Ele coloca os caras no microondas, como efetivamente fazem os traficantes cariocas. Mas também tive a impressão de que ele, como todo mundo no filme, é um participante de uma guerra que ele não começou.

O Padilha, o diretor, é insuspeito de ser facista. Quem assistiu Ônibus 174 sabe que o cara não é insensível ao ponto de vista do criminoso (na época, muita gente falou que o filme elogio do bandido, o que também era errado).

Agora, o facista que assistir ao filme pode muito bem se entusiasmar com a tortura, assim como pode se entusiasmar com alguns textos do Nietzsche. Mas o cara não passou a achar isso porque viu o filme: ele já achava, e viu no filme uma confirmação do que achava. É, sim, provável que alguns facistas tomem mais coragem de defender a tortura em público por ela ter sido mostrada na tela através de um personagem carismático – acho que essa devia ser a preocupação do Felipe –  mas não acho que uma obra de arte deva ser julgada por isso.  

Me lembrei do filmaço “Paradise Now”, que retrata dois terroristas suicidas palestinos a caminho de um atentado. Ninguém vai me convencer de que aquilo é apologia do terrorismo, mas se um cara for já a favor do terrorismo, pode gostar do filme, vendo-o do seu jeito.

Enfim, podemos nos preocupar legitimamente com a repercussão social do filme, mas não podemos deixar que a probabilidade (sempre alta) de um filhodaputa ignorante manipulá-la seja o critério fundamental para seu julgamento.

Só mais um comentário: a explicação correta do Foucault é a que o Matias dá na reunião do trabalho de grupo (enquanto a playboyzada fuma maconha): com a modernidade, o poder se desloca da repressão mais brutal e direta (o poder de tirar a vida) para o poder de administrar o criminoso, prendê-lo, reeducá-lo, estudá-lo, enfim, discipliná-lo (no sentido de impor-lhe uma disciplina e no sentido de fundar disciplinas que estudem sua melhor administração). Não há em nenhum momento a idéia de que a sociedade disciplinar seja baseada nos abusos policiais, muito pelo contrário: essa violência desregrada é sinal de que ou a sociedade disciplinar ainda não está instaurada, ou ela já foi substituída por outra coisa.

O capitão Nascimento, se alguém quiser interpretar a coisa (e lá vou eu chutar), é um fruto da sociedade de controle (Deleuze): os traficantes ficam lá no morro vendendo drogas para a burguesia, mas são reprimidos quando excedem o espaço que o sistema lhes permite. Nascimento não quer educar ninguém, disciplinar ninguém; para isso basta o risco permanente de exclusão social. Em nenhum momento se passa a idéia de que seu objetivo seja erradicar o tráfico de drogas: ele só mantém o tráfico em seu lugar. Nascimento não quer prender, não quer disciplinar: quando a desordem dos excluídos sai de controle, ele mata os caras.

Portanto, quem quiser formar opinião sobre Foucault, esqueça o seminário da PUC e preste atenção no que diz o Matias. Bom, no fundo o filme já deixa claro isso (vejam só os diferentes graus de dedicação na preparação do seminário), mas como a turma de sempre está aproveitando para falar mal do careca, vale esclarecer. O Foucault falava umas bobagens atrozes (vide revolução iraniana), mas essas aí ele não falou, não.

PS: ótima resenha, e boa coleção de links sobre o assunto, no Idelber Avelar.

Anúncios


6 Responses to “Tropa de Elite (agora eu vi)”

  1. 1 Fábio


    Dá uma olhada nesse link, é um vídeo do BOPE ARGENTINO 😉

  2. 2 Mariana

    O Filme é péssimo! Do ponto de vista de entretenimento, muito bem feito, clean, você se diverte, entra e sai leve, sem levar nada na alma. Como arte, entretanto, é zero!
    É um filme comercial com tudo que tem direito.
    Linguagem, montagem, estética, narrativa… tudo batidaço! Nada de novo, enfim.
    A única originalidade foi o lançamento à corsária… se foi de propósito mesmo como andam dizendo por aí, foi bem pensado.
    Wagner Moura está bem como ator? Não sei dizer porque ele é um daqueles sujeitos cujo carisma isenta ele de qualquer necessidade de atuar… é aquele cara que você queria que fosse seu chapinha… charmoso, espirituoso, cheio de personalidade… no mais, não sei dizer mesmo!
    Claro que parte da identificação da massa com o Capitão Nascimento é devida
    à essa escolha (sempre é uma escolha!) do diretor.
    No mais, todos os outros atores são sofríveis, e ruim mesmo é o Matias porque franzir o cenho e abrir as asas do nariz, pra mim, é pouco.
    Mas vamos ao que interessa…
    Eu prestei muuuuuuita atenção e não senti essa enorme angústia sobre todos os personagens. Sem dúvida havia um simulacro da angústia de cada personagem. estereótipo adoidado… Pra mim, não colou. Simplório e pobre.
    Politicamente falando, o filme é reacionário sim e o Padilha tem de se decidir se emplaca um discurso pós-moderninho ou vai para tudo o quanto é debate dizer que não é apologia da tortura (eu diria banalização), muito pelo contrário, etc. Que ele pessoalmente não concorda com o Capitão Nascimento, blá, blá, blá… Já que resolveu enveredar pelo caminho Ética X Estética, discutir a responsabilidade social do artista, etc., agora aguenta.
    Ok, ele discorda dos métodos e da ideologia do nosso novo herói nacional. Ok, ele tem o álibi de ter contado a história do outro Nascimento. Então, das duas uma: ou ele é um p… diretor ruim, que tentou filmar uma coisa e saiu outra, oposta, ou ele é um p… diretor ruim e conseguiu apagar a perspectiva dele próprio no material que produziu. Brilhante artista esse! Mas, bom pra caramba de entretenimento, contudo. Mistura explosiva!
    E não vem com essa de que o filme era a visão do Bope, do Capitão! O discurso do filme (e, é claro, não me refiro apenas à narração verbal) é escolha do diretor. Só na montagem, um artista pode deixar sua marca sobre o produto. Veja o Homem Urso do Herzog!!!!!!! Faltou um olhar perspicaz para enxergar e expôr aquelas figuras humanas (ou não!rsrsrs), mesmo sem tomar partido (Cèline que o diga).
    A droga do filme é a visão do BOPE, mais especificamente, do emblemático Capitão Nascimento, e não tem nada de imparcial. Até aí tudo bem, se Seu Padilha não tivesse feito uma mera Fenomenologia do Ego. Ele devia fazer como o Matias, jogar fora o Foucault e ir ler Lacan.
    Se você que fazer uma análise real da gênese de figuras que assombram nossa sociedade como o Capitão Nascimento, Matias e cia. limitada, tá ótimo, mas não queira ler isso no filme, que é forçar a barra demais.
    Ademais, é banalização da tortura, sim. Só quem não sabe o que é a tortura é que aceita aquele retrato. Parece até que sâo cinco minutinhos de abuso somente físico que — ok, é errado pessoal, mas — dá infalivelmente resultado. Sem mencionar a figura do torturador… é aquilo ali? E o Fleury era apenas um cara meio bruto, né? Talvez em crise? Falou.
    Não defendo traficante, aquilo é uma barbárie — a estrutura dessas organizações criminosas sempre é –, mas sou humanista e pra mim foi aí que a coisa pegou.
    Dizem por aí que é implicância com filme nacional, que isso tudo é tolerado por nós em filme americano de ação, mas devo dizer que, tirando o sr. Jack Bauer da FOX, que eu particularmente repudio, nunca vi o herói, um representante do Estado (detalhe importantíssimo), torturando e explodindo a cara de criminoso rendido como ritual de passagem. Não nos filmes de que gosto.
    Agora, que o filme é a cara do Brasil, não tem dúvida.
    PS: Paradise Now é chato pra caralh… ! E óbviamente não vai ser visto como apologia do terrorismo., ou então eu vi outro filme…

  3. 3 Felipe Basto

    Finalmente alguém que viu o mesmo filme q eu! E escreve melhor. Concordo contigo em muita coisa, valeu.

  4. 4 Mao Tsetung

    Essa dicotomia entre entretenimento e arte, e a denúncia da arte vazia e contrarevolucionária, que a Mariana tão bem faz vão bem de encontro aos ideais da Revolução Cultural e da puta da minha mulher. Não à “arte” burguesa! Sim à arte proletário-utilitária-estatal! Que marchem perfilados e com cartazes os burgueses que assistiram ao filme tropa de elite. Que morram todos os que fazem filmes comerciais. Queimemos as cópias de Fred Astaire, símbolo do imperialismo ianque que tripudia sobre os famélicos do terceiro mundo. Arte mesmo é uma ópera campesina onde todos dançam de fuzil e uniforme. O resto é para se esquecer.

  5. 5 Com o Mao de Deus.

    Caro Mao. Você está mal… Sua visão estreita sobre a crítica da Mariana é sim uma espécie de contra revolução cultural de direita. Não há sequer um contra argumento aos por ela apresentados. Por incompetência, é mais fácil rotulá-la de panfletária. Nada mais útil do que se aproveitar de um estereótipo massacrado a desmerecer uma análise mais aprofundada que, por discordar de sua visão rasteira, é panfletária, tão superficial quanto a tortura ao estudante … Muito bem, está aprendendo direitinho. Vamos ser sincero agora, na realidade, o que é mais interessante em seu texto é o significado de “puta da minha mulher” é “vão de encontro aos ideais…”. O que posso recomendar: Se mate-se bi reflexivamente.

  6. 6 Mariana

    Meu caro Mao ( ah… os pseudônimos…), agora que você me abriu os olhos sobre o significado da arte, do entretenimento e, quiçá, da vida as we know it, meu mundo desmoronou por completo. Depois de chorar por horas a fio me achando a mente mais estreita e retrógrada que uma educação de esquerda já produziu, fiz um sério balanço e resolvi me confessar publicamente, e dizer:

    WTF are you talking about???

    Eu não saberia nem por onde começar a criticar seu acesso de “mexeu com o capitão, mexeu com toda a corporação” porque, além do fato de você parecer ter captado que eu não fui muito com a cara do tal Nascimento, nada mais se aplica. Non sequitur… dear.
    … (15 minutos depois)… Cara, juro que estou tentando te responder, mas tá foda!
    Você não teria por acaso recortado palavras a esmo de textos do Diego Mainardi e do Olavo de Carvalho, enfiado tudo num saquinho e sorteado um porção delas, teria?

    Ah! Olha só: fiquei meio preocupada com sua relação com o sexo feminino…
    Cara, deixemos Tropa de Elite de lado e vamos trabalhar um pouco essa questão… você está querendo falar sobre isso?

    Agora devo ir senão perco um episódio inédito de “Betty a Feia”- e eu adoro esse seriado burguês, imperialista, comercial, etc.


Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s


%d blogueiros gostam disto: