Outubro/90: “As Lutas de Classes na URSS”, de Charles Bettelheim

18out07

                                   luta-de-classes-na-urss.jpg 

Esse foi um dos livros importantes que eu li na vida, mas é muito esquisito. Imaginem um livro de história da URSS em quatro volumes. Nos dois primeiros volumes o autor é maoísta, o que quer dizer que ele puxa o saco do Lenin; nos dois seguintes, ele se desiludiu com a coisa toda, e desce o malho no bolchevismo (da história inteira do bolchevismo), mas enquanto fala dos anos seguintes. Isto é, no meio do percurso o cara mudou de opinião sobre o processo, mas não reescreveu os primeiros volumes.

Quem quiser saber mais sobre o Bettelheim leia esse post que eu escrevi quando ele morreu.

Resumindo o livro:

1) No primeiro volume o Bettelheim discute o seguinte: se você é marxista, o que define o capitalismo pra você não é o mercado, a livre-iniciativa, nada disso. Para Marx, o que define o capitalismo é a predominância do trabalho assalariado, que se define pela separação entre execução e planejamento dentro da fábrica e pela articulação das fábricas dentro do mercado (o que cedo ou tarde exige o salário em moeda para comprar bens das outras fábricas). Por esse critério, a URSS dos anos 20 era evidentemente capitalista, e o Lenin chamava ela mesmo de capitalismo de estado sob ditadura do proletariado (a segunda parte da fórmula é altamente questionável, mas nos dois primeiros volumes do livro o Bettelheim compra). A propriedade era estatal, mas as firmas funcionavam autonomamente: o planejamento só vem depois. A forma jurídica propriedade estatal não correspondia bem às relações econômicas concretas, ainda capitalistas.

2) Inacreditavelmente, o Bettelheim, depois de mostrar por A + B que a URSS de socialismo não tinha nada, dá uma puxada de saco gloriosa no Lenin, e mesmo no Stalin, até o segundo volume. Os capítulos sobre o controle operário mostram claramente que, desde o primeiro dia, os bolcheviques atacaram os conselhos de fábrica e os sindicatos, e enfatizaram a submissão ao diretor de empresa (que, volta e meia, era o antigo capitalista recontratado). Um dirigente bolchevista chegou a dizer que “o chão da fábrica deve tremer à passagem do diretor”, mas o Bettelheim não acha, nesses volumes, que isso sugere que, talvez, quem sabe, não se trate de uma ditadura do proletariado. Enfim.

Entre os volumes 3 e 4 Bettelheim muda de posição política e para de ser editado no Brasil. Que beleza.

3) Nos volumes 3 e 4 Bettelheim passa a usar abertamente o conceito de totalitarismo, e parece se inspirar muito no trabalho de Lefort e da turma do Socialismo ou Barbárie (Castoriadis, Lefort, Morin, etc.), na Hanna Arendt, etc. Fala mesmo em abandonar o marxismo (mas não Marx) como método, e parece se aproximar de uma posição semelhante, por um lado, da Escola da Regulação Francesa (que o reconhece como antecessor), e, por outro, da abordagem do Socialismo ou Barbárie. Também incorpora material dos dissidentes (em especial da Escola de Budapeste) e dos economistas húngaros (aguardem post sobre isso).

4) O Stalinismo é definido como “capitalismo de partido”, não tão convincentemente. A idéia é que com o Stalinismo o elemento propriamente burocrático (“de Estado”) perde importância em favor do elemento voluntarista totalitário (“de partido”). Isso é verdade, e evita os erros de muitos analistas que falam de dominação burocrática durante o período stalinista. Quanto à caracterização de capitalismo, a coisa é um pouco mais complicada. Bettelheim (um dos maiores especialistas em planejamento do mundo) não compra a tese de que a economia fosse planificada no sentido de administrada racionalmente, mas reconhece que o sistema de planejamento stalinista tinha, além da estrutura da fábrica (ainda capitalista na divisão do trabalho), um elemento de coerção típico dos períodos de acumulação primitiva de capital, que incluía também setores importantes da sociedade dominados pelo trabalho escravo (Gulag) e semi-escravo (coletivização agrária).

Vale dizer: antes das Lutas, o Bettelheim tinha escrito um livro muito interessante que deve ser lido juntamente com os dois últimos volumes acima: Cálculo Econômico e Formas de Propriedade. A idéia é simples (e o livro é apresentado de maneira desnecessariamente complicada): você calcula a partir das grandezas que você mede, o que você mede depende da natureza do objeto em questão. Uma economia organizada sob a forma de fábricas capitalistas ou evolui para outra coisa ou, se continuar como fábrica capitalista, deve necessariamente começar a usar cada vez mais as categorias do mercado, sob pena de ser ineficiente. Essa oscilação entre ineficiência e reformas de mercado caracteriza a história do socialismo real depois que não foi mais possível crescer simplesmente expropriando o campo ou aumentando o número de operários.

O trabalho do Bettelheim foi continuado por seus discípulos Bernard Chavance e Jacques Sapir, este último autor do ótimo A Economia Mobilizada. Chavance, aliás, é autor de uma observação curiosa sobre a crise do modelo soviético (eu acho que foi ele que disse isso, cito de cabeça): se tem um caso em que as relações de produção entraram em conflito com o desenvolvimento das forças produtivas, resultando na crise do sistema e na sua substituição, foi na União Soviética.

Infelizmente, como o Bettelheim me fez a besteira de ser stalinista, maoísta, etc., ele praticamente só é lido hoje em dia pelos caras que ainda acreditam no Mao, que, em geral, escondem os últimos livros do cara. À exceção de uma resenha dos anos 90, o último texto dele que eu conheço é um artigo em um debate sobre as reformas húngaras dos anos 80, em que ele as defende. Mas quem defende isso não quer ser visto em companhia de ex-maoísta, e maoísta não quer ser visto do lado de quem disse essas coisas, por isso o Bettelheim ficou meio no ostracismo.

Mas o que fica mesmo depois do Bettelheim é o seguinte: quando um cara vier defender a planificação total, pergunte sempre: e o trabalho, será planificado? No fundo, o modelo soviético foi uma tentativa de escravização em massa que fracassou porque essa estrutura política é incompatível com uma economia moderna (que a URSS construiu). Vale destacar, digo eu, a luta molecular do operariado soviético, que se recusava a se deixar escravizar, mudava de emprego conforme a melhor oferta, e fazia corpo mole quando começava a faltar bens de consumo no mercado, o que obrigava a burocracia a reestabelecer um mínimo de equilíbrio para que a moeda no bolso dos trabalhadores valesse alguma coisa e funcionasse como incentivo ao trabalho.

Eu acho que, dentro do marxismo, essa é a melhor análise possível do modelo soviético. Mas concordo com o Ruy Fausto: mesmo que isso tudo seja verdade, é preciso outras categorias para descrever o horror do genocídio stalinista. E, como veremos, há mais a ser dito sobre o sistema econômico soviético.

Anúncios


5 Responses to “Outubro/90: “As Lutas de Classes na URSS”, de Charles Bettelheim”

  1. 1 Romano Secreto

    Cara, preciso ler isso!

  2. 2 Rabo de Cobra

    Um pequeno comentário: graaaannde resenha!

  3. Grande resenha. Você é bom nisso. Só li os dois primeiros volumes. Pena que não traduziram os outros dois. Abs.

  4. 5 Edson Alves Jr.

    Ah, eu li o post de quando o Bettelheim morreu, e fiquei bastante curioso de como o o Hayek o tornou social-democrata. 🙂

    Eu mesmo ainda sei muito pouco do austríaco, apesar de ter cruzado com tanta gente expondo os argumentos do sujeito que é quase como se eu tivesse lido as obras dele. Só li um livrinho do Hayek (aparentemente um resumo de um livro maior, o Constitution of Liberty, acho), em que defendia uma espécie de senado vitalício apartidário (uma espécie de câmara dos lordes não-monárquica) para evitar a expansão do Estado e impedir a social-democracia. Me impressionei com o primarismo e ingenuidade da proposta: é praticamente impossível que a eleição de senadores vitalícios fosse apartidária, e absolutamente nada garantiria que eleitos, eles defendessem o Estado mínimo.

    Aproveite bem a lua de mel, Celso. 🙂


Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s


%d blogueiros gostam disto: