Outubro/90: debate sobre o cálculo socialista

05dez07

Não sei porque isso recebe tão pouca atenção nas faculdades brasileiras, mas eu acho um dos debates mais interessantes que eu já vi. Meu resumo de cabeça, que provavelmente vai ficar uma merda.

 Bolcheviques:

 – Esse negócio de mercadoria produz miséria, alienação, etc. Agora vamos planejar a produção inteira com base no cálculo material, maximizando a produção do que for possível fazer, ao invés de maximizar o lucro. [na prática, não foi o que fizeram, mas essa era a idéia].

Ludwig Von Mises:

    – Não dá, mané. A quantidade de informações necessárias a planejar a produção de uma sociedade inteira é insanamente grande, e, sem o tipo de informação contida nos preços, como é que você vai saber o quanto deve ser produzido de cada bem, incluindo os bens necessários a produzir outros bens? Através dos preços os consumidores informam o quanto deve ser produzido de cada bem. Quem transmitirá essa informação sob o socialismo?

Oskar Lange:

  -O Von Mises tem razão, e nós ficamos tão felizes que nós vamos botar a estátua dele em frente ao escritório de planejamento central socialista. O que nós vamos fazer é o seguinte: vamos estabelecer um mercado e controlá-lo inteiramente. A gente pega um modelo de equilíbrio de mercado, determina alguns preços chaves determinados politicamente e vai revisando o plano baseado no que os agentes fazem com os preços que nós lhes oferecemos. [ninguém fez isso exatamente: na Hungria houve um esboço tímido, na Iugoslávia também, e em toda parte, de fato, a produção era quantificada em moeda, usada como “forma contábil”; mais informação sobre o funcionamento concreto da coisa no próximo post da série]

Hayek:

   – O meu adversário neoclássico (Lange) está baseado em uma idéia errada da economia de mercado, que, aliás, é divulgada por muitos liberais amigos meus. É a idéia de que a informação necessária ao equilíbrio de mercado existe, o mercado a organiza, e chega-se ao equilíbrio. Na verdade, a informação é descoberta pelos empresários interessados em lucrar, e por isso correm para descobrir qual é a demanda, que inovação seria bem recebida, etc. Se ele chutar errado vai à falência. Por isso o mercado do Sr. Lange não funcionaria: não só porque a estrutura de incentivos da propriedade socialista não conseguiria coletar e administrar a informação necessária ao funcionamento do mercado, mas principalmente porque ela não produziria essa informação.

Em geral, se considera que o Hayek está mais com a razão do que o Lange, mas há quem ache que ele muda um pouco o foco da questão original: mesmo se o socialismo for impossível por causa dos problemas de incentivos, será que ele também seria impossível por problemas informacionais? O Tyler Cowen, por exemplo, chama a atenção para o fato de que os preços no socialismo eram, quase sempre baixos demais (porque isso era do interesse dos burocratas: preços baixos geravam excesso de gente querendo comprar e o burocrata podia exigir favores em troca de escolher entre os vários compradores possíveis), mas, se fosse completamente impossível calcular os preços corretos, eles seriam mais ou menos igualmente distribuídos entre altos demais e baixos demais.

PS: foi depois de entender esse debate (o que demorou uns dois anos) que eu virei social-democrata. Cheguei à conclusão de que o planejamento central era impossível, mas o capitalismo era um negócio tão caótico e moralmente aleatório (se não fosse, seria planejável)  que seria injusto se toda a alocação de chances e bens fosse feita pelo mercado.

Para quem quiser ler mais: me lemmbro de ter achado interessante os comentários sobre o debate no livro do Stiglitz: o Murray Rothbard (de linha austríaca) publicou uma versão famosa da coisa toda

Quem tiver tempo para ler o debate inteiro vai notar uma coisa interessante: se vocês pensarem bem, essa foi a questão mais importante do século XX, mas o tom de todos os participantes é extraordinariamente civilizado.

Anúncios


6 Responses to “Outubro/90: debate sobre o cálculo socialista”

  1. Mestre! Se o debate foi de alto nível eu não sei, mas suas notas certamente o são! Eu provavelmente estou errado, mas não foi por trás desse mesmo debate que socialistas e social-democratas se apunhalaram pelas costas na Alemanha dos anos 20-30? Meu maior ponto de discordância contigo é aquele em que você diz que o mercado é caótico, e portanto amoral, e que a prova disso é que não pode ser planejado. Não vejo onde uma conclusão leva à outra. O fato de que é caótico faz dele amoral. Mas as ações dos milhares de agentes, grandes e pequenos, podem ser planejadas, e estas sim tem que ser morais (ou imorais)!

  2. Em primeiro lugar o humor do texto é ótimo: quase dá pra imaginar todos eles em uma sala, tomando café e/ou chá, cachimbos e cigarros e algumas caras sérias e instrospectivas…

    A ausência desse debate nas faculdades e universidades, particularmente nas de História é bastante triste. Você tem razão. Mas há algo mais lamentável ainda é a resistência que muitos pares de esquerda tem em ler Hayek, Von Mises, Lange, e mesmo os próprios economistas da tradição de esquerda – você citou os bolcheviques (Lenin somente?)… Penso que boa parte dos nossos pares de esquerda simplesmente não dão atenção nem mesmo ao Capital, do Marx.

    Não foi essa, necessariamente, minha formação. Mas a grande ausência de debates sobre os temas de Administração e Planejamento – que envolvem questões como políticas públicas, funcionamento do mercado, recursos econômicos para o Estado, distribuição de riqueza, mesmo a condição de liberdade das instituições e indivíduos enquanto agentes econômicos está dominado por ideologias e por coisas do tipo “eu acho que”, ou seja, meras opiniões. O debate em torno dessas questões, dentro da esquerda, me parece hoje, precário, senão inexistente.

    Isso é péssimo porque qualquer alternativa à esquerda, se quer realmente se consolidar, deve se mostrar tão boa ou melhor do que as opções liberais. Na falta desse debate, resta a continuidade do que está aí – às vezes por falta de opção, outras por mera incapacidade mesmo – ou voltar-se para a tradição populista: estatismo, inchaço do Estado, excesso de burocracia…

  3. 3 Rabo de Cobra

    Concordo com o Amiano, se é que entendi corretamente a afirmação dele. Oras, para haver mercado, é necessário haver confiança. Confiança já é um dado moral, construído, na sociedade (e não pela), desde dentro, pelos indivíduos, famílias e outras associações. O constrangimento estatal funciona para cumprimento dos contratos, mas é limitado.

    Exemplificando: para botar uma quitanda na rua, com produtos ao ar livre, eu tenho que 1) contratar um soldado para olhar cada rua existente, ou 2) confiar completamente que há uma cultura de confiança, ou 3)um misto das duas. Odeio o meio termo comportadinho, mas vá lá, funciona. A primeira opção significa que não confio em ninguém, mas é um paradoxo, pois você acaba confiando que o soldado vai fazer o trabalho dele. A segunda, em sua totalidade, é utópica demais. A terceira, evidencia que você confia na maior parte da sociedade e nas instituições governamentais (ou nos monopólios da força e justiça) em geral, e há um equilíbrio saudável de ações.

    Resultado da história toda, o mercado não é algo que funciona amoralmente de jeito nenhum, porque todo mercado implica em contrato, e contrato implica em promessa, e promessa implica em confiança e amor à verdade, honra, etc. Não é à toa que confiança=juros mais baixos na eissão de títulos de dívida pública. O juro é o que pagamos pelo risco que oferecemos a quem confia em nossa palavra. País que já deu calote, como o nosso, tem a ficha suja. A honestidade, seriedade, etc, traz menos riscos e, por isso, mais prosperidade no longo prazo.

    Todos nós, pessoas normais, estamos na opção meio termo do esqueminha do quitandeiro. Quando você recorre mais ao Estado, você se aproxima do paradoxo; quando recorre mais à sociedade de confiança, você se aproxima da utopia. A solução, não tenho, por isso que acho melhor deixar rolar, e cada nação vai atingir seu equilíbrio na convivência social, conforme suas experiências. Para mim, quem move essas molas de confiança são os santos, os gênios, os empreendedores, os mártires, etc. Pessoas excepcionais e, internamente, de grande carisma. Esse último insight eu peguei de Carlyle. De certa maneira, devo admitir, me aproximo da utopia.

    É isso.

    P.S.: Casamentasso!

  4. 4 Rabo de Cobra

    P.S.2: Logo, fecho mais com o Hayek mesmo.

  5. 5 Pic-2

    ih, Napratica, você está ficando isolado! Tb fecho com o Amiano! 🙂


  1. 1 Crise Financeira e Cálculo Socialista « Na Prática a Teoria é Outra

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s


%d blogueiros gostam disto: