Dawkins: “Deus: um delírio” (3)

21dez07

O melhor argumento a favor do Gould é que, quando o Dawkins joga em casa, é imbatível. Quando ele encontra uma tentativa da religião invadir o campo da ciência, como no caso do criacionismo ou de sua versão marginalmente mais alfabetizada, o design inteligente, a cada ponto final você pode ouvir o som do Átila passando por cima do vilarejo, voltando para ver se não esqueceu de esmagar nada, passando por cima de novo, voltando de novo por que esqueceu de salgar a terra, passando por cima de novo, e repetindo o movimento mais algumas vezes só de sacanagem.

Isso é porque, nesse caso, a religião resolveu se meter a prever resultados na nossa escala de existência, que é o que cabe à ciência fazer. A ciência é um empreendimento essencialmente pragmático, em que a verdade de um sistema se mede pela sua capacidade de prever os eventos que nos interessam, ou, o que é melhor ainda, sua capacidade de nos permitir manipulá-los. Há várias provas da física moderna, mas a melhor é que avião voa.

A religião é um risco intelectual altíssimo, porque, apesar de postular a existência de uma super-realidade que dá sentido a tudo o que a ciência pode observar, aposta que manipular essa super-realidade é MAIS SIMPLES do que manipular as coisas com as quais a ciência lida: basta rezar, ou fazer jihad, ou seja lá o que for mais fácil do que aprender física quântica. Controle sobre a super-realidade certamente implicaria controle sobre a realidade, por isso a idéia de que você pode curar o câncer (ou, a princípio, impedir a colisão entra as galáxias, ou reverter o Big Bang) rezando ou realizando algum ritual satânico. Mas a idéia de que nós, que não temos como compreender o quadro geral, de alguma forma podemos manipulá-lo, é uma aposta bem, bem ousada, que, na minha opinião, só devemos fazer depois de termos feito um hedge razoável com a aposta mais segura da ciência.

Fareja-se no argumento do Dawkins a seguinte frustração: pô, isso não vale. Se você começar dizendo que não dá pra saber, como é que eu vou testar? Ô, Dawkins, você é Darwinista e acha que a verdade deve ser justa? Isso é papo de crente.

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