Dawkins, “Deus, um Delírio” (5)

21dez07

Um dos melhores capítulos do livro é sobre religião e moralidade, onde Dawkins argumenta que o sujeito pode até tirar sua moral de livros religiosos, mas nada garante que eles sejam especialmente bons para isso, ou, o que é mais importante, que sejam indispensáveis para isso.

Dawkins formula a questão como “um ateu pode ser moral?”, responde que sim, e está obviamente certo. Aliás, essa é uma hipótese perfeitamente testável, eu já testei e posso confirmar a conclusão do Dawkins: algumas das melhores pessoas que eu conheço são atéias (e outras são profundamente religiosas, e outras estão pouco se lixando para o assunto).

Uma discussão mais interessante seria saber se os valores morais que temos hoje, os valores que Dawkins defende muito melhor que os religiosos quando se opõe, por exemplo, à opressão das mulheres no Islã, não teriam origem religiosa. Acho difícil dizer que não, mas nem eu nem o Dawkins temos competência historiográfica para julgar isso.

Agora, um mau sinal é o seguinte. Depois de desancar a moralidade do Velho Testamento de cima a baixo (vale a pena ler isso, muito bom: e, no caso dos sodomitas tentando comer os anjos, engraçadíssimo), o Dawkins reconhece que Jesus Cristo foi um dos grandes reformadores morais da história, mas adverte que a pesquisa de um outro cara sugere que todo aquele papo de amai-vos uns aos outros era só para os judeus entre eles. Dawkins cita vários indícios de que isso era verdade no mundo do velho testamento e no judaísmo (não, ele não é anti-semita, fácil achar coisas parecidas em outras religiões). 

Não conheço o trabalho do cara, mas a tese é altamente controversa (não tem um negócio de “eu vim para libertá-los da lei?” nos Evangelhos? Posso estar citando errado), em geral, que eu saiba (e posso estar falando besteira), Cristo é visto como um cara que deu uma visão mais universal a certas tendências do judaísmo. Mas, é claro, pode ser que o cara esteja certo.

O que é chato é que o Dawkins não cita as evidências que o cara apresenta sobre o caso específico de Jesus Cristo (nem, naturalmente, as contra-evidências que eu aposto que existem). Em um livro que se dirige ao público em geral, do qual não se pode supor que vá atrás da fonte original, isso não é uma manobra argumentativa válida. Isso é muito, muito grave.

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