Dawkins: “Deus, um Delírio” (6)

21dez07

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 Supondo que a influência do livro no resto do mundo seja pequena, a grande batalha do Dawkins é com essa turma meio lelé dos EUA: a Ann Coulter, o Jerry Falwell (para uma emocionante elegia fúnebre, cliquem aqui), os criacionistas, os teocratas e fundamentalistas da mais variada natureza, a turma que se opunha ao Clinton porque ele não aceitava a “visão bíblica do mundo”, esse pessoal. Contra esses, eu estou do lado do Dawkins.

No caso dessa galera lelé total, a questão não é nem o debate entre ciência e religião: é entre religião e política. Se o Dawkins quer refutar a existência de Deus, o ônus da prova é dele (e ele falha, pelo menos nesse livro). Mas se o Bispo Macedo quer uma lei inspirada no Velho Testamento, o ônus da justificativa é do bispo, visto que, dada a indecidibilidade científica da existência divina, a aposta do Dawkins é tão legítima quanto a do bispo, e os dois devem ser iguais na esfera pública.

Nem que fosse só por ridicularizar quem tenta escapar desse ônus jogando a cartada da fé no jogo errado, o livro do Dawkins já seria uma contribuição valiosa, e creio que mesmo um religioso que se oponha à teocracia e acredite na boa e cética democracia deve ser capaz de admitir isso.

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12 Responses to “Dawkins: “Deus, um Delírio” (6)”

  1. 1 Rabo de Cobra

    Seria tão bom se todo blogue fosse assim. Isso que é resenha/resumo/apreciação de um livro. Agora, aquele argumentozinho chinfra dele: “Deus, se existisse, seria tão complexo que só poderia ser uma etapa final da evolução”. Pusta que o paraca!, ele tem que voltar a fazer cursinho de Metafísica I e Introdução à Lógica. Como um homem feito, dotô, fala umas besteiras dessas.

    Deus não é um delírio, o LSD que o Dawkins tomou é que é muito ruim.

  2. 2 Felipe Basto

    Mudeu de idéia. Depois dessa, eu acho que ele não só existe como está se divertindo muito.
    http://video.globo.com/Videos/Player/Noticias/0,,GIM766545-7823-INTERPRETACAO+ERRADA+DA+BIBLIA+GERA+CONFUSAO+EXTRACONJUGAL,00.html

  3. 3 Rabo de Cobra

    Autor A a diz A”; suposto seguidor B do autor A faz B”; B” é uma palhaçada, logo A” está errado. É a partir de lógicas como essas que surgem teses como Stalin estar embutido n’ O Capital. Pois é, faz sentido. Paralelamente, se esticamos os parâmetros da lógica em nome da razão, a culpa é da razão. Não se pode fazer nada.

    Gostava mais do tempo em que simplesmente davam o crédito das idiotices aos idiotas.

    Bom Natal para todos e até o ano que vem,

  4. 4 Goes

    vocês não querem mesmo me arrastar para este lodaçal, querem? A rigor, eu nem acho que há tanta diferença assim entre religião e ciência já que ambas tentam estabelecer modelos para explicar o mundo, aliás as duas surgem não raro com algum overlap. Agora o problema é quando o sábio que observou que teve um resultado depois de rezar, e outro depois de cagar, resolve se perguntar se a sua reza é capaz de alterar os resultados da sua defecação ou vice versa. Para que, meu Deus?

    Até porque, se — teologicamente falando — Deus criou o universo do jeito que ele é, alterar alguma coisa seria alterar a vontade divina, não? E invocar a vontade divina para alterar a vontade divina já seria motivo para o espirito santo dar um pescotapa espiritual na cabeça do pretensioso. Pelo menos eu o faria se Deus fosse.

    Creio portanto, que se percebo o universo e as minhas ações dele de uma determinada maneira, é por um de dois motivos: ou porque Deus existe e quer assim e portanto não faz a menor diferença eu rezar, chorar ou cagar porque está tudo no seu divino plano, ou Deus não existe e não faz a menor diferença eu rezar, chorar ou cagar porque um divino plano inexiste. É a metafísica do foda-se.

    Dentro da Metafísica do Foda-se eu reconheço a validade de modelos que expliquem como as coisas funcionam. Se você pode mostrar pra mim que fazendo o troço A acontece o troço B, eu reconheço a utilidade do seu argumento em função de quanto o troço A acarreta o troço B. Meu computador funciona porque eletróns encantados brindam e dançam nos capacitores ou porque particulas galvanizadas de vontade divina movem-se em seus fios? Fico com quem melhor fizer computadores. E se o computador é o milagre que me faz crer no eletromagnetismo, isso não credencia o físico a falar de supercordas como verdade. Apresente-se uma Singularidade controlada primeiro 😉

    Nos extremos desse debate, são babacas aqueles que se desviam do Caminho Dourado representado pela Metafísica do Foda-se: os sacerdotes científicos e os cientistas da teologia, ambos apegados a seus rituais fossilizados e tentando enfiar o mundo em seus modelos.Poucos povos foram mais pragmáticos que os romanos. Ou tão bem sucedidos quanto.

  5. 5 CDL

    Ouvindo dizer que estás no Rio, eu e o RDC fomos bater a sua porta. Não o achamos, porém fomos em outro lugar, o que resultou em um vídeo de RDC cantando “les garçons”…

  6. 6 Artur

    Provar a existência ou a inexistência de Deus não é um problema científico. Nunca foi. A ciência partilha com o ateísmo uma indiferença absoluta em relação a essa questão. Simplesmente, não é um problema. É nada. Ao contrário do agnóstico, este obsedado pela existência ou inexistência do Dito-Cujo, o ateu está fora dessa discussão, pois ela não existe enquanto tal, apenas como chateação de crentes e agnósticos. Não é um problema de prova, já que, nesse caso, as provas cansam a verdade, seria unicamente uma questão de postura, anterior mesmo à discussão.

    Dawkins começa vulnerável, pois tenta colocar o problema teológico como uma questão científica. Nesse sentido, NPTO tem razão. Mas, por outro lado, o cabra escapa, em parte, dessa aporia quando diz claramente que não quer provar a existência ou a inexistência de Deus, e sim sua improbabilidade. Aqui, estamos diante de uma abordagem um pouco diferente. Acho-a habilidosa. E, do meu ponto de vista, Dawkins utiliza argumentos bem interessantes para explicar essa improbabilidade. E discordo de você, NPTO, quando defende que é preciso medir a probabilidade para provar a improbabilidade. Argumentos, nesse caso, bastam (claro, pelo que notei, você discorda da argumentação). Porém, cuidado com essa mania de medição dos economistas — lembre-se: os argumentos econômicos guardam uma relação mais próxima da magia do que sonham os nossos vãos positivismos (hehe).

    Mesmo achando interessante, acho ainda muito vulnerável a posição de Dawkins ao discutir Deus do ponto de vista da sua maior ou menor probabilidade. Além do mais, aqui não se nega Deus, pois Ele ainda existiria enquanto improbabilidade. Defendo que o verdadeiro terreno de discussão não seja a ciência e sim a filosofia. Claro, argumentos filosóficos podem se nutrir de evidências científicas, mas o contexto discursivo é outro. Inclusive, aqui, os materialismos e algumas formas de realismo têm uma vantagem em relação à teologia: esta possui uma dificuldade em utilizar dados científicos para balizar seus argumentos filosóficos. Afinal, como utilizar argumentos imanentes para uma argumentação transcendental? Sinceramente, não dá.

    Minha última crítica a Dawkins é a seguinte e bem pessoal: ele respeita demasiadamente o nome de Deus, talvez por causa do contexto político da discussão. Deus é o nome de uma entidade transcendental ou sobrenatural (prefiro essa última designação). Nesse sentido, não se distingue de outras entidades, como deuses, demônios, duendes e fadas. É um preconceito etnocêntrico colocar a discussão sobre o Deus cristão como superior filosoficamente ao debate por exemplo, sobre a maior ou menor probabilidade da existência de Yemanjá. Se Deus existe, tudo é possível, inclusive Papai Noel. Acho que o problema é outro: qual é a pertinência filosófica de uma esfera transcendental ou sobrenatural? Digo logo e, pela pressa, assumo meu sectarismo: nenhuma. Só concebo transcendência na imanência (o que torna a transcendência humana, relativa, parcial e histórica). Vivemos filosoficamente num imanentismo absoluto — como já disse um filósofo cheio de furúnculos: tudo é história. Abração e valeu pela resenha!

  7. 7 Goes

    Arthur, concordo quando você diz “Simplesmente, não é um problema. É nada” Mas é por isso mesmo que prefiro o agnosticismo, que caga para o ‘não-problema’. O ateu não está fora do debate já que ele tenta provar que o deus dos judeus não existe ou convencer o mundo de que ele inexiste. Já o agnóstico emite um sonoro “caguei” e se declara desinteressado na questão da existência ou não de fadas ou deuses. Pelo menos no meu caso.

  8. 8 Rabo de Cobra

    Caro CDL, devo corrigi-lo: a música foi “Tous Les Garçons et Les Filles”; e quem cantou não fui eu, foi o genuíno espírito de Serge Gainsbourg. Se fosse eu, seria muito mais afinado.

    Bem, acho que você não reparou no outro cara que cantou Right Said Fred (I’m Too Sexy). Não tenho provas vídeo-documentais, mas testemunhas não relutam em afirmar que era o Darth Vader cantando.

  9. O que é estranho é que, cinco séculos depois de Giordano Bruno e quatro depois de Spinoza, ainda estamos patinando em um lodaçal metafísico. Há um excelente debate no campo da metafísica que opõe um Deus Transcendente (uma entidade dotada de uma Vontade moral e uma consciência que tudo comanda – e que as religiões mantém uma guerra tanto no campo da exegese quanto no campo das armas para ver quem tem a supremacia sobre a Interpretação da Vontade de Deus.

    Pessoalmente me agrada, muito, a concepção de Deus de Spinoza: um Deus absolutamente imanente, que é a própria natureza e seus processos. Um Deus “neutro”, que só conhece mudanças, transformações, e cujas criaturas são dotadas da mesma substência. Um Deus que não é moral, que não está preocupado em eleger uma espécie como ponto final da evolução. Conhecer a natureza e seu funcionamento seria, de alguma forma, estar mais perto da divindade, não para controlar essa natureza, mas para compreendermos que fazemos parte de uma totalidade, de um Uno cujas formas múltiplas possuem o mesmo sentido.

    Assim, a ignorância está na disputa pela primazia da palavra de Deus, bem como no erro que é conceber um Deus transcendente e com “vontade”. Como dizia Spinoza, “A Vontade de Deus é o Asilo da Ignorância” (Ética demonstrada à maneira dos Geômetras).

    Há uma belíssima retomada dos princípios éticos e mesmo do Deus de Spinoza, mas de forma laicizada, a partir do trabalho filosófico de Gilles Deleuze. É uma boa saída: uma ética da imanência absoluta, que abandona a idéia de um princípio metafísico transcedente e todas as suas exegeses e personagens – a começar por “Deus”.

    Feliz natal a todos e parabéns pelo nível das discussões.

  10. 10 napraticaateoriaeoutra

    Grande Renato, o argumento do Spinoza é bacana, embora também seja inverificável. Como vocês já devem ter notado, eu só sei isso sobre esse assunto: não dá pra testar porra nenhuma dessas coisas.

    Feliz Natal para você e para os seus, com a esperança de que você nos ajude a levantar ainda mais o nível da discussão.

  11. 11 Pedro

    Puxando a brasa para o meu lado, vou tentar justificar um pouco a ênfase que o Dawkins deu ao cálculo da probabilidade da existência de Deus, e como eu encaro este argumento do ponto de vista científico.

    Não se pode provar que deus não existe, mas a ciência não prova que coisas não existem. Entretanto ela pode consolidar progressivamente esta idéia, até que a discussão sobre existência ou não desta coisa seja completamente infrutífera. Vamos aos exemplos. Inicialmente se pensava que para a luz, que na época era onda, se propagar do Sol até aqui, deveria haver um meio entre o Sol e a Terra, que foi denominado éter. A ciência nunca provou que o éter não existe. Mas com o advento do eletromagnetismo, o éter passou a ser desnecessário. E até problemático, uma vez que poderia interferir na propagação da luz. E assim, com o passar do tempo, o éter caiu no esquecimento.

    Outro exemplo, ainda usando luz (não divina!). A física nunca vai provar que o fóton tem massa nula, e somente vai poder estabelecer limites superiores para sua massa, e hoje estes limites são incrivelmente baixos. E por outro lado, temos uma teoria belíssima que explica uma penca de coisas, o modelo GWS para as interações eletrofracas, onde o fóton têm que ter massa nula. Tudo bem, isto é problema do modelo, não da realidade, mas estes dois aspectos, modelo e dados experimentais, permitem à ciência dizer que é muito provável (no sentido usado por Dawkins) que o fóton tenha massa nula.

    Acredito que é esta a linha de argumento do Dawkins: dados experimentais limitando o campo para a existência de deus, e teorias aparecendo que contemplam um universo sem deus, levando à conclusão que é muito “provável” que deus não exista. Se a coisa for para este lado, talvez daqui a um século não estejamos nem discutindo sobre a exisêtncia ou não de deus, assim como hoje não falamos mais do éter.

    Abraços natalinos!

  12. Escrevi um post sobre o assunto no Caderno de Notas… Espero que ajude o debate.

    Abraços a todos e feliz ano novo!!!!


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