Dawkins: “Deus: um Delírio” (1)

21dez07

Mau sinal: logo no começo do livro, Dawkins menciona o Alistair McGrath, autor de “Dawkin’s God”, um livro que percorre todos os livros do Dawkins só para mostrar o seguinte: é impossível provar a inexistência de Deus (ou a sua existência), Dawkins não faz isso, e sua afirmação de que a ciência mostra que Deus é altamente improvável é só uma frase: nenhuma tentativa séria de medir a probabilidade da existência de Deus é oferecida ao leitor. McGrath é doutor em bioquímica por Oxford, onde atualmente ensina teologia, e, assim como eu, fã do “Gene Egoísta”, o melhor livro de divulgação científica que eu já vi (aliás, graças ao sucesso do Dawkins, o livro finalmente saiu em edição decente em português, pela Companhia das Letras).

Dawkins (p.85) diz que a afirmação de McGraith é “inegável, mas ignominiosamente fraca”. Suspeito que a palavra em inglês seja “feeble” (pouco viril, canhestro, tíbio), não “weak” (fraco, ou, no caso de um argumento, ruim). Seria meio esquisito se Dawkins dissesse que o argumento é inegável, mas ruim.

E aí acaba a discussão do McGraith: até o final do livro o Dawkins não discute mais seu adversário mais qualificado. Não gosto dessas coisas, não.

(Naturalmente, se o McGraith vier me provar cientificamente que Deus existe, vai estar falando besteira também)

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7 Responses to “Dawkins: “Deus: um Delírio” (1)”

  1. 1 Mariana

    Quanto ao McGrath, a palavra é weak mesmo, mas a tradução do livro é bem ruim de modo geral.

  2. 2 Mariana

    Faço como Dawkins e escrevo na margem do seu comentário “Teapot”. É tão óbvio que não se pode demonstrar a existência ou não de Deus, assim como não se pode demonstrar a do Bule que não vejo porque Dawkins perderia tempo com refutações do irrefutável. Ok, tá bom, é isso mesmo… agora vamos para o campo da razoabilidade e falemos de probabilidade…

  3. 3 napraticaateoriaeoutra

    Mariana, o argumento do bule está errado, a analogia não saiu certa. A inexistência do bule e a inexistência de Deus são hipóteses de naturezas epistemológicas completamente diferentes.

    Para quem não leu o livro: o argumento é, se não me engano, do Russell, e diz mais ou menos o seguinte: certo, é impossível saber se Deus existe, mas é igualmente impossível saber se existe um bule de chá na lua. Não há motivo para levar uma das proposições mais a sério que a outra.

    Nesse caso, o Dawkins peca não por ler mal teologia, mas por ler mal o Popper (perdoemos o Russel por não ter lido um cara que escreveu depois). A tese do bule é perfeitamente verificável do ponto de vista lógico, só é muito difícil de checar. Não há nenhuma objeção lógica a que se lance um satélite artificial sobre a lua com capacidade imensa de refinamento de imagens e processamento computacional, e tal satélite poderia, sim, checar se o bule está lá.

    Uma vez encontrado o bule, caberia o problema de explicar sua existência, mas isso é outra história. Poderíamos concluir, por exemplo, que o bule prova que existem alienígenas inteligentes, e, mais: que as circunstâncias que favorecem o surgimento da vida são sempre as mesmas, e que a evolução social de seres inteligentes é sempre muito parecida, a ponto de todos eles fazerem chá.

    Não é possível fazer um experimento para testar a existência de Deus, porque seria impossível imaginar um mundo sem tempo, espaço, sem causalidade, sem características que normalmente são consideradas consequências da existência de Deus. Como seria o mundo se ele existisse, ou se não existisse? É, aliás, interessante que o Dawkins cite o Wittgenstein perguntando por que, afinal, achava-se, antes de Copérnico, que a Sol girava em torno da Terra (quando responderam, porque era isso que parecia, ele mandou de volta, como pareceria se fosse o contrário?), e não note que aí está justamente o problema.

    Para a hipótese do bule constituir uma analogia boa, o bule teria que existir além de todas as categorias de compreensão humana, o que, imediatamente, converteria a analogia em uma repetição da hipótese teológica chamando Deus de bule.

  4. 4 Mariana

    Então você está me dizendo que Deus está além de todas as categorias de compreensão humanas, ok? Ok. Mas acredito que o Dawkins esteja atacando algo bem menos elaborado conceitualmente que a crítica da Crítica da Razão Pura, e todo um mar de teoria do conhecimento que nem ele, nem francamente eu, lemos. porque não é a nossa praia. Também não acho que os crentes em geral sejam PhD. no assunto. A propósito, é engraçado como as pessoas não exigem fundamentação teórica de um crente ao passo que se infere a ignorância como pressuposto do ateísmo (experiência própria). Voltando ao assunto…
    O ataque do Dawkins, me parece, é à concepção teísta. Então, estamos falando de milagre, orações, intervenção divina, livros sagrados, danação eterna, e por aí vai. Esse Deus intervém no tempo, no espaço e na matéria (ou não!). Até poderiamos discutir a Causa se ao menos os efeitos existissem…
    Ademais, vale insistir, o ônus da prova não está com Dawkins. Dawkins não tentou e nem vai tentar demonstrar a não existência de Deus, ao contrário da religião. Esse é um ponto crucial na crítica de Deus um Delírio: por que alguns teólogos tentam desesperadamente provar que Deus existe, de preferência utilizando categorias bem ao alcance da compreensão humana?
    Outro ponto importante no argumento do livro: ciência e fé não são conciliáveis. Não adianta dourar a pílula. Ou aceita a teoria da evolução de Darwin ou o Deus criador, a Bíblia, Adão e Eva, etc. Isso, como biólogo, o Dawkins faz muito bem.
    Quanto ao Bule, se o meu modesto exemplo do milagre não pôs a questão divina na órbita dos fenômenos passíveis de investigação, então que se conceda a transcendência do Bule de chá. Só que ao invés de chamar Deus de Bule, vamos chamar o Bule de Deus, e vamos chamar de Deus também a fada dos dentes, os gnomos, e vamos adorar a tudo aquilo que esteja além dos limites nossa compreensão (pelo gosto da teologia esses limites seriam os de dois mil anos atrás ou mais).
    De mais a mais, gostaria de encerrar minha participação no debate dizendo que considero o livro irregular, com saldo positivo. Tem pontos muito pertinentes, argumentos brilhantes e nada triviais, é uma leitura agradável, tem humor, mas, para mim, tem muitos problemas conceituais na medida em que o autor tenta sair de sua zona de conforto, a Biologia (nem sei se isso não seria, por outro lado, uma qualidade). Também não se vê nenhuma menção ao papel político da Religião, o que é uma tremenda alienação, a meu ver. E várias outras coisas que mancham o brilho do livro. Isso, sem mencionar que alguns de seus caros colegas, reverencialmente citados no texto, extrapolam suas conclusões em defesa do intervencionismo no Iraque, ou saem por aí apregoando a desigualdade intelectual entre as “raças”, e outras bobagens pseudo-científicas.
    O livro cumpre seu papel de divulgar o ateísmo e talvez seja isso que incomode tanto os religiosos. O efeito do lançamento desse livro no Brasil me parece anódino, mas seria reconfortante saber que as pessoas por aí deixaram de discutir O Código Da Vinci para debater Deus um Delírio.
    Para o Napráticaateoriaéoutra gostaria de dizer que valeu o enorme trabalho da resenha e agradecer a disposição em responder às minhas considerações. Quem sabe, continuamos a discussão pessoalmente qualquer dia desses. Não pretendo encher mais o seu saco com esses textos enormes que eu demoro meia hora pra digitar, nem encher o meu com replies toscos de três linhas, acintosamente rudes que andei recebendo por aí. ;P
    Um abração amigo!

  5. 5 Ricardo Wagner

    Se Deus existe… eu não sei. Porque acredito eu, que Deus dêva ser uma coisa muito pronfunda, e nós seres humanos somos muito limitado para encontrarmos. Então se ”Tudo flui e o mundo esta em constante movimento”, como o proprio filósofo Heráclito de Éfeso em palavras no sec VI a.c , pra que procurar Deus?. Deus talvéz seja somente um sentimento, e,todo sentimento vem em sua maioria, dotado de paixão, sem nenhum compromisso com a razão.

  6. trabalho de filosofia
    compreensão humana sobre deus….

  7. trabalho de filosofia
    compreensão humana sobre deus….
    grupo 4 pessoas….


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