Obama e o Quênia

08jan08

Uma história que eu estava esperando para aparecer é à reação do Obama à crise do Quênia. O Obama é filho de queniano, e, se não me engano, é do clã que está contestando as eleições. Pois bem, aparentemente o Obama está ativamente em contato com os caras no Quênia tentando negociar um acordo, e gravou esta mensagem para a Voz da América, pedindo que o Quênia não jogue fora sua tradição democrática mesmo se a eleição houver sido roubada (aparentemente, foi).

A propósito, eu sempre ouvi dizer que o Quênia era relativamente estável e democrático até outro dia. Na edição de fim de ano da The Economist, a revista sugeria que a eleição, se desse certo e promovesse a alternância de poder, seria um exemplo para a África do Sul, onde o CNA ainda não foi seriamente contestado desde o fim do Apartheid. Mas a Moby Dick do Hermenauta acha que não, que o Quênia é um aglomerado de tribalismos pré-democráticos, ao contrário da África do Sul, que aprendeu a ser democrática com os brancos do Apartheid. Duas coisas:

1 – Nem o Quênia era essa zona que virou agora, nem a África do Sul é essa democracia toda. E os dois países são, sim, zonas de progresso no continente, juntamente com a sempre ignorada Botswana, paupérrima, mas democrática desde a independência e sem nenhuma crise de fome dessas que a gente sempre vê lá pela região.

2 – Quem foi que disse que democracia resolve problema étnico? Pode resolver ou pode piorar, como mostrou a Amy Chua: se a elite econômica for de um só grupo étnico minoritário (como parece ser o caso no Quênia), a etnia majoritária pode se mobilizar a partir do voto para buscar vingança. Também está acontecendo na Bolívia. Eu sou democrata, mas não vou dizer que democracia não tem problema.

Ó, não se acostumem a me ver discutindo com o RA. Eu discuto com o Olavo de Carvalho, com o Rosenfeld, e até com o Mainardi, mas o RA é demais. Eu sou obrigado a discutir com meus aliados burros porque eles são meus aliados, sou obrigado a discutir com meus adversários inteligentes porque eles são inteligentes, mas não sou obrigado a discutir com o RA.

 PS: Falando no cara, o Troféu “Num dia médio meu cachorro peida mais neurônios do que você teve que usar para ter essa idéia” de 2008 já tem um ganhador, e não estamos nem no meio de Janeiro

(hat tip: quem mais? O Hermenauta)

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9 Responses to “Obama e o Quênia”

  1. O que me deixa mais puto é que eu cliquei no seu link!

  2. 2 napraticaateoriaeoutra

    HAHAHAHAHA, eu também fiquei puto por ter clicado no link do Hermenauta, e resolvi passar a maldição adiante (é que nem piada ruim, você tem que contar pra se livrar dela). Promento que não faço mais.

  3. 3 Felipe Basto

    Caro blogueteiro. Olink realmente foi uma piada sem graça, mesmo. E agora as últimas notícias: http://colunas.g1.com.br/aovivo/
    Acharam a avó do cara!!
    Legal, influenciar uma crise estrangeira antes de ser eleito pega bem.

  4. 4 Artur

    Fiz o seguinte comentário no hermenauta a respeito desse assunto: imponha um sistema partidário (confunda partido com etnia), junte um certo pluralismo civil (confunda organizações civis com etnia), misture tudo na geléia geral da “democracia universal” de RA, e elimine uma série de equilíbrios étnicos seculares (não faço aqui julgamento de valor, tomo como um fato), baseados nos “costumes” e não propriamente na política do tipo que conhecemos. Resultado: politização do conflito étnico (antes latente, agora manifesto) e guerra civil. Ruanda não foi assim? Não é fácil aplicar um modelo liberal, dito universal e anistórico, de democracia — haveria outro modelo? Não sei. Um modelo de democracia que conseguisse “democratizar” os equilíbrios étnicos, sem eliminá-los? Qual? Como pensar em “universalização dos direitos” em sociedades que misturam moral e direito, via tradições étnicas?

  5. Me pergunto mesmo se a resolução do problema étnico não é condição para o desenvolvimento do sistema democrático. A democracia não prescinde de uma identidade “comum” dos cidadãos (mesmo que esta seja contestável), nem da laicização da política, nem mesmo do primado de organizações que não sejam familiares – clãs, tribos, famílias, etc. A representatividade, sozinha, não garante democracia nenhuma.

    Tenho certeza de que a construção desse tipo de identidade “liberal” é extremamente difícil… Também não sou contra a manutenção de nenhuma cultura. Mas não há jeito: a África vai ter que reinventar (e não será sozinha) seus sistemas políticos. Senão, o panorama que o Arthur descreveu acima vai se arrastar ad nauseum.

  6. ATUALIZAÇÂO – adicionei um post sobre o Reinado Azevedo. Para desabafar…

  7. 7 napraticaateoriaeoutra

    Artur, Renato, eu acho que, nesses casos, o negócio é enfrentar a desigualdade econômica entre as etnias (porque diferença cultural não se controla politicamente). Cá entre nós, boa parte da hegemonia econômica das etnias dominantes é sacanagem: essas economias são fortemente prejudicadas por Estados predadores, onde essas redes étnicas se alimentam. Uma boa dose de desprivatização do Estado, e o pacote de sempre de medidas sociais, já diminuiriam muito a tensão.

    Felipe, muito simpática a dona. Agora, deve ser meio inacreditável.

  8. 8 napraticaateoriaeoutra

    Artur, Renato, eu acho que, nesses casos, o negócio é enfrentar a desigualdade econômica entre as etnias (porque diferença cultural não se controla politicamente). Cá entre nós, boa parte da hegemonia econômica das etnias dominantes é sacanagem: essas economias são fortemente prejudicadas por Estados predadores, onde essas redes étnicas se alimentam. Uma boa dose de desprivatização do Estado, e o pacote de sempre de medidas sociais, já diminuiriam muito a tensão.

    Felipe, muito simpática a dona. Agora, deve ser meio inacreditável.

  9. 9 Rabo de Cobra

    O Renato, se eu entendi direito, está certo. Democracia é, de certa maneira, uma superação dos tribalismos. Certamente o Estado-nação o é. Se a civilizadinha e bonitinha Bélgica, só porque misturou mostarda holandesa com foie gras, não está lá se acertando direito, o que dirá o Quênia. Caindo na frase feita, não dá para por a carroça na frente dos bois.


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