Milanovic na Folha

21jan08

Ontem no Mais!, o Branko Milanovic foi entrevistado sobre seu trabalho a respeito da desigualdade de renda nos últimos dois mil anos. O trabalho tem alguns problemas metodológicos, sobre os quais falaremos abaixo. Mas eu achei bacana.

O Milanovic já apareceu citado aqui algumas vezes, com o trabalho dele sobre o coeficiente de Gini do mundo. Se não me falha a memória, o RDC comentou o mesmo trabalho que a Folha aqui na caixa de comentários outro dia. Eu já li bastante coisa dele, porque ele publicou alguns dos trabalhos mais famosos sobre desigualdade no Leste Europeu depois da queda do comunismo, na época em que trabalhava para o Banco Mundial.

No artigo da Folha, há um problema que dificulta a compreensão do texto: a ênfase no cálculo dos coeficientes de Gini. O jornal, e os comentadores do texto, deram muita ênfase a isso, e ficou parecendo um negócio meio besta, visto que a desigualdade de renda significa coisas diferentes em tempos históricos diferentes. Mas, pelo que entendi, o artigo está interessado mesmo é na comparação entre a desigualdade de renda medida pelo Gini e o máximo de desigualdade possível: isto é, dada a maior desigualdade possível sem que os mais pobres morressem de fome, o quanto de desigualdade existia, mesmo?

Para entender melhor: o Robinson Crusoé e o Sexta-Feira moram numa ilha com três cocos disponíveis por dia, e se ambos têm a necessidade de pelo menos um coco por dia para não morrer, o máximo que o Crusoé pode explorar o Sexta-Feira é ficar com dois cocos e dar um pro cara. Se ele der menos que isso, o Sexta-Feira morre, e ele vai ter que começar a catar coco sozinho.

Se alguém for medir a desigualdade nessa sociedade, vai ver que o mais rico ganha só duas vezes que o mais pobre. Por esse critério, parece uma puta sociedade igualitária, o que, obviamente, não é. Na Suécia atual, a “desigualdade” é maior, mas as possibilidades dos mais ricos pegarem para si uma proporção maior são incomparavelmente maiores. O trabalho do Milanovic tenta comparar a desigualdade entre os períodos levando em conta essa diferença, e é isso que eu achei interessante.

Assim, por exemplo, o Brasil do século XIX tinha um coeficiente de Gini maior que o atual, mas, como o país era muito mais pobre, essa era quase toda a desigualdade que dava pra ter sem os pobres morrerem de fome. Hoje em dia, em comparação à desigualdade possível, ela é bem menor.

Eu achei que só por essa inovação metodológica, o trabalho já valeu. Mas, naturalmente, há muitos problemas na medição da renda de sociedades antigas (e mesmo nas não tão antigas assim). Vários comentadores apontam isso na Folha, mas há um problema nos seus comentários (a melhor crítica é a do Manolo Florentino): seria interessante saber se os problemas apontados sugerem que a desigualdade antiga era maior ou menor do que a mensurada pelo Milanovic. Se for maior, a conclusão do trabalho se reforça, se for menor, se enfraquece. Não tem muita graça apontar problemas nos dados sem apontar viés (às vezes é só o que dá pra fazer, mas não é o ideal).

Quem for lá ler, aproveite para ler o artigo interessante sobre a origem da desigualdade de renda na América Latina.

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