Fidel

21fev08

A renúncia do Fidel deu origem a uma onda de balanços sobre a Revolução Cubana. Aí vai nossa modesta contribuição:

1 – O velho argumento – repressão política, mas excelentes políticas sociais – está velho. Se Castro tivesse embarcado nas reformas húngaras de 68 (ou nas da Iugoslávia anos antes –  ele não dizia que era não-alinhado?), se tivesse se aberto no máximo até a época em que a China se abriu, teria sido um daqueles casos de ditaduras que nós não devemos apoiar, porque não se deve apoiar ditadura, mas que pelo menos entregou alguma mercadoria: no caso, um país altamente educado, saudável, e pronto para entrar no mercado mundial com independência. Agora, mesmo se isso for feito agora (em breve, post sobre isso), a situação é muito pior: a estrutura econômica está dramaticamente obsoleta, a educação não conseguiu acompanhar os grandes saltos das últimas décadas, e só o sistema de saúde permanece em pé, mas não se sabe por quanto tempo. Claro, há outras maneiras de se medir a qualidade de vida, como diria Amartya Sen, e nessas os cubanos vão mal: os cubanos não desfrutam de uma série de liberdades que, mesmo na América Latina, nós já damos de barato como indispensáveis, e não participam de uma série de mercados de consumo que representam grande parte da qualidade de vida dos países modernos – informática, telecomunicações, etc. – porque o governo teme o potencial subversivo da coisa (com razão). Se Cuba tivesse se lançado no mercado mundial  vinte anos atrás, Castro talvez fosse absolvido pela história, mas, vinte anos depois, seus crimes prescreveram menos que seus atenuantes.

2- O leninismo é ruim. Brad DeLong cita a grande Rosa Luxemburgo como epitáfio para Castro (que, enfim, não morreu), e o faz com propriedade. Vamos repetir: não é pra ser leninista. Se você está pensando em ser leninista, não seja. Leninismo – ruim. Bom? Não, ruim. Mais ou menos? Não, ruim. O Lenin era leninista, mas tinha a desculpa de que ainda não sabia que ia dar no que deu. Você não tem essa desculpa.

3 – Agora, tem outro aspecto que precisa ser levado em consideração. Eu acho que foi o Kant (citado, eu acho pelo Benjamin no artigo sobre o surrealismo) que falou que a Revolução é muito melhor para os países em volta do que para os lugares onde elas acontecem. Várias reformas sociais foram introduzidas na América Latina por medo da cubanização, e Cuba, de fato, apoiou a independência da África com recursos, não apenas com os manifestos de sempre, o que foi raro na história da esquerda latino-americana. Castro deve ser muito mais popular no resto do mundo do que em Cuba, e isso é razoável: ele foi mesmo muito melhor para nós do que para eles. Para o Mandela, por exemplo, o Castro, que mandou armas para lutar contra a UNITA, deve parecer muito mais associado à liberdade do que as democracias ocidentais, que apoiavam sua prisão (se não me engano, o Cheney – quem mais? – chegou a chamar o Mandela de terrorista lá pelos anos oitenta). A História é um negócio complicado.

4 – Não é lá uma grande honra, mas não acho que o Fidel esteja no mesmo quadro da turma realmente barra pesada: Mao, Stalin, e o hors concours, o Pol Pot. Por dois motivos: por não ter coletivizado a agricultura (foi aí que morreu gente, mesmo, nos países comunistas), e porque, quando acabou a mesada da URSS, cortou gastos militares para manter alguma coisa da política social. Por comparação, o débil mental que governa a Coréia do Norte, em situação semelhante, deixou milhões (não se sabe quantos milhões) morrerem de fome nos anos noventa pra construir bomba atômica. Isso não quer dizer que o Fidel seja gente boa, mas mostra que pra entrar nesse clube o cara tem que ser ruim, ruim, ruim mesmo.



15 Responses to “Fidel”

  1. 1 Amiano

    Excelente o post, mestre. Você não tirou as palavras de minha boca porque eu não seria capaz de formuar meu próprio raciocínio tão claramente, especialmente pontos 1 e 2. O ponto 4 é importante também. Quanto ao ponto 3, eu concordo em parte, por um pequeno detalhe. A revolução neste caso apressou a articulação das extremas direitas latino-americanas dentro de cada paz, entre os diversos países, e com elementos externos (CIAs e semelhantes). Isso apressou uma série de golpes. Eu desconfio que o Chile de Allende teria sido uma “minor nuisance” se Cuba não tivesse se tornado comunista. Anyway, não dá pra saber.

  2. 2 Japajato

    Hmm, sobre o ponto 1, como você imaginaria essa abertura econômica?

  3. 3 Igor

    item 4: ”cortou gastros militares”

    Ele acabou com os restaurantes nos quarteis?

    Sem brincadeiras. Ótimo post, melhor do que qualquer coisa que li nos jornais (e falando dos melhores Magnoli, etc…)

  4. 4 Rabo de Cobra

    Um post bacana sobre o assunto:
    http://fdr.wunderblogs.com/

  5. 5 Rabo de Cobra
  6. Off-topic, mas ainda política (e design):

    A “fonte” da mágica de Obama:
    http://www.helveticafilm.com/blog/2008/02/19/a-font-we-can-believe-in/

  7. 1) As políticas sociais como “desculpa” ou justificativa para a repressão política não valem. No entanto, as políticas sociais cubanas devem ser jogadas fora por que pertencem aos barbudos de Sierra Maestra? O quanto daquilo é Fidel, o quanto daquilo foi feito pelo povo cubano? Eu não sei. Só gostaria que, no futuro, seja pela ajuda internacional, seja, como disse Cabrera Infante, em seu magnífico “Mea Cuba”, com o capital trazido pela volta dos exilados, que Cuba tenha um futuro melhor, que o que sobrou de suas políticas sociais seja reestruturado eficiência, proteção e liberdade. Vejamos…

    2) Indiscutível.

    3) Sim e não. Ter um país revolucionário por perto força a elite a fazer concessões, mas de que forma? Exemplo: Brasil. Modernizou-se, cresceu economicamente, produziu uma rede de proteção social, mas a que preço? O que quero dizer é que não há abstração aí: se foram feitas concessões, nas décadas de 1960 e 1970 foram concessões SOB CONTROLE.

    4) Corrobora o que eu disse sobre o ponto 1: sem condescendência, a situação dos cubanos é diferente de um norte-coreano, diferente de um cambojano. Mas não desculpo Fidel por isso…

  8. 8 Sou da Opus e Dei

    Caro NPTO. O senhor tem razão ao dizer que o leninismo é ruim e que a esquerda não presta (exceto enquanto posição fálica). O que eu acho que faltou em seu brilhante raciocínio foi explorar as razões por trás de seu argumento. O leninismo é a doutrina do Anti Cristo, é a doutrina inspirada por Satã que leva os homens a negar Nosso Senhor e destruir igrejas. O primeiro crime de Lenin já é o pior de todos: executar exatamente aquele que havia sido ungido por Deus e encarregado de dirigir os destinos da mãe Russia. Eis que o poder do demônio exercido através de homens pequenos tornou a Rodina, a Casa da Mãe Russa em Casa da Mãe Joana. E não adianta questionar a escolha divina acusando Czares como Ivan de serem Terríveis. Terrível é mesmo o Roberto Carlos. E é bom parar.

  9. Celso,
    Grande post. O blog está cada vez melhor
    Um abraço,
    Marcos

  10. 10 Igor T.

    Muito bom, agora sobre o assunto:
    http://mozart.wunderblogs.com/archives/023522.html

  11. 11 napraticaateoriaeoutra

    Valeu pelos comentários aí, galera! É impressionante como esse blog é mais bem frequentado do que bem escrito. Me sinto como o dono de um daqueles puteiros onde aqueles puta (sem trocadilho) intelectuais franceses ou nova-iorquinos se encontravam, com a vantagem de que aqui vocês não tem como pendurar a conta.

    Majestade, você, de fato chamou atenção para o outro lado da questão. A direita mais feia da América Latina, de fato, se organizou melhor, e, suspeito, botou a direita mais esclarecida para escanteio, usando a Revolução Cubana como espantalho. É verdade.

    Japajato, estou tentando escrever um post sobre isso, mas está difícil pra caralho. Continuo tentando.

    Igor, valeu pelo toque, vou corrigir🙂. E a história da fonte é muito boa, mesmo.

    Renato, pois é, o grande desafio da transição cubana é preservar as conquistas sociais. Não é totalmente impossível, não, alguns países da Europa Central conseguiram manter um nível bem razoável de política social (na China as políticas sociais já eram uma merda, mesmo, o Mao não conseguiu nem fazer aquelas coisas que comunista fazia direito, esse era um bosta, mesmo). O desafio é organizar as finanças do Estado rápido.

  12. 12 Goes

    Não sei se é por que Cuba lhe é um assunto caro, mas Vossa Execência** está muito poética. Gostei especialmente do trecho em que afirmas que “vinte anos depois, seus crimes prescreveram menos que seus atenuantes”. E não estou escrevendo isto para sacanear ou ironizar, eu acho que o texto realmente possui pitadas poéticas entremeando seus argumentos. Bravo!!

    ** Bem, esse parágrafo agora é pra dar uma sacaneda no amigo querido mesmo: “All people who hold sinecure offices are held in more or less respect, and as the belfry-man of Vondervotteimittiss has the most perfect of sinecures, he is the most perfecly respected of any man in the world (…) and the very pigs [of the village] look up to him with a sentiment of reverence” (Edgar Alan Poe, the Devil in the Belfry)

  13. 13 Felipe Basto

    Cuba foi melhor pros outros que pra eles. Conheço um cara que é angolano, foi criado em Cuba dos cinco aos vinte e tal. Veio pro Rio, estudava adm na Uerj e era corretor. Não volta em Cuba nem de férias. Uma ex-vizinha minha (de82anos) viuva de sindicalista, professora, toda uma vida de equerda. Foi a Cuba com a neta. Passeou por Havana e Varadero, foi aonde deixaram, me trouxe uma garrafa de rum fantástica. Morreu achando que conheceu o paraíso.

  14. 14 CDL

    Ouvi dizer que Cuba vai lançar um foguete
    Lança, Cuba, lança
    Lança, Cuba, lança…


  1. 1 Ainda Fidel «

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