Dossiê da Cult: Marxismo nos EUA

16mar08

A Cult desse mês saiu com um dossiê sobre o marxismo nos EUA, organizado pelo glorioso Ruy Braga, que foi meu (e de vários outros leitores do blog) colega de faculdade. Achei bacana, porque o Ruy é um cara inteligente. Tenho um certo medo de elogiar, porque teve uma época em que ele entrou para o PSTúpido, mas espero que essa fase já tenha passado. O Ruy hoje é professor da sociologia da USP. Para lembrar o aniversário de morte do Marx, lembrado aqui pelo Felipe na sexta, e, principalmente, para comemorar que eu, ao contrário do Marx, não morri de gripe, vai aqui o meu comentário sobre o dossiê.

O post vai ser longo, por isso vamos deixar para depois da quebra.

O dossiê tem três artigos de apresentação de autores (David Harvey, Mike Davies, Fredric Jameson) e uma entrevista com os dois sociólogos marxistas americanos mais famosos da atualidade, o Erik Olin Wright e o Michael Burawoy. Não conheço nada do trabalho do Davies, e do Harvey não conheço o trabalho sobre imperialismo, que é o foco do artigo, por isso não vou comentá-los.

O artigo sobre o Jameson tem alguns trechos bacanas, mas acho que o leitor não sai com uma visão tão boa do que seja o método do cara, não. A autora – Maria Elisa Cevasco – opta por cobrir um grande número de temas, o que não é o que eu faria. O Jameson foi um autor que já despertou muito minha curiosidade, por causa do primeiro (e imenso) ensaio do “Inconsciente Político”, que eu não vou me arriscar a explicar de cabeça aqui, mas é uma puta lista de tarefas para o estudo marxista da cultura. O problema do Jameson é que ele insiste em ficar nesse negocinho de dizer que a dialética é um negócio maravilhoso, ao contrário da razão analítica e do pragmatismo. Mas eu só gosto do projeto teórico dele porque acharia interessante testá-lo, à maneira pragmatista. O “Inconsciente” começa com a idéia de que “Historicizar sempre” é o único principio inegociável da análise marxista. Ora, como um pós-estruturalista desses (La Capra? Não lembro) já argumentou, “historicizar” para o Jameson quer dizer encaixar o objeto de análise na grande narrativa histórica marxista. Eu acho que o esquema do Jameson só se salva se você disser, “é isso mesmo, mas vamos ver se funciona”, à maneira pragmática, e sem nenhuma pretensão de se estar descobrindo uma “totalidade” de natureza superior. 

Agora, minha frustração, como sociólogo, é que a entrevista com o Wright e o Burawoy não fala do trabalho deles. Por isso, lá vão meus comentários sobre os caras:

Erik Olin Wright é um dos principais nomes do movimento conhecido como marxismo analítico, a turma do Jon Elster, do nosso avatar. Já falamos deles algumas coisas aqui. O legal do marxismo analítico é a aceitação das regras do jogo do método científico, da falsifibilidade, etc., e um compromisso com o ideal de clareza conceitual característico da filosofia analítica anglo-saxã. O Wright construiu um sistema de classificação de classes sociais baseado no Marx, que é reconhecido por toda a turma que estuda estratificação social como bom. Só não é mais usado porque o esquema “padrão”, o Eriksson-Goldthorpe-Portocarrero (EGP), explicitamente já utiliza tudo o que pode do Marx (e mais um tanto do Weber). Em um certo sentido, quando o marxismo resolveu aceitar participar do jogo acadêmico, muito do que o marxismo tinha de interessante já havia sido incorporado por especialistas de cada área, por isso o esquema do Wright e o EGP são muito parecidos. Mas os usuários dos dois sistemas se respeitam intensamente, e ninguém tem problema em utilizar o sistema do outro se parecer haver um bom motivo para tanto. Era justamente esse tipo de atitude arejada que fazia do marxismo analítico um negócio atraente.

O Wright também tem um projeto muito sério chamado “Real Utopias”, que estuda alternativas de mudança social reais, concretas, apresentadas em detalhe suficiente para serem implementadas, estudadas, aperfeiçoadas, etc. Da última vez que eu vi, eles tinham editado um volume sobre experiências de democracia direta (que incluía os conselhos de Porto Alegre), estavam organizando um sobre renda básica, e um outro sobre socialismo de mercado.

O Burawoy, por outro lado, é um cara bem diferente. Ele é um dos grandes estudiosos de transição russa, sempre pelo método qualitativo; é considerado um puta mestre do trabalho de campo, tendo inclusive ido trabalhar em uma fábrica russa como operário para fazer sua pesquisa. Seu diagnóstico de que a Rússia estava virando um negócio no meio do caminho entre capitalismo e socialismo (merchant capitalism), em que uma elite comercial extrai rendas milionárias da exploração de recursos naturais, enquanto o resto do país se assemelha muito pouco a uma economia de mercado “normal”, foi na mosca para o começo da transição, e até hoje tem sua relevância. A bola fora do Burawoy foi seu comentário, em uma resenha para o American Journal of Sociology (acesso restrito), dizendo que o socialismo real caiu não por motivos internos, mas por pressão externa, e que o sistema, no fundo, não teve chance de desenvolver todo seu potencial (não lembro da frase precisa). Pô, esse costuma ser o argumento da turma marxista que se recusa terminantemente a efetuar qualquer análise da experiência soviética, o que é triste.

Quanto à entrevista em si, vale, de início, notar um negócio meio esquisito: as respostas são dadas como “MB e EW”. Quem disse o que? Os dois autores não têm pensamentos perfeitamente coincidentes. Suponho que a entrevista tenha sido feita por email, mas os editores poderiam ter deixado isso mais claro.

A entrevista é boa, em geral, mas o ponto que merece destaque é a virada que os autores dão na velha pergunta, “porque não houve socialismo nos EUA?” Bom, dizem os caras, hoje em dia não tem socialismo forte em mais lugar nenhum, e talvez a questão seja, porque o tipo de hegemonia capitalista que existe nos EUA demorou tanto a se estabelecer? A mesma idéia havia antes sido levantada por um cara muito bom chamado Michael Biggs, em uma resenha na Thesis Eleven (acesso restrito), que ainda terminava dizendo, meio de sacanagem, que, enfim, era como o Marx dizia, o país capitalista mais desenvolvido mostra aos outros, como um espelho, o seu futuro.

Enfim, bacana o dossiê, pra quem gosta dessas coisas.

PS: a propósito, o Erik Olin Wright organizou a melhor página de puzzles de free cell que eu já vi.



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