O Discurso

24mar08

Vocês provavelmente já devem ter visto o discurso do Obama sobre a questão racial nos EUA, o “Por uma União mais Perfeita“. Eu achei tão bom quanto a maior parte das pessoas parece ter achado, e, se ninguém traduzir logo, vou traduzir e colocar aqui.

O discurso teve um ponto fraco, aquele papinho furado sobre as corporações que mandam nossos empregos pra fora do país, buáááá, etc. O resto é impecável.

Aliás, um negócio que muita gente achou um ponto fraco, eu achei uma das coisas mais bacanas: o fato de que o Obama não renegou completamente o pastor panqueca da Igreja dele. Em primeiro lugar, porque, como o Sullivan tem dito, trocar de Igreja não é um negócio que se deva fazer com leveza (quantos católicos, ou judeus, ou muçulmanos, sobrariam? Não o Sullivan, nem eu).

Mas a coisa tem uma dimensão além do aspecto religioso.Eu ouvi o Obama falando disso e me lembrei dos meus professores de extrema-esquerda. Vários deles diziam e dizem coisas que me dão vontade de chorar (puxação do saco do Fidel, por exemplo). Boa parte do meu tempo aqui é gasto criticando coisas que eles diziam. Agora, se me pedirem para renegar os caras, eu não faço.

Foi a turma marxista que me encorajou a pensar sobre política com seriedade, que me levou para fazer campanha em favela, que me encorajou a defender o igualitarismo na época do Collor, quando todo mundo na minha classe social queria ser yuppie, e jogar ovo em operário no ponto de ônibus era considerado engraçado, e cheirar cocaína era considerado uma grande transgressão social.

Mais do que qualquer idéia ou experiência, foi graças à convivência na esquerda (e mesmo com a esquerda velha guarda) que adquiri uma sensação do mundo real que talvez seja o que eu tenha de melhor, embora nem sempre esteja à sua altura. Por causa daqueles malucos, toda vez que eu ouço uma história de sucesso econômico, a primeira coisa que eu pergunto é, “e os trabalhadores, se deram bem ou mal?”, e eu acho isso muito bom. Como muita gente, também aprendi na esquerda o senso crítico que me fez brigar com ela.

Conheci gente que aprendeu coisas semelhantes na Igreja, ou na turma do Olavo de Carvalho. Nenhuma dessas pessoas deve renegar sua história, embora não tenham o direito de puxar o saco do OC para sempre, ou de acreditar na literalidade do gênesis. Bom, quer dizer, o direito de achar essas coisas elas têm, só não têm o direito de continuar na minha presença sem eu considerá-las umas belas bostas.

Por isso, eu posso esculachar com tudo que meus professores marxistas disserem, e, aliás, pretendo seriamente fazer isso, mas não vou nunca negar o imenso favor que essa turma me fez.



10 Responses to “O Discurso”

  1. 1 Pera

    Caramba!

    Acho que é sinal de evolução conseguir enxergar tudo (ou pelo menos alguma coisa) que contribuiu para a nossa formação e reconhecer sua importância. Por mais óbvio que possa parecer, é raro. Sinceramente, parabéns.

    Sobre essa história toda, penso que há um padrão de desenvolvimento pessoal ao longo da vida:
    1. O cara começa a descobrir as maldades do mundo e a querer melhorar esse troço;
    2. Descobre que tem gente bem intencionada com umas idéias mirabolantes;
    3. Começa a estudar essas idéias e as vê como a solução;
    4. Amadurece e percebe que não é bem assim. Há limitações naquelas soluções que o cara dava como perfeitas (detalhe: são limitações. Não quer dizer que é tudo uma porcaria!).

    Nada mais normal, na minha opinião. Seja lá o que for (socialismo, microcrédito, defesa da natureza ou religião), a tendência é o cara ficar mais moderado (vide item 4). Só não precisa chutar o balde e fingir que não passou pelo processo, cuspindo na cara do povo que o inspirou lá atrás.

    Falou.

  2. Grande Pera, disse tudo, como de hábito. Para quem não sabe, o Pera é um dos quatorze Fábios que comentam aqui (digo isso pra vocês não acharem que é sempre o mesmo cara, que, aliás, seria meio esquizofrênico).

  3. 3 Goes

    Caro Celso, condordo com o seu post, mas não gostei da generalização “quando todo mundo na minha classe social queria ser yuppie, e jogar ovo em operário no ponto de ônibus era considerado engraçado”, que considero muito apelativa. Primeiro ela é falsa: não consigo imaginar sua mãe jogando ovo em operário. Segundo, também não consigo ver sua classe social tendo contato com operários, sequer em ponto de ônibus. Naquela época havia alguns em São Paulo, hoje só há o lúmpen funkeiro. (agora quem exagerou fui eu.)

    Bem… acho que o ponto mesmo é que embora o seu texto queira dizer que a esquerda o dotou de uma moralidade louvável, ele parece implicar que por contraste a direita não teria moralidade alguma. Sei que não pensas assim, mas esse elogio rasgado à moralidade da esquerda me fez lembrar que a mesma não se mostrou fiel depositária da ética nem aqui nem na China.

    Meu avô, por exemplo, deixou-me inúmeros livros do Lacerda e nunca roubou o condomínio nem fez gestos de fuc fuc ou top top. Coisa que não dá pra se dizer de Mister Aurélio e acessores.

  4. Grande Goes! Bom, eu deixei claro que não acho que nada disso seja monopólio da esquerda, inclusive disse que muita gente chegou nesse mesmo ponto pela Igreja ou pelo Olavo de Carvalho.

    Claro, a caracterização que eu fiz dos meus colegas de classe tem algum exagero, mas, contando só com a nossa geração, a tendência era essa, sim: cocaína, você deve lembrar, era regra, e tanto eu quanto você conhecemos gente que se fudeu por isso. E ovo no ponto de ônibus também era todo dia, e quem estava no ponto eram os porteiros e empregadas domésticas da zona sul. Já havia cara que batia em puta, mas acho que isso ficou mais comum agora.

    PS: os livros do Lacerda devem ser interessantes.

  5. 5 André

    NaPrática, acho que você tinha seus 20 e poucos anos no início dos anos 90, não? Você ainda se lembra do famoso hit “Retrato de um Playboy”, do carioca “Gabriel, O Pensador”? Não? Peraí, segue abaixo:

    Pergunta prum playboy o quê ele pensa da vida
    Sabe o que ele te diz? (Se borra todo) Não
    Mais ou menos assim:
    “Sou playboy e vivo na farra
    Vou à praia todo dia e sou cheio de marra
    Só ando com a galera e nela me garanto
    Só que quando estou sozinho eu só ando pelos cantos
    Porque eu luto Jiu-Jitsu mas é só por diversão
    (É isso aí meu “cumpádi” my brother meu irmão)
    Se alguma coisa está na moda então eu faço também
    Igualzinho a mim eu conheço mais de cem
    Se eu faço tudo o que eles fazem então tudo bem
    Não quero estudo nem trabalho
    Não vem que não tem
    Porque eu sou um playboyzinho e disso não me envergonho
    Não sei o que é a vida Não penso Não sonho
    Praia, surf e chopp essa é a minha realidade
    Não saio disso porque me falta personalidade
    Não tenho cérebro
    Apenas me enquadro no sistema
    Ser tapado é minha sina
    Ser playboy é o meu problema!
    Faço só o que os outros fazem e acho isso legal
    Arrumo brigas com a galera e acho sensacional
    Me olho no espelho e me acho o tal
    Mas não percebo que no fundo eu sou um débil mental!

    Eu sou playboy filhinho de papai
    Me afundo nessa bosta
    Até não poder mais
    Sou playboy filhinho de papai
    Sou um débil mental
    Somos todos iguais

    Com a cabeca raspada ou cheia de parafina
    Eu tiro onda porque acho que sou gente fina
    Mas na verdade eu pertenço à pior raça que existe
    Eu sou playboy! Penso que sou feliz mas sou triste
    Eu sou pior que uma praga eu sou pior que uma peste
    Eu tô em qualquer lugar da superfície terrestre
    E digo aonde a playboyzada prolifera-se a mil
    É num país capitalista pobre como o Brasil
    Onde não somos patriotas ou nacionalsitas
    Gosto das cores dos States com as estrelas e as listras
    E o que eu sinto pelo país é o que eu sinto pelo povo
    Olha só que legal quando eu pego um ovo
    E entro no carro com os amigos e levo o ovo na mão
    (Olha o ponto de ônibus
    Freia aí meu irmão!!)
    E eu taco o ovo bem na cara de um trabalhador
    Que esperava o seu ônibus que passou e não parou
    Que maneiro eu não ligo pra quem tá sofrendo
    Em vez de eu dar uma carona eu deixo o cara fedendo
    Que legal se um mendigo me pede um cigarro
    É apenas um motivo pra eu tirar mais um sarro
    Sacanear um mendigo é a maior diversão
    Não tem problema há quantos dias ele não come um pão
    E por falar em pão que eu como todo dia
    Eu me lembrei da empregada que se chama Maria
    Ela me dá comida me dá roupa lavada
    Mas quando eu tô presente ela é sempre humilhada
    Você precisa ver como eu trato a coitada
    Eu a rebaixo a esculacho e fico dando risada

    Refrão

    Eu não sei nada dessa vida e desse mundo onde estou
    E é quando eu saio de noite que eu vejo o merda que eu sou
    Sem ter o que fazer sem ter o que pensar
    Eu encho a cara de bebida até vomitar
    E os meus falsos amigos que vão lá me carregar
    São os mesmos que depois só vão me sacanear
    Mas na cabeca da galera também não tem nada
    Somos um bando de merdas dentro da mesma privada
    É até engracado
    Eu não decido nada
    Pela moda sou guiado
    Adoro reggae mas não sei o que Bob Marley diz
    E se eu soubesse talvez não fosse tão infeliz!
    Porque eu sou um otário a minha vida não presta
    Inteligencia?
    Não tenho – A burrice é o que me resta
    Mas agora dá licença que eu vou parar
    Minha cabeca tá doendo
    Eu vou descansar
    E esse lugar tá fedendo
    Quem mandou eu pensar? Porque…

    Refrão”

    Esse é o retrato da nossa juventude
    Seja o playboy da maconha ou o playboy da saúde
    E se cuidarmos assim do futuro do Brasil
    Vamos levar este país para a puta que o pariu!

    Resto o meu caso, dr. NaPrática. Louve os caras de esquerda que te levaram pro outro lado da força.

    Abraços,

  6. Este post esta cada vez pior.
    Apaga isso.

  7. Dr. vtYojr, o senhor está muito nervoso. É urgente que se inocule de grandes quantidades de maracujina, e visualize-se em uma praia caminhando ao som dos passarinhos.

  8. 8 Felipe Basto

    É NPTO,a barra nos anos 80/90 foi pesada. Ainda bem que vc ficou do lado que se indignou e tirou alguma coisa daquilo todo. Não havia só playboys, tinha também os filhos da revolução, burgueses sem religão cuspindo de volta o lixo ncima de vcs.

  9. Felipe, o certo não é EU fiquei do lado que se indignou, NÒS que nos indignamos, porque lembro de você e do Góes (e de mais vários leitores daqui)em cada passo do processo.

    E, repito, muita gente brigou por outros lados, em outras lutas, muitas vezes contra a gente,e também chegou num lugar bacana. Aliás, eu admiro muito a coragem dos colegas de direita que tiveram que combater ao mesmo tempo em que, na retaguarda, tinham que explicar, “porra, o problema da Benedita não é que ela é preta, porra!” para uns aliados que, pelo amor de Deus.

    Não estou elogiando a esquerda aqui, não. Estou elogiando o sujeito ir pra luta.

    André (que é mais novo que a gente, estava na luta quando a gente já olhava a molecada fazendo passeata e pensava, “pô, daonde eles tiram essa energia toda?), eu lembro de um show gratuito do Gabriel o Pensador na Barra da Tijuca em que uns caras do jiu-jitsu espalharam que iam atirar nele por causa dessa música. Aí no show o Pensador perguntou, “a galera do funk está aí? Tem uns caras aí querendo causar problema, vamos ficar de olho” (algo assim, não lembro bem). Nunca tantos tão fortes saíram tão de fininho.

    Agora vamos parar com esse post porque está ficando meio fresco, todo mundo se elogiando, que porra é essa? Se continuar assim, o vtYorj vai encher todo mundo de porrada. Cuidado, esse cara é locão!

  10. 10 Goes

    Porra, Celso, bala perdida é todo dia e nem por isso eu vou falar de uma geração que “achava engraçado estourar a cabeça de bebês três bairros além da favela”, eu não sei se é porque a totalidade dos MEUS amigos não jogavam ovo em ponto de ônibus que eu cresci achando que essas coisas não eram bem assim. Ninguém aqui pode dizer que não foi playboy sem levantar controvérsia (Para os meus alunos ser playboy é morar na zona sul), e nem por isso nos metemos nessas merdas. Eu diria até que deve ainda haver marginais que jogam ovo em pessoas no ponto de ônibus, mas isso não é mais notícia, pois com tanto traçante por aí quem vai prestar atenção em ovo?

    Quanto à cocaína… aí sim. Somos a exceção que confirma a regra. Acho que 99% da nossa geração cheirou.


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