Livro decepcionante: “Hamas – um guia para iniciantes”, de Khaled Hroub

27mar08

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Comprei esse livro porque acho o tema interessante, e as recomendações da contracapa (ou contra-capa?) são ótimas: uma dona de Harvard, um cara de Oxford, um cara de Columbia, uma resenha da Foreign Affairs, todo mundo dizendo que o livro é uma beleza. Não é, não.

Não é que não tenha muita coisa interessante. Por exemplo:

 – conta como, durante décadas, a turma mais religiosa na Palestina (como a turma da Irmandade Muçulmana, de cujo braço palestino saiu o Hamas) foi ridicularizada pelos militantes seculares da OLP por não ir pra porrada contra Israel, até que o Hamas resolveu partir para a ignorância em 1987 (época da primeira Intifada).

– descreve as tensões dentro do Hamas após a conquista do poder em 2006. Essa é a melhor parte do livro, mostrando o esforço do Hamas de tentar ganhar legitimidade internacional mostrando moderação, nomeando um ministério cristão, reformulando suas reinvindicações em termos de Direito Internacional, etc. Essa estratégia incluiria propor aos israelenses uma hudna, uma trégua de dez ou vinte anos. Infelizmente, a narrativa do livro não inclui os acontecimentos recentes desde a Guerra Civil Palestina do ano passado, período marcado por uma nova radicalização. Mas descreve bem os desafios que se colocaram diante do Hamas quando eles, meio sem querer, ganhou a maioria parlamentar.

– oferece biografiazinhas das principais lideranças (muitas delas já assassinadas), incluindo gente educada no exterior, como um cara chamado Naser al-Sha’er, o vice-primeiro-ministro eleito, que nos anos 90 dava um curso sobre religião e democracia na universidade de Nova York. O autor, que torce pela secularização do Hamas (ver abaixo), vê nesse cara uma das grandes esperanças de renovação ideológica do movimento.

– fornece as principais razões da vitória do Hamas nas eleições palestinas, incluindo a corrupção da OLP.

– chama atenção para um fato interessante: o Hamas, em princípio, poderia ser mais pró-mercado que a OLP, que, como movimento secular, sempre teve influências socialistas, completamente ausentes da história do Hamas.

– Destaca as diferenças entre o Hamas e a Al-Qaeda, no que está certo. O Hamas tem uma dimensão nacionalista ausente na Al-Qaeda, e recorre a vários outros meios de atuação além da violência, como assistência social e propaganda religiosa não-violenta, enquanto a Al-Qaeda é aquilo lá mesmo.

Quer dizer, o livro tem seu lado interessante. Agora, peca pelos seguintes motivos:

 – Não é um livro apologético do Hamas, mas é bizarramente condescendente. Certo, o crescimento do Hamas foi uma reação ao fracasso dos acordos de Oslo, entre a OLP e Israel. Mas o Hamas foi um dos principais responsáveis por esse fracasso, visto que, sem a interrupção dos ataques terroristas, a OLP não tinha o que entregar na mesa de negociação com Israel.

– Certo, os ataques suicidas começaram como reação aos ataques israelenses. Mas ninguém pode escrever um livro sobre o Hamas sem discutir os aspectos éticos de matar civis em pontos de ônibus. Tudo que o autor nos oferece é o argumento de que o Hamas provavelmente aceitaria interromper os ataques se Israel interrompesse os seus. O que se pode deduzir do próprio livro é que os ataques favoreceram a radicalização pretendida pelo Hamas, às custas do bem-estar dos palestinos e do futuro de sua causa.

– O autor torce por uma Palestina secular e democrática. Palmas para ele. Mas, desiludido com a OLP, força muito a barra para dizer que o Hamas tem amenizado seu discurso religioso. Quando reconhece que o Hamas já tentou, em algumas oportunidades, impor sua visão de mundo sobre a sociedade palestina, o autor lamenta, mas nos assegura de que o Hamas está cuidando de moderar sua visão religiosa, sem nos dar muitas provas de que este seja o caso. Afinal, o Hamas tem se fortalecido em paralelo à ascensão regional do Irã, o que não é lá grande credencial de secularismo.

– O autor reconhece que o grande ponto cego do programa do Hamas é: bom, cinquenta anos atrás talvez você pudesse querer expulsar todos os imigrantes que fundaram Israel, mas, cinquenta anos depois, com várias gerações de uma imensa população judaica plenamente enraizadas na região, o que o Hamas faria em caso de vitória com os judeus que moram em Israel? O Hamas não dá uma boa resposta para isso.

Uma vez reconhecido esse ponto cego, não é compreensível que Israel não esteja lá muito afim de papo com o Hamas? Isso não justifica nada que Israel faz na Palestina, mas não é possível analisar o Hamas sem levar isso em conta a cada passo da análise.

De qualquer maneira, o autor consegue, sim, mostrar que o Hamas não é um monolito teocrático, que nele há várias correntes de opinião, e que ele se distingue claramente de outros movimentos terroristas internacionais. É possível que seja recomendável começar um diálogo mais franco com o movimento, que, afinal, conta com o apoio de boa parte da população palestina, incluindo muitos dos palestinos mais pobres em Gaza. Entretanto, antes de concordar com isso, preciso ler um livro que me dê as informações que esse aqui não dá.

PS: devo admitir que minha opinião sobre o livro pode ter sido influenciada pelo fato de que a tradução é simplesmente horrorosa.



15 Responses to “Livro decepcionante: “Hamas – um guia para iniciantes”, de Khaled Hroub”

  1. Às vezes dá para julgar o livro pela capa.

  2. 2 Felipe Basto

    A capa é muito ruim. Agora, um partido com várias correntes e tendências, uma radicais outras moderadas. Que tenta suavizar um discurso religioso e carrega a bandeira de luta contra a corrupção dos senhores tradicionais. Um partido de massas. Quando chega ao poder, este partido não diz muito a que veio. Onde eu já ouvi essa história? hehehe

  3. Cara, esqueci de comentar isso, a capa também ficou muito feia, parece um daqueles livros pra adolescentes com um skatista radical na capa. É foda.

  4. Grande Felipe, também pensei nisso, na época em que eles ganharam a eleição. Eu achava que eles iam moderar o discurso, a Heloísa Al-Helena ia romper com eles, e, quem sabe, a perspectiva de uma trégua com Israel se tornasse mais provável. Mas não.

  5. 5 Goes

    Pra mim parece livro de terror (é, eu sei que rola um trocadalho do cadilho), com o cara de boca aberta na capa e Hamas escrito com dois caninos…

  6. É mesmo! Podia ser a capa de “Vampiros Radicais”, ou algo assim!

    Aí, Goes, porque só os seus comentários vão para a moderação?

  7. 7 Felipe Basto

    Qualé, NPTO? Discriminando o companheiro Góes?
    O que é melhor um radical cabeça dura? Ou um moderado que nem chega a ser pragmático?

  8. Grande Felipe, sei lá, o wordpress é que manda os comentários dele pra mim pedindo pra eu moderar. Eu acho que deve ter a ver com o endereço de IP, algo assim.

  9. 9 Felipe Basto

    Cara sensato, esse tal de WordPress…

  10. 11 Luiz

    Um dos principais problemas do livro, ao meu ver, é a total ausência de referências para os dados informados. Confesso que como historiador posso estar sendo exigente demais quanto a um livro que se propõe “para iniciantes”. Mas tratando de um tema tão polêmico, o autor bem que poderia inserir notas ao final do livro, como muitos pesquisadores fazem para deixar os livros mais leves, sem aquelas imensas notas de rodapé. Nós, como leitores, deveríamos ser informados das fontes do autor. Hroub diz coisas que vão de encontro com o que está na carta do Hamas, de 1988, dizendo que aquela carta não representa muita coisa. Mas não diz de onde tirou os discursos que a contrariam. Assim, muitas vezes, o que ele diz soa como uma grande “forçação de barra”.

  11. Ola Luiz, mais um historiador aqui entre os leitores. Concordo totalmente com o que você disse, há um tom de forçação de barra, mesmo.

  12. 13 JS

    Sugiro este livro:

    http://via-occidentalis.blogs.sapo.pt/12020.html

    As Origens Nazis do Nacionalismo Palestiniano e da Jihad Islâmica
    Autor: David Meir-Levi
    Posfácio de Alexandre del Valle
    Nº págs: 152 + caderno de fotos
    Formato: 130 x 205 mm
    PVP: 13,65 € (13€ + IVA)

  13. JS, cuidado com essa associação de nacionalismo palestino com o nazismo, é a maior furada. É verdade que o mufti de Jerusalém passou para o lado nazi, mas os terroristas zionistas (para o período, a denominação é precisa) também sabotaram o esforço de guerra inglês. Muito mais importante do que isso tudo é que destacamentos palestinos e judeus lutaram pelo Império Britânico contra o opressor comum e os esmagaram como os merdas que eram.

    Outra coisa é o fato de que o Hamas e outros grupos divulgam o Protocolo dos Sábios de Sião, essas atrocidades. Mas esse é um crime novo, com sua própria história, e que deve ser entendido em um contexto regional em que ninguém é cem por cento inocente.

  14. 15 Lair Amaro

    Também sou historiador e parte das minhas pesquisas referem-se aos conflitos no Oriente Médio.

    Estou apostando nos livros: “Inside Hamas: the untold history of militants, martyrs and spies” do jornalista palestino Zaki Chehab e “The Palestinian Hamas” de dois jornalistas chamados Shaul Mishal e Avraham Sela.

    Assim que chegarem e eu os ler, posto aqui meus comentários.


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