Bolsa Família e a Imprensa

14abr08

Hat tip para o André d’A Volta: relatório do Banco Mundial critica imprensa brasileira por sua abordagem negativa do Bolsa Família, que é um puta sucesso. Não tenho acesso à reportagem do Valor Econômico (preciso assinar esta porra um dia desses), mas aqui tem uma matéria da Carta Capital sobre o caso. O que me assustou na matéria da CC foi o seguinte:

“Não faz muitos dias, em carta publicada na Folha de S.Paulo, um leitor sugeriu que os beneficiários de programas sociais fossem impedidos de votar.”

Se isso for verdade, é um erro grosseiro da Folha. Há uma triagem das cartas, e ninguém publica cartas dizendo essas coisas fora d’A Hora do Povo (que publica em um sentido contrário, mas vocês entenderam).

Eu não compro essa história de que há uma conspiração da mídia contra o Lula. A maioria da mídia é hostil, mas, até aí, tudo bem. Eu não acredito em mídia completamente imparcial, mesmo, e nossa mídia fo criada á sombra de regimes autoritários e/ou direitistas em graus diversos, o que, dada a importância da publicidade oficial, foi crucial. A tendência é que, com o tempo, veículos que atendam ao setor de opinião mais à esquerda se consolidem.

A Veja é um caso à parte, mas eu acho que isso tem mais a ver com um declínio notável da competência profissional média dos caras que trabalham lá (como o sujeito encarregado de fazer o Photoshop da última capa) do que com acirramento ideológico – as matérias sobre coisas não-políticas também pioraram muito.

Agora, o que me enche o saco é os caras misturarem meter o malho no Mensalão –  tem que meter, mesmo, e pode exagerar, mesmo – com meter o malho nas coisas que o governo fez de certo, como o BF ou a política econômica. Não há a menor sombra de dúvida de que, se FHC tivesse inventado o BF (NÃO, NÃO FOI ELE QUEM INVENTOU: O BOLSA-ESCOLA FOI CRIADO PELO CRISTOVAM EM BRASÍLIA. SE VOCÊ ACHA QUE FOI ELE QUEM INVENTOU ISSO, ENTÃO PALOCCI INVENTOU A POLÍTICA FISCAL RESPONSÁVEL), a Veja já teria lançado ele para Papa contra o Ratzinger, alegando que está na hora de parar com esses papas de esquerda.

UPDATE: o Fábio Reis me lembrou, corretamente, que Campinas teve um programa de renda mínima parecido com o BF implantado poucos meses antes do do Cristovam pelo Magalhães Teixeira, do PSDB. O alcance e influência foram muito menores do que o de Brasília, que foi o que foi copiado (como tinha que ser, mesmo) pelo FHC, mas não podemos esquecer a heróica iniciativa.



8 Responses to “Bolsa Família e a Imprensa”

  1. 1 fabio

    Naprática, caríssimo, três pontinhos:
    – quem primeiro introduziu um “Bolsa Família” com alguma escala foi o Magalhães Teixeira – tucano – em Campinas. 1994.
    -Não enxergar acirramento ideológico é brincadeira. Você pode não querer, não gostar, achar desnecessário, etc. Assiste de novo o seu clip do Gabeira.
    -O mensalão é um fato, e não pode deixar de ser rigorosamente criticado.Não é possível entender o país deixando de lado o que a mídia e a oposição fizeram, com a cumplicidade de boa parte da classe média “instruída”.

    Um abraço

  2. Fábio, o programa do Magalhães foi mesmo proposto alguns meses antes do do Cristovam, embora eu ache (não tenho certeza disso) que eles são mais ou menos simultâneos. O programa de Campinas, se bem me lembro, era bem limitado em alncance e no tamanho da remuneração, embora tenha sido mesmo importante como esforço, para lançar a discussão, etc.

    A idéia da Renda Mínima do Magalhães era, evidentemente, do Suplicy. O Buarque e o Suplicy podem discutir a paternidade do programa de Brasília que enfatizava o vínculo com a escola (para ser estritamente rigoroso, eu acho que o mérito de tudo isso é do Suplicy, que é panqueca, mas foi o melhor inspirador de política social do pós-ditadura), mas o de Campinas era óbvio. O impacto do caso de Campinas na discussão nacional foi muito pequeno, e, se você perguntar para o FHC, o programa que ele copiou foi o do Cristovam.Aliás, parabéns aos caras que copiam boas idéias dos outros.

    Fábio, vamos falar francamente: você (e todo mundo)precisa se desvencilhar dos debates dos últimos anos no Brasil. Só se falou merda. Não tem nada para aproveitar disso, foram anos culturalmente perdidos, ainda que econômica e socialmente bons. A articulação política do governo foi uma merda. Os intelectuais do PT tiveram um desempenho absolutamente patético, com pouquíssimas exceções, o que deixou a Veja falando sozinha. Aí ela falou merda, em parte por ideologia, em parte porque esta era a opção aberta às suas possiblidades intelectuais. Mas a opinião pública só foi ouvir a Veja porque nós nos desmoralizamos sozinhos.

    É claro que houve acirramento ideológico, mas o que eu acho é que a “teoria da conspiração” parte do princípio de que o governo estava se portando extraordinariamente bem, e a PIG resolveu encher o saco dele. Claro, no meio da crise teve gente com projeto de poder próprio tentando aproveitar o momento para propor impeachment, mas a crise não foi gerada pela mída, foi gerada pelo governo.

  3. 3 fabio

    – Certo, Naprática, o Cristovam vinculou o “renda mínima” à educação – e virou o bolsa escola. E o Suplicy era a figura de maior destaque que defendia esses programas de tranferência de renda.
    – O desempenho do PT durante a “crise do mensalão” foi, em geral, patético. Sobretudo no “andar de cima”. Mas é verdade também que a militância compareceu, votou, reafirmou suas posições e deu uma surra na oposição e na imprensa em 2006. E vai dar outra surra esse ano. Desculpe insistir, mas o Gabeira precisa entender que para ser oportunista é preciso no mínimo senso de oportunidade. E entender coisas triviais – por exemplo: a Veja ouviu o Gabeira, mas a opinião pública NÃO ouviu a Veja. Quem ouviu que se emende, se puder.
    – Foi muita merda dita em 2005 e 2006. Melhor seria se não tivesse sido assim. Mas foi. E continuou em 2007. E continua em 2008. E não é por que cada vez menos gente leva isso a sério que podemos fingir que não é esse o discurso da oposição. Até porque ninguém pediu desculpas, e ainda hoje eu estou impedido de votar em quem eu quero.

    PS. A perseguição aos judeus na Alemanha foi gerada pelos nazistas, não pelos judeus.

    PSTU. Sobre a articulação política, acho que nenhum governo que não fosse do PT teria resistido ao que aconteceu. O ponto alto foi a sucessão do Severino. E ainda acho que existiu, em todos os governos anteriores, muito mais razões, e mais escancaradas, para uma “crise” do que nesse. Ou seja: temos um governo mais ético, mais atacado e que se defende melhor. Coloque um muito na frente de tudo: muito mais ético, muito mais atacado, se defende muito melhor.

    PSTU do B. Essa semana, depois de demitir seu ombudsman, a Folha soltou a seguinte explicação: “Jornal deixa de divulgar na internet a crítica interna, usada pela concorrência e instrumentalizada por jornalistas ligados ao Planalto.” O Globo soltou a manchete: “Anúncio precipitado de campo da Petrobras pode ter punição” – não houve tal anúncio, e, se houvesse, seria assim a comemoração. Quer dizer, fala sério!
    São estes dois jornais que, como se sabe, lançaram o Gabeira. E, pior de tudo, faz todo sentido o Gabeira ter sido lançado por eles – é só pegar todas as manifestações públicas dele nos últimos anos.
    Quando o Gabeira achar que não deve ser assim, ele que assuma seus erros e recomece. Por enquanto, ele está de um lado, o PT do outro – não porque eu quero, mas porque ele quis, e quis muito, e quis tanto que falou coisas que envergonhariam um Aécio ou um Serra. E ainda fala.

  4. 4 fabio

    Desculpe poluir o espaço, mas o ombudsman da Folha foi demitido e a coluna online descontinuada por causa disso:

    12/03/2008
    O queridinho da imprensa
    MÁRIO MAGALHÃES
    ombudsman@uol.com.br

    Alto de página da Folha em 2 de março: “Gabeira é o nome de PV, PSDB e PPS no Rio de Janeiro”.
    Outro alto, em 4 de março: “Gabeira aceita concorrer no Rio, mas impõe condições”.
    Hoje, também no espaço mais destacado da página: “Gabeira promete capitalismo, se alia ao PSDB e acena ao PT”.
    Sempre na edição São Paulo.
    Não me lembro de o jornal ter dado recentemente alto de página para as iniciativas de outros pré-candidatos à Prefeitura do Rio, como Marcelo Crivella (PRB), Solange Amaral (DEM), Alessandro Molon (PT), Chico Alencar (PSOL), Carlos Lessa (PSB) e Jandira Feghali (PC do B).
    O lançamento do deputado do PV por uma frente é mesmo um fato político importante. Mas a Folha dá a impressão de se transformar em cronista pouco crítico de um candidato em especial.
    Exagero?
    A reportagem de hoje não citou nenhum adversário de Gabeira. Nenhum mesmo. Contra quem ele concorrerá? Essa informação, elementar, foi omitida.
    Conhecê-la é um direito dos leitores.
    Quando o deputado disse que “as nossas divergências são secundárias”, sobre o PT, não seria o caso de publicar um quadro com as declarações de Gabeira à época do mensalão e de Severino Cavalcanti?
    Pior: defensor da ética na política e na administração pública, Gabeira posou ao lado do ex-governador Marcello Alencar.
    Era obrigação da Folha contar se o antigo governante notabilizou-se pelos bons costumes à frente do Estado do Rio de Janeiro.
    Sobre Marcello Alencar e seus filhos influentes, nenhuma palavra.
    Gabeira até poucas semanas atrás era colunista da Folha.
    Foi repórter do jornal.
    Há inegável interesse jornalístico em noticiar sua entrada na corrida pela prefeitura.
    Mas opinião, legítima, deve ser manifestada nos espaços próprios, de editoriais, artigos de colunistas e textos de convidados. Não no espaço noticioso.
    A reportagem de hoje não emite posição formal sobre o pré-candidato, mas o trata com uma condescendência estranha aos princípios editoriais da Folha condensados no Manual da Redação.
    O jornal faria bem se começasse a tratar Gabeira com o senso crítico que dispensa a outros parlamentares e candidatos.
    Para registro: no jornalismo carioca, o tom de simpatia por Gabeira é o mesmo ou ainda maior.
    —————————————————
    Ele foi suave.

    Um abração

  5. Fábio, é verdade, a militância se mostrou melhor do que a liderança, o que, aliás, sempre foi a regra do PT (no caso do PSDB, é o oposto).

    Agora, porque você não pode votar em quem você quer? Não entendi.

    Essa coisa da imprensa de direita jogar contra é meio como o bloqueio à Cuba. Pô, vocês achavam que os caras iam ser a favor? Pelo amor de Deus. Tem que contar com isso, e não dar mole fazendo merda.

    E nem todo mundo que desceu a lenha no PT o fez por viés, havia muita razão para tanto.

  6. 6 fabio

    Descer a lenha no PT, como fizeram, foi ideologia ou oportunismo. É como o cara se separar Claudia Gimenez, se casar com a Luciana Gimenez, e de repente falar que a estriazinha que ele encontrou na nádega esquerda dela é a coisa mais feia do mundo.
    Que a mãe da Claudia Gimenez, a melhor amiga e ela própria só falassem nessa estria se compreende. Mas elas não podem esperar que de tanto escrever todo mundo fique cego.
    Ninguém achava que a imprensa seria a favor. Mas não acho que para ser contra não precisa perder o senso da realidade. Agora, sabendo que a imprensa é o que é, por que compraram o discurso dela? O que leva alguém a, ainda mais, se tranformar em porta-voz desse discurso? E dizer que fala em nome da ética! Com quem eles pensam que estão falando?!
    Eu não posso votar em quem eu quero porque cassaram seus direitos políticos. Por que ele tinha sido presidente do PT. O Gabeira, no Jô, usou essa lógica:
    “- Voce acha que o José Dirceu foi o mentor do mensalão?
    Resposta:
    – Acho. Ele foi o mentor do assalto à máquina estatal. ”
    De qual assalto ele está falando?
    Do meu ponto de vista, o Gabeira está longe de ser mentor do “mensalão”. Mas sem dúvida foi o que mais se sujou nessa lambança. E não dá para fingir que não aconteceu – taí o apóio da Folha, do Globo, da Veja para lembrar.

  7. 7 patricia pompermayer

    gostaria de saber como faço p receber o bolsa familia pois sou mae solteira e estou desempregada moro na cidade de campinas e gostaria de saber onde devo ir e o que fazer p conseguir o auxilio

  8. Patricia, se eu entendi bem, o endereço de quem cuida disso em campinas é Rua Ferreira Penteado, 1331, no Centro. O telefone é 32546324. Essas informações foram tiradas do site do ministério do desenvolvimento social, no endereço http://www.mds.gov.br/adesao/gestor/Integranteslist.asp?showmaster=1&IBGE=3509502

    Boa Sorte!


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