Euston Manifesto: 2 anos

17abr08

Faz dois anos que foi publicado o Euston Manifesto, que, para quem já teve curiosidade de clicar aí do lado, foi um documento escrito em um pub irlandês bacana (O’Neil’s), onde se pode tomar Guiness com aquele trevinho de quatro folhas desenhado na espuma. Só por isso eu já devia apoiar, mas, além disso, o manifesto tinha algumas idéias interessantes.

Talvez hoje seja difícil entender o motivo da redação do manifesto, mas ele fazia sentido no clima político da Europa na época da guerra do Iraque. Nas manifestações contra a guerra, grupos radicais islâmicos iam lá protestar junto, e eram bem recebidos por uma molecada que, se vivesse sob o Talebã, já teria ido pro saco haveria muito tempo, porque lá não tem esse negócio de protesto, esquerda, sexo livre, etc. O anti-americanismo mais vulgar era amplamente aceito em discussões de gente educada, e as críticas a Israel volta e meia assumiam um tom alucinado.

De um modo mais sutil, cresceu a cotação do relativismo mais tacanho, que escrevia “direitos humanos” assim, entre aspas, sugerindo que os direitos humanos não eram bem humanos, mas uma criação ocidental (razoavelmente certo) que não se aplicava no Oriente (errado). George Galloway, um sujeito que ganhava mesada do Saddam, foi eleito para o parlamento europeu com o currículo de ter passado um natal na casa do ministro das relações exteriores do Saddam.

Vale dizer, aqui no Brasil coisas parecidas aconteceram. Foi comum ver artigos anti-semitas no CMI recebendo apoio de leitores. Um babaca brasileiro chamado Latuff ganhou um prêmio no concurso iraniano de charges sobre o holocausto. Um débil mental da USP (acho que era funcionário) foi filmado em uma assembléia gritando “Viva o Hezbollah!”. Era chocante o número de ressalvas que o pessoal da esquerda hardcore fazia para lamentar a morte de inocentes no 11 de Setembro (isto é, quando se lamentava).

O manifesto afirmava uns negócios que dá até vergonha dizer que foi preciso dizer: a esquerda deve apoiar os direitos humanos em todo lugar. A esquerda deve ser internacionalista. A esquerda deve apoiar os palestinos, mas não apelando para o anti-semitismo ou outros tribalismos. A esquerda não deve aceitar o “inimigo do meu inimigo é meu amigo” incondicionalmente, e deve ser radicalmente contra o fundamentalismo religioso de qualquer matiz. A esquerda deve apoiar os direitos das mulheres em toda parte, países islâmicos inclusos. Enfim, o basicão, que andava esquecido.

O manifesto foi polêmico também porque alguns dos signatários apoiaram a guerra do Iraque (já havima apoiado, o manifesto foi escrito depois), e, se bem entendi na crítica do Crooked Timber, um dos caras vacilou na hora de se dizer contra qualquer tipo de tortura em qualquer circunstância. Bom, eu sou contra a tortura (o Manifesto também), fui contra a guerra do Iraque, e acho que o que eles, no final, escreveram no papel ficou bom.

Mas o que mais me atrai nessa turma é o internacionalismo operário. Se você for lá no site deles vai ter manifesto de apoio a sindicalistas presos no Irã, links para caras que querem organizar sindicatos nos países mais radicalmente anti-democráticos (que, entretanto, contam com a simpatia de vários grupinhos de esquerda), iniciativas de apoio aos novos sindicatos no Iraque, um monte de coisas que eu apóio.

Dois anos depois, um dos caras do Crooked Timber escreve que o manifesto não deu em nada, porque não virou um movimento. Porra, não era pra virar, mesmo. A idéia era só que, naquele clima de confusão reinante, alguém dissesse, “Olha, não sei quanto a vocês, mas eu acho que, sei lá, talvez, cortar o clítoris das donas seja meio errado”. Eu cá tenho a impressão de que os Eustonianos venceram.

Desde o começo da coisa eu botei o bannerzinho aí do lado. Um outro colega também colocou o banner. Não vou tirar, não, porque ainda tenho que explicar de vez em quando que não, você não pode ser de esquerda e pensar “O Chávez/Mugabe/Ahmadinejad são meio esquisitos, mas pelo menos são contra os ianques”.

Agora, de fato, os caras podiam dar uma atualizada no site deles (ou extingui-lo). O site para você assinar está fora do ar há vários meses, os debates pararam, enfim.



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