Guerra dos tradutores

22abr08

Matéria interessante n’O Globo de sábado (se tiver paciência, ache a matéria fazendo isso) sobre um escândalo de plágios em traduções de clássicos da literatura pela editora Nova Cultural. Aparentemente, a editora pegou traduções clássicas dos livros, fez umas gambiarras, e pôs nomes de outros tradutores que, se entendi bem, talvez não existam. E assim não pagou os direitos sobre as traduções. Que beleza.

A primeira coisa que me intrigou na reportagem foi saber qual era o critério para saber que tradução é um plágio. Por exemplo, se o cara escreve “I like cheese”, é difícil que alguém não traduza como “eu gosto de queijo” (certo, alguém poderia tentar “eu, tal qual o queijo”, mas que fosse à merda). Mas a tradução de um poema, por exemplo, é tão difícil que é praticamente impossível que dois caras diferentes cheguem à mesma solução em uma estrofe inteira. A prosa literária ficaria entre os dois extremos.

Daí veio a dica dos tradutores revoltados: você vê que foi plagiado se os erros forem iguais. Sempre usei esse critério para pegar cola de aluno. Agora, comecei a suspeitar que as traduções plagiadas talvez não sejam tão clássicas assim quando vi que um dos erros era traduzir “exquisite” como “estranho” ( e não como maravilhoso, delicioso, refinado, como seria correto), um dos primeiros falsos cognatos de que você ouve falar em curso de inglês mais avançadinho. Pelo menos não mandaram um “esquisito”.

Outra coisa impressionante: a editora Martin Claret, que lançou um monte de clássicos em edições bacanas e baratas nos últimos anos, aparentemente emprega o cara mais inteligente do mundo, porque o tradutor do Sun-Tzu, do Marx, do Nietzsche, do Shakespehare, dos gregos, é o mesmo cara, Pietro Nassetti, que também está com a maior cara de ser fictício.

UPDATE: li lá no blog dos tradutores que a edição d’O Príncipe da Martin Claret, não apenas é assinada pelo glorioso Pietro Nassetti, como também tem uma introdução pelo Marcílio Marques Moreira publicada sem autorização do autor. Pô, já que eles estavam no embalo, deviam ter posto a introdução como se fosse do velho Nassetti, também.

UPDATE II: Provando mais uma vez que aqui a caixa de comentários é muito melhor do que os posts, a célebre tradutora Denise Bottmann (que traduziu, se não me falha a memória, “A Força da Tradição”, que li na faculdade, e mais vários daqueles livros de história bacanas da Companhia das Letras)  colocou aí na caixa de comentários exemplos de tradução do mesmo texto por tradutores respeitados (completamente diferentes entre si), e um exemplo de plágio. Há mais 27 cotejamentos semelhantes aqui (o do Poe é escandaloso, mesmo). É realmente fácil ver a diferença.



3 Responses to “Guerra dos tradutores”

  1. muito interessante.
    sim, como saber se é um plágio? abaixo transcrevo um exemplo, que se encontra em http://assinado-tradutores.blogspot.com

    “prosseguindo em nossa cívica e confrangedora lide cotejatória, temos agora emily brontë.
    em prol e para a ilustração de algum colega não demasiado familiarizado com as técnicas de copidescagem cosmética e que, em virtude dessa inocência, pode se sentir inclinado a julgar que se trata de traduções de autorias independentes, frutos de engenhos tradutórios originais, acrescento mais abaixo exemplos de legítimas traduções de outras lavras.

    emily brontë, o morro dos ventos uivantes (trad. oscar mendes, abril cultural, com licença da ed. globo, 1971) (p. 12):
    José rosnou uns sons indistintos lá nas profundezas da adega, mas não deu sinal de aparecimento, de modo que seu patrão desceu a procurá-lo, deixando-me cara a cara com a celerada da cachorra e um par de terríveis peludos cães pastôres que com ela exerciam estreita vigilância sôbre todos os meus movimentos. Pouco desejoso de entrar em contato com os seus dentes, fiquei quieto, mas, acreditando que êles difìcilmente entenderiam insultos tácitos, pus-me infelizmente a piscar os olhos e a fazer caretas para o trio. Alguma expressão de meu rosto irritou tanto a “madame”, que ela se enraiveceu de repente e saltou-me para os joelhos.

    emily brontë, o morro dos ventos uivantes (atrib. silvana laplace, nova cultural, 2003) (p. 10):
    José rosnou alguns sons indistintos lá nas profundezas da adega, mas não apareceu, de maneira que seu patrão desceu a fim de procurá-lo, deixando-me cara a cara com a celerada da cadela e um par de terríveis peludos cães pastores que com ela exerciam estreita vigilância sobre todos os meus movimentos. Pouco desejoso de entrar em contato com os seus dentes, fiquei quieto, mas, acreditando que eles dificilmente entenderiam insultos tácitos, pus-me infelizmente a piscar os olhos e a fazer caretas para o trio. Alguma expressão de meu rosto irritou tanto a “madame”, que ela se enraiveceu de repente e saltou-me para os joelhos.

    abaixo, o que se pode considerar como tradução original de direito próprio – dispensarei os negritos por razões evidentes.

    emily brontë, o morro dos ventos uivantes (trad. rachel de queiroz, círculo do livro, sob licença da record, 1995) (p. 18):
    Das profundas da adega, Joseph resmungou indistintamente, mas não deu indícios de que subia; o patrão mergulhou, pois, em sua busca, deixando-me vis-à-vis com a feroz cadela e um casal de mal-encarados e peludos cães de pastor, que com ela partilhavam a ciosa guarda de todos os meus movimentos. Fiquei imóvel, pois não me agradava nada a idéia de lhes entrar em contato com as presas; mas, crente de que não entenderiam insultos mímicos, entreguei-me, infelizmente, ao prazer de piscar e fazer caretas para o trio; algum trejeito que tomou minha cara irritou a dama que, de repente, se enfureceu e me saltou aos joelhos.

    emily brontë, o morro dos ventos uivantes (trad. celestino da silva, vecchi, 1967) (p. 9):
    José resmungou indistintamente qualquer coisa no interior da adega, mas não deu sinal de sair; tanto assim que o patrão foi ao seu encontro, deixando-me frente a frente com aquela cachorra mal-educada e com um par de horrendos e peludos policiais que a secundavam na ciosa vigilância de todos os meus movimentos. Não tendo nenhum desejo de entrar em contacto com os seus dentes, fiquei quieto: mas, convencido de que êles não compreenderiam os meus tácitos insultos, atrevi-me, infelizmente, a piscar os olhos e a fazer caretas para aquela trinca. Aconteceu que algum aspecto da minha fisionomia irritou de tal modo a cadela que ela foi logo tomada de um acesso de fúria e se atirou sôbre os meus joelhos.

    denise bottmann”

    é que não existe a menor probabilidade de que qualquer tradutor traduza as mesmas frases da mesma maneira ou na mesma ordem ou com a mesma estrutura sintática.
    até o mesmo tradutor, em dias diferentes, traduz a mesma frase de maneiras diferentes :))
    por isso se diz que tradução é autoria: o tradutor deixa seu sinete na tradução que faz, tem seu estilo próprio etc. etc., como um intérprete musical.

    se quiser ver mais cotejos (temos 27 postados), visite-nos:
    http://assinado-tradutores.blogspot.com

  2. Professora, obrigado pela aula, é realmente fácil ver a diferença. Vou colocar uma atualização agora mesmo e linkar o blog de vocês.

  3. traduções de eça, gil vicente, machado, josé de alencar, tudo pelo pietro nassetti e mais um ou dois na claret
    indico a leitura do seguinte texto publicado no Globo Online:

    A primeira tradução de Machado de Assis para… o português (http://www.oglobo.com.br/blogs/prosa/post.asp?cod_post=102805)


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