Partido da Frente Luzia

30abr08

Hoje no Ex-Blog do César Maia, uma analogia histórica interessante. Historiadores, profissionais, amadores ou farsantes como eu que lêem o NPTO, digam o que vocês acham.

“3. Os chamados liberais brasileiros no Império, nada tinham a ver com o que hoje se chama de liberais, em função da liberdade de mercado, abertura das economias e estado apenas com funções precípuas. Nada disso diferenciava muito Luzias e Saquaremas.

4. A diferença básica estava na autonomia das Províncias (Estados hoje). Os luzias defendiam um sistema federativo com poder definido e autonomia relativa para as Províncias. É provável que o Império tivesse sobrevivido ou pelo menos tivesse seu tempo muito alargado, se adotasse um sistema federativo, na linha do que se esboçou durante a Regência, ainda na menoridade de D.Pedro II. Depois, a República Velha deu mostras disso.

5. Hoje os Democratas -DEM- sabem que esta sua raiz federativa permanece, e explica muito mais o partido que o liberalismo ortodoxo. Em torno do relançamento da Federação, o DEM vai crescer. A Federação -tanto nos governos FHC como Lula- vem sendo atropelada pela saga centralizadora federal. O Senado – deixou de lado suas funções constitucionais de reflexo da Federação e funciona como uma poderosa Câmara de Deputados de 81 membros.

6. Um dos vetores estratégicos do DEM a partir de seu congresso de refundação em 2004, e principalmente depois da renovação de seus dirigentes, é exatamente retomar a questão federativa, reforçar o senado em suas funções constitucionais, obstruir a permanente invasão de competências realizada pelo ministério da fazenda e relançar a Federação em bases muito mais avançadas.”

Alguns comentários:

1 – Tanto quanto analogias podem ser boas, essa analogia é muito boa. Em termos de liberalismo moderno, o PFL está mesmo muito mais para Ronnie Von do que para Von Mises ou Von Hayek. O negócio do PFL é explorar as redes locais de clientelismo, que foram as que sobraram quando os militares controlaram a máquina federal e deixaram os caras lá com os Estados pra eles. O PFL não quer lutar contra o Estado Patrimonialista brasileiro, ele quer que o Estado Patrimonialista brasileiro pare de se meter nos negócios do Estados Patrimonialistas Baiano, Carioca, Paulista, etc. Mais ou menos como quando o neo-pefelista Quércia reclamava da intervenção no Banespa.

2 – Tenho uma certa curiosidade para saber que livros de história anda lendo o César Maia. O sistema esboçado na Regência – que foi um caos miserável – teria sido mais estável? Isso só não é um delírio se pensarmos na seguinte intepretação: o Império não teria caído se tivesse autorizado que cada Estado decidisse sobre a abolição da escravatura como quisesse. Mandem o Lincoln invadir a sede do PFL.

3 – César Maia quer mesmo associar seu movimento político à República Velha? Eu tenho meu chute sem base nenhuma minha interpretação histórica de estimação: a hora em que o Brasil ficou pra trás foi na República Velha. Com a abolição por via prussiana, o Brasil teve a chance de consolidar um sistema capitalista digno do nome, mas essa oportunidade se perdeu quando a burguesia latifundiária deixou de ter o único contrapeso à sua atuação, o Estado. A conversão do Estado da República Velha em comitê executivo da burguesia foi bom para os capitalistas do café, mas congelou o Brasil na posição de economia periférica. De quebra, ainda desmoralizou a democracia, abrindo as portas para Vargas. Só faltou os rentistas latifundiários do café botarem o nome do partido deles de, sei lá, Democratas. 

4 – A analogia falha, mesmo, porque hoje não há apenas o Estado Nacional e as burocracias estaduais. Aos trancos e barrancos, o Brasil virou uma democracia, mesmo. Há uma esfera pública, movimentos sociais, etc., que não podem ser simplesmente reprimidos ou ignorados como no Império ou na Velha República. Se o César Maia tem um plano para uma aliança entre as velhas plataformas Luzias e as reinvindicações populares, isso será ótimo. Por enquanto, a abolição da escravatura continua nas mãos dos outros partidos.

PS: em que pesem as discordâncias, devemos reconhecer que o único político na direita brasileira que lança essas discussões é o CM, mesmo. Talvez o Marco Maciel, de vez em quando. O que é ruim, porque um dos papéis da oposição é aproveitar o tempo livre para pensar coisas novas.



8 Responses to “Partido da Frente Luzia”

  1. 1 Goes

    Concordo com sua observação #3. Nem me dei ao trabalho de ler o post todo ou entendo lá alguma coisa de Históra do Brasil, todos os meus estudos formais foram voltados para a antiguidade clássica ou medievo. Ainda assim também acho o mesmo, mas se esse meu achismo é digno de crédito isso eu não sei.

    PS: Acabei de ver na internet um pacote de 13 dias em Fernando de noronha por 3400. Caro, você dirá, mas deixe-me explicar: São 5 dias de instrução em Recife, depois você pega um barco e vai pra Noronha, fica 4 dias lá, pega o barco e volta pra Recife. Isso me parece fuderosamente delicioso, preciso investigar a reputação desta firma, se for sólida, irei!

  2. 2 Goes

    (Obviamente nos dias que estão faltando para fechar a conta você estará atrás de um timão. Com T minúsculo, porque atrás do Timão ninguém fica. Nem o Bragantino. haha.)

  3. Será que intão o prefeito maluquinho topa acabar com as transferências constitucionais para os EE&MM, hein hein?

    O fato é que embora as dimensões continentais (vamos usar chavão, vamos) do país sejam um desafio extraordinário para soluções unitárias, eu realmente acho que a gente precisa de algumas em alguns setores. Educação, por exemplo.

    Pior, mesmo em questões tipicamente locais, como saneamento, estamos nos enrolando de um jeito que só pode dar…merda. 🙂

  4. Fala, Hermenauta! Claro, você tem razão que soluções locais seriam o ideal em muitos contextos. Mas quando eu penso no nível médio das autoridades locais, me dá vontade de chorar.

  5. 5 Igor

    Realmente o CM é o único político (ou um dos únicos) que levanta esse tipo de discussão. E argumenta muito bem.

    Só me lembro que, se você pegar atas antigas de discussões entre os senadores, os políticos do Império, poderemos ler discursos de alto nível. Os liberais não apenas sabiam quem era Bastiat, mas o professavam. Acho que dentro da pauta da época, do que ainda havia de se solidificar no Brasil, eles eram, ideologicamente, liberais como os liberais do resto do mundo eram. Conheciam o assunto e o tropicalizaram, uma vez que é tão universal quanto os próprios direitos humanos.

    Aqui, não apitavam tanto como os conservadores, mas sabiam fazer barulho. Segundo parte da historigrafia atual, eles tinham até muito pouco crédito político para constituir uma força equiparável a dos saquaremas.

    NPTO, seus comentários 2 e 4 estão intocáveis.

    Quanto ao 3, acho que CM não se associa à tradição da República Velha, não como um todo. Pela minha leitura, ele só disse que naquele período foi possível enxergar que um federalismo maior daria mais longevidade ao Império. Bem, o federalismo da RV não era exatamente jacksoniano, mas isso já é outro assunto.

  6. 6 Felipe Basto

    Fala, NPTO! No momento, o papel da opsição tem sido ar um jeito de fazer as cosas velhas parecerem novas. A velha história de mudar pra ficar igual.
    O CM faz essas coisas por causa do tempo livre. overnar o Rio é tão simples, banal e fácil, que ele pode se dedicar as questões teóricas.
    Goes, lembra do Marcelo Dantas, do SCM? Ele trabalha com turismo, numa empresas séria. Acha lá no orkut e liga pra ele.

  7. 7 fabio

    Felipe
    E ele usa o tempo livre para fazer a única coisa que sabe: factóide. É que quando não tem vaia para organizar, pesquisa para analisar (ele é um grande especialista em criar factóide a partir de interpretações esdrúxulas de pesquisas) e congêneres ele cria esses factóides intelectuais, essas interpretações estapafúrdias da nossa história política.
    Mas tá certo – funciona. Como o Naprática disse, na absoluta falta de discurso civilizado da direita brasileira (civilizado, aqui, para lembrar que o discurso da imprensa não vale, por obtuso), qualquer leitura faz barulho.

    De todo modo, já que o meu vício em Naprática me expõe a esses factóides, vai aí a minha opinião:
    trata-se sobretudo de animar os partidários, que definham em nível federal, para as disputas locais deste ano. Uma tentativa de sobrevalorizar as questões locais em detrimento das nacionais – o mesmo movimento que o Gabeira, o ACMezinho e seus pares pelo Brasil a fora estão realizando. Movimento esse, diga-se de passagem, de sucesso muito duvidoso.

  8. 8 fabio

    Naprática, para a séria “o Império e o Demo”:

    “O Banco do Povo tem a cara do paulista, porque é feito para o trabalhador e nós gostamos de trabalhar. Isso desde os tempos do Brasil Império, porque aquele pessoal da côrte não gostava muito de trabalhar, não. Só chegamos onde chegamos por essa distância da côrte. Até hoje, onde ainda há tentáculos dessa cultura, existe essa falta de cultura do trabalho. Por isso há no Brasil essa situação em que alguns trabalham e pagam pelos benefícios dos que não trabalham”, disse.
    Guilherme Afif Domingos, 08/05/2008, em evento em Mauá.


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