Fundo Soberano (3)

19maio08

O caderno de economia da Folha de domingo foi quase todo sobre o Fundo Soberano, e o sempre alerta Fábio Reis já pôs várias informações importantes aí na seção de comentários. O que eu queria saber é o seguinte:

1) Se, ao invés de fazermos esforço fiscal para fazer o fundo, fizéssemos esforço fiscal para baixar os juros, quanto seria possível baixar (dada a estimativa atual de esforço fiscal necessário para o fundo)? Chamemos essa queda de juros de x.

2) Quanto x ajudaria a desvalorizar o Real? Chamemos essa queda de y.

3) Quanto y aumentaria a competitividade brasileira? Chamemos esse aumento de w.

4) O w conseguido dessa forma é maior ou menor que o w conseguido com a criação do fundo?

Econometristas de plantão, trabalhem. Como tenho informações seguras de que o pessoal do FED, do FMI e do BIS não fazem nada sem antes ler o NPTO, conto que receberemos uma informação em breve.

Só mais uma questão, secundária, mas não irrelevante: se entendi bem, a grana do fundo serviria para ajudar empresas brasileiras no exterior. Isso aí não dá problema na OMC, não? Não sei, mesmo, estou perguntando.



8 Responses to “Fundo Soberano (3)”

  1. 1 fabio

    1. Esforço fiscal é uma coisa só – a única diferença é se os dólares adquiridos serão aplicados em título do governo dos EUA ou para financiar exportações. Em outras palavras: qualquer esforço fiscal ajuda da mesma maneira a diminuir a necessidade de juros – o que muda é se o dinheiro acumulado por esse esforço será administrado pelo BC ou pelo Tesouro.

    2. Esse x não existe. Os juros serão os mesmos, seja o esforço fiscal acumulado pelo BC ou pelo Tesouro.

    3. Esse y não existe.

    4. Esse primeiro w não existe.

    Não, não dá problema na OMC. Todos os países possuem políticas de estímulo as exportações.

    Abração, NaPrática

  2. Fábio, fiquei com uma dúvida lendo seu comentário. Quando você diz que a grana ou vai para o fundo ou vai para títulos do governo americano, posso depreender que essa grana vem das reservas administradas pelo BACEN(que são, normalmente, aplicada em bonds dos EUA)? Eu havia entendido que a grana do fundo viria do excesso de arrecadação, que, em princípio, poderia ser usada para qualquer coisa – investimento, pagamento de dívida interna, etc. Corrija-me se eu estiver errado, porque se eu estiver errado nisso, realmente a questão é outra.

  3. 3 fabio

    As reservas atuais do Bacen ficam com o Bacen (aliás, era essa a discussão no início, e o Bacen levou).
    3,8% do PIB, o superávit primário que o governo se comprometeu a realizar, continuarão administrados pelo Bacen.
    O superávit primário que superar 3,8% do PIB será administrado pelo Tesouro através desse Fundo Soberano. Atualmente, esse o superávit primário está em 4,5% do PIB – o excesso de 0,7% iria para o Fundo.
    Uma diferença importante é que esse excesso de superávit não é obrigatório – depende da situação da economia, da arrecadação, etc.
    Na situação atual, o Mantega estima que esse superávit adicional será de pelo menos 0,5% do PIB.

    Na situação atual, esse superávit adicional pode ser usado para qualquer coisa – é dinheiro no caixa do governo. Com a criação do Fundo, ele será convertido em dólar (o que ajuda a segurar a cotação, exatamente como o Bacen faz) e será utilizado para financiar exportações (o que é muito melhor do que o Bacen faz, na minha opinião, pois ajuda a controlar o balanço de conta corrente, e a aumentar a competitividade da indústria nacional, oferecendo a ela juros competitivos, mas com rentabilidade melhor do que a dos títulos americanos) e para financiar a compra de ativos no exterior. Ou seja: não gera demanda interna (exatamente como a compra de títulos do BC) e de quebra fortalece a balança comercial.

    PS. Não existe excesso de arrecadação (também é só a minha opinião), existe excesso de superávit primário. Aliás, no último trimestre, existe superávit nominal. Mas a discussão, de fato, é essa: criar esse fundo (uma política focada, “intervencionista”) ou diminuir, por exemplo, a alíquota do imposto de renda?
    Bom, essa discussão e também a do “eterno mensalão” – a cumpanherada vai meter a mão em tudo, etc…Mas essa, NaPrática, por favor vamos evitar.

  4. Fábio, fiquei mais tranquilo agora, porque a grana do BACEN tem que ficar com ele, mesmo, não pode haver a menor dúvida de que as reservas vão ser administradas conservadoramente.

    Quanto a “não gera demanda interna”, muita calma nessa hora: quando você compra dólar aqui, você joga reais no mercado (eu acho que esse é o problema atual da Argentina). Se estiver errado, me corrija, ainda não entendi bem o plano todo.

    Pode ser que, computados os ganhos de competitividade decorrentes da desvalorização do câmbio, isso valha a pena, mas eu queria ver umas projeções.

    Quanto ao incentivo às exportações, é o velho programa do “Agenda Perdida”, que eu apóio tranquilo.

  5. 5 fabio

    NaPrática, sem me alongar demais:
    – O BC compra dólar aqui, e é unanimidade dizer que aumentar o superávit para comprar dólar e fazer reservas reduz a necessidade de subir juros para controlar a inflação. Não existe diferença entre o BC comprar dólar ou o Tesouro comprar dólar, só muda o tipo de reservas que estão sendo acumuladas.

    – Quanto a tal “agenda perdida”, que eu vi lá na Marginal Revolution que você admira – pô, NaPrática, um dia eu terei que ir no Rio dar porrada em você e no Gabeira o)))
    Mas falando sério: eu pensava ter visto um artigo do Scheinkman criticando o fundo, mas não encontrei nada na net. Vou tomar meus remedinhos…
    A questão, aí, é o fundo ser bem gerido – o que é outra história.

    Abração

  6. Fábio, não é exatamente que não faça diferença. Se o BC joga real e compra dólar, está, sim, jogando dinheiro na praça, mas, em geral se entende que vale a pena, por causa do problema cambial. Na Argentina, hoje em dia, já se discute se, na extensão em que isso vem sendo feito, não está dando problema. É tudo uma questão de grau.

    Ainda não fechei opinião sobre o fundo, não, e acho que pode haver uma verdade no que disse um cara da Price na Folha, que talvez estejamos fazendo uma coisa meio diferente dos fundos soberanos que existem, mas que talvez seja uma boa idéia. Vou esperar aparecer uma análise com projeções dos efeitos.

    Pô, você não gosta do Agenda Perdida? Seu oposicionista miserável! Depois fala do Gabeira.

  7. 7 fabio

    Bem, NaPrática, vou partir de dois axiomas para te responder:
    1. Ser petista é confundir Alexandre Scheinkman com Alexandre Schwartzman
    2. Ser petista é ser a velhinha cega de Taubaté com o guarda chuva da velhinha surda da “Praça é Nossa”

    Em termos, NaPrática.
    De certo modo, quando compra dólares o governo está aumentando a oferta de reais no mercado. O problema é que cortar impostos também aumenta na mesma quantidade a moeda disponível no mercado. Amortizar a dívida interna ídem. Pagar os juros da dívida também aumenta a disponibilidade de reais – e quanto maior a Selic, mais reais o governo colocará na praça. Utilizar os recursos, seja em gastos ou investimentos, produz exatamente o mesmo efeito.
    Ou seja: por essa lógica, a única maneira de não aumentar a oferta de reais na praça é queimar o dinheiro arrecadado. Seria até interessante: ao invés de aumentar os juros ou o superávit para conter a inflação, poderiam aumentar os impostos e queimar o excedente.
    Em todo caso, NaPrática, na minha opinião esse “aumento da oferta de moeda” não é real: a moeda já existe, já está arrecadada, já está na economia real – a questão é o que fazer com ela – e queimá-la não é uma boa idéia. Aumentar a oferta de reais de verdade é cunhar moeda sem lastro, o que não está em cogitação.

    Enfim, sem querer nem parecer liberal, acho que o problema da inflação na Argentina tem mais a ver com o déficit do governo. Como você disse, “we have the most fiscally responsible trotskysts in the whole world”. Além disso, e isso você não disse (pior ainda, disse o contrário!), nossos liberais sempre quebraram o Estado (e aqui destaque para o “Cardoso”, que conseguiu a façanha de quebrar o país 3 vezes em 8 anos e entregar ao sucessor uma bomba prestes a explodir, vindo de 5 anos consecutivos de estagnação), quase sempre em proveito próprio – embora algumas vezes por pura ignorância (como em 1998, quando, parece que você esqueceu, não foi o “Cardoso” que descongelou o Real – foi o mercado, apesar do “Cardoso”).

    Vou refrescar a sua memória:
    “Quem fica cacarejando aí o que não sabe, que precisa desvalorizar (o real), é porque não tem apreço pelo trabalho”, afirmou o presidente, ao inaugurar conjunto habitacional em Osasco (SP).”
    http://www1.folha.uol.com.br/fsp/brasil/fc25069808.htm
    A mentira se suporta, NaPrática, já a burrice, mesmo quando querem chamá-la de crise internacional, custa muito mais caro. Ainda bem que mudou tudo.

    Abração

  8. Fábio, o que você está dizendo faz um certo sentido, embora continue achando que a grana jogada na economia é diferente da grana poupada porque a segunda não mexe com a demanda (mexe? sei lá). Mas vou esperar pra ver o que os caras vão dizer oficialmente quando sair o fundo sobre o vai-e-vem dessa grana.

    A propósito, eu acho que o FHC administrou bem a economia só no segundo mandato, o primeiro foi essa desgraça aí, mesmo. Mesmo os problemas principais do segundo mandato, como Apagão, foram fruto de besteira feita no primeiro (ali o que não faltou foi besteira). Depois que o Fraga montou o esquema das metas é que a coisa se arrumou.

    Eu tenho uma certa curiosidade sobre o que os historiadores vão falar do Plano Real. Minha suspeita: (a) quebrou, inteligentemente, o sistema de indexação da moeda, e (b) foi um esquema de sustentação política de juros altíssimos, que baixaram a inflação.


Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s


%d blogueiros gostam disto: