Sea-Steading

20maio08

                   

Como diria Deleuze, esse mundo é variado. Uns milionários do Vale do Silício resolveram embarcar (he!) em um projeto para construir micro-entidades políticas soberanas sobre plataformas marítimas semelhantes às utilizadas para a extração de petróleo. As sea-steads, cuja simulação artística (i.e., desenhinho de computação gráfica feio pra cacete) aparece acima.

A idéia é criar um ambiente propício a experiências com formas alternativas de organização social. Assim, os ultra-libertários poderiam ter a sua plataforma, os anarquistas a sua, e, caso todo o fundo do oceano fosse assim ocupado, as várias facções da quarta internacional trotskysta, agrupadas em doze por plataforma, teriam seu espaço.

A idéia é do neto do Milton Friedman, que parte do argumento de que as “barreiras de entrada” da indústria “governos” são imensas: você só consegue montar seu negócio ganhando uma eleição nacional e mudando a constituição, ou fazendo uma revolução armada. Com os sea-steads, daria para experimentar vários modelos por uma fração do preço, e ver no que dá.

Na verdade, os caras copiaram meu antigo plano de colonizar Paquetá. Mas isso é outra história.

Há dúzias de objeções à proposta, a começar pelo fato de que os Estados têm que ser capazes de se defender dos outros. Mas, supondo que todo mundo ache o negócio engraçado o suficiente para deixar eles em paz, ainda assim há problemas:

1 – A validade do experimento: nada garante que um sistema que funciona com três mil caras funcionaria na China. Eu não estranharia, por exemplo, se uma comuna anarquista formada por idealistas altamente intelectualizados, dedicados à produção de conhecimento avançado, prosperasse. Mas quero ver botar em prática em qualquer população razoavelmente grande.

2 – Se funcionar, o efeito ecológico sobre os oceanos da proliferação desses negócios seria devastador.

3 – Tem tudo para virar refúgio de picareta. Se não me engano, tem um safado que ocupou, ou planejou ocupar, uma plataforma abandonada no Mar do Norte, com o plano de montar uns super-computadores e virar uma mistura de paraíso fiscal com banco de dados de informações que você realmente, realmente, REALMENTE quer que fiquem em segredo.

4 – Onde é que se planta nesse negócio? Os experimentos devem excluir a organização da agricultura? Ou, aliás, experimentos relativos ao trânsito?

Ou seja: puta idéia sem pé nem cabeça. Mas interessante demais pra eu não comentar. E já que tem um maluco que deu o dinheiro dele (isto é, não o meu) pros caras tentarem isso, vamos ver no que dá.



4 Responses to “Sea-Steading”

  1. 1 Igor

    Na ordem, comentando os seus itens.

    1- Só quero saber onde vão ligar a tomada.

    2- Seu item dois é uma saída para tirar todo crédito da idéia: se funcionar, será ruim de todo jeito. Não creio na viabilidade das Friedmanlândias, mas se forem implementadas, não serão muitas. O efeito disso no oceano jamais será maior do que o efeito das plataformas da Petrobrás em nossas bacias.

    3- Com certeza, a primeira coisa que eu pensei em montar foi um banco para os políticos do governo e do PT.

    4- Oras, para quê plantar se podemos importar de países onde você só “consegue montar seu agronegócio ganhando uma eleição nacional e mudando a constituição, ou fazendo uma revolução armada.”

  2. Conheço o exemplo de uma plataforma usada para baterias anti-aérea durante a segunda guerra mundial e que depois da guerra foram vendidas e comprada por uma milionário inglês. Não estou lembrando do nome do país que ele fundou (não é reconhecido pela ONU) mas está no canal da mancha, tem moeda própria, passaportes; resumindo, toda parafernalha que existe em um governo. O problema é que só cabe cerca de 15 moradores nessa plataforma e o único acesso é por meio de helicópteros. Por algum motivo o milionário colocou sua plataforma a venda no E-bay e o grupo The Pirate Bay (aquele dos torrents) comprou a ilha e acho que ja tinha começado a instalar seus servidores. Depois disso ninguém mais pode confiscar seus servidores pois nenhum outro país tem legitimidade para tomar a plataforma e parece que a pirataria foi legalizada, mesmo que só em um país.

  3. Juliano, essa história é excelente, vou ver se descubro mais sobre isso, valeu!


  1. 1 linques «

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