Livro Bacana: “Super Crunchers: porque pensar com números é a nova maneira de ser inteligente”, de Ian Ayres

04jul08

 

                                 

A idéia básica do livro: a facilidade de recolher e analisar dados cresce exponencialmente com os novos meios de armazenamento eletrônicos. Cada vez mais coisas são decididas com análise estatística (em especial, com modelos de regressão), por isso é melhor se acostumar e aprender esse negócio.

O melhor do livro são as histórias: o cara que bolou um modelo para prever o preço do vinho usando só umas poucas varíaveis, e fez previsões melhores que os especialistas. O cara que fez um modelo que analisa os elementos do roteiro de um filme e prevê a bilheteria (acertou 6 em 9; a média de acerto dos estúdios é 3 em 9. E os programas de diagnóstico médico que acertam mais que a média dos médicos.

É impressionante também ver a assustadora tendência das empresas de fazer, a partir do seu perfil, modelos de previsão de quão bom você será como consumidor, pagador de empréstimo, empregado, ou segurado, e tratar você diferente conforme o resultado.

E, o que eu achei o mais interessante (mas aí sou eu que acho), a parte sobre políticas públicas testadas empiricamente. O exemplo do cara é realmente estranho (pelo menos pra mim): o governo americano testou uma porrada de métodos de ensino em uma enorme amostra de escolas, e os resultados estatísticos mostraram que o mais eficiente, disparado, foi o seguinte: o professor recebe um roteiro fixo de aula, em que tudo o que ele fizer já está programado, e segue o roteiro mais ou menos facilmente. A folha começa com algo como “dizer: alô, turma” e segue por aí.

Vale dizer, fiqueis curioso sobre o método, vou ver se estudo isso. Agora, aqui começa a ficar aparente uma fraqueza do livro: o cara é bom jogador, mas às vezes arrisca perder o gol por causa daquele driblezinho a mais.

Há uma certa tendência, a começar pelo subtítulo, a dizer que o que está realmente em alta é a análise estatística. Na verdade, o que eu acho que está acontecendo é: por causa da análise estatística, os caras realmente acima da média estão ganhando poder, enquanto os que estão da média pra baixo estão ferrados. Alguém, afinal, prepara o roteiro do método educacional, escolhe as variáveis dos modelos, faz teorias sobre que coisas seria importante medir, etc. Esses devem ser mais valorizados. O resto vai repetir e rodar programa, mesmo (ou, ao menos, é isso que se depreende da história do livro). É a velha alienação do Marx – a perda progressiva do controle do processo de trabalho por parte do trabalhador, como o próprio autor nota.

O furo do livro chega quando o cara diz que coisas como o House, que acerta mais que os modelos, só acontecem na ficção. Isso é errado, em primeiro lugar, porque o House é meu amigo, brigou com ele, brigou comigo. Em segundo lugar, porque o que todos esses modelos e testes medem é o resultado na média. O programa de computador deve ser melhor mesmo que o médico médio. Em parte, porque os médicos ruins baixam a média. Mas o cara realmente fodão sabe, inclusive, quando usar e quando não usar o modelo, e, analisando o paciente, consegue perceber muito mais dados do que o programa. Claro, eventualmente os macetes dele podem ser computadorizados, também. Mas enquanto o computador não criar seus próprios macetes, o Dr. House não perde o emprego.

Quem já fez análise estatística sabe que é tudo complicado, cheio de aproximações, relações causais que você não sabem pra que lado funcionam, e, principalmente, dificuldades de mensuração. Medir a bilheteria de um filme é provavelmente possível. Prever que filme provocará uma revolução estética é outra coisa.

O autor cobre seus flancos, e no final afirma que o que vai prevalecer são os caras que sabem usar a intuição e a estatística ao mesmo tempo. Concordo inteiramente. Mas de vez em quando o livro força pra dizer que a estatística é mais legal.

E tem o velho problema: no fundo, o fato de que você prevê preços usando preços se deve ao fato de que o preço é uma construção social espetacular (voltamos ao Hayek) que sintetiza a informação de milhares de pessoas ao mesmo tempo. Vejam só: as duas áreas em que é mais fácil fazer análise estatística são naquelas em que as pessoas concordam em serem tratadas como números fixos, a economia e os estudos eleitorais. No primeiro caso, convencionou-se socialmente que você vale o quanto tem no bolso, e pode escolher entre as opções que encontra oferecidas no mercado. No segundo, se convencionou que você e todo mundo valem 1, e escolhem um número de opções limitadas oferecidas pelo sistema político. Uma vez que a sociedade se trancou na quantificação, entra em cena o analista estatístico. Mas essa análise não é exatamente só baseada nos números, ela é resultado de um processo pelo qual milhares de pessoas concordaram em transmitir informação por meios que são somáveis, subtraíveis, divisíveis, etc.

Tendo dito isso, repito: é melhor todo mundo aprender uma estatísticazinha, mesmo. E livro é uma leitura muito agradável.



12 Responses to “Livro Bacana: “Super Crunchers: porque pensar com números é a nova maneira de ser inteligente”, de Ian Ayres”

  1. Considere um mundo à merce de uma geração de loosers. Qualquer roteiro bem elaborado minimiza os danos que o ahn… imbecil coletivo (haha seria esse o sentido original? nunca li) pode fazer, seja ele executivo, médico ou professor. Seja sincero, você não tem alunos que se médicos fossem poder-se-ia trocar 20 deles por um manual, com vantagem?

  2. Cara, eu já tive alunos que, se médicos fossem, a humanidade seria extinta.

  3. 3 caliban

    Napratica,

    Post interessante. Isso me lembrou uma história meio off-topic, mas que toca no assunto do cara que prevê as bilheterias. É uma história tirada da auto-biografia do Buñuel (“Meu último suspiro”).

    Ele diz lá que numa época ele tinha construído um “quadro” (a descrição é meio ruim lá no livro e já faz muitos anos que li) com umas “peças” móveis que ele ia montando, tais que, dada a configuração inicial de um roteiro de qualquer filme americano, ele conseguia prever como o filme terminava. As peças eram coisas como, “mocinho”, “mocinha”, “paixão à primeira vista”, “crime passional”, “vilão”, etc. Com essas peças iniciais, dizia ele, ele chegava ao que acontecia no final infalivelmente. Pois bem, segundo ele, ele conseguiu treinar o concièrge do prédio onde morava a usar o tal quadro e o cara tinha ficado bom no negócio.

    Um dia, o Buñuel tinha ido ver um filme americano da moda com um amigo (não me lembro quem era) e o cara tinha achado o filme genial. O Buñuel, obviamente, disse que era uma droga e que o “quadro” dele era capaz de prever o final do filme. O amigo duvidou. O Buñuel foi além e disse que até o concièrge dele faria isso. O cara não se conteve e exigiu ir até o prédio para provar que o Buñuel estava “full of shit”. Foram lá, já era tarde, o concièrge acordou contrariado, mas acabou aceitando, meio sonolento, o desafio. Começaram a dar a ele as “peças” iniciais e, antes que terminassem, ele já querendo voltar para a cama disse: “Ah, fulana morre no final e sicrano vai pra cadeia”, ou algo parecido. Não preciso dizer que ele estava absolutamente certo e o amigo do Buñuel ficou de boca aberta, para a alegria do diretor espanhol.

    O livro é repleto dessas histórias deliciosas, a metade provavelmente mentira, mas que se dane a verdade (pelo menos no caso).

    Desculpe o texto longo e off-topic. Parabéns pelo blog.

  4. 4 fabio

    OFF TOPIC
    Apresentação do Gabeira, pelo Globo de ontem:
    MARCADO POR LEVANTAR NO CONGRESSO A BANDEIRA CONTRA O CAIXA DOIS, o deputado federal Fernando Gabeira, candidato pela coligação PV/PPS/PSDB, planeja inaugurar a arrecadação pela internet, numa adaptação do modelo do candidato democrata às eleições americanas, Barack Obama.
    – SEM COMENTÁRIOS

    PS. Fábio, se o mundo for dominado pelo que você chama de “loosers”, significa que, por definição, o que você chama de “loosers” é o que os falantes do inglês chamam de “winners”. A graça do pensamento americano médio é justamente acabar com qualquer concessão à pretensão dos derrotados.

    PSTU. NaPrática, se médicos incompetentes tivessem potencial para extinguir a humanidade, não teríamos chegado sequer ao estágio de desenvolvermos as “ciências sociais”. Por isso mesmo o nosso amigo House, que é fodão, chega a parecer inverossímel: tem uma inteligência muito geral para um médico. Fica parecendo mestre de obras querendo recalcular, ali na hora, de cabeça, a quantidade de ferro nos pilares de um edifício. E isso chapado.

  5. 5 fabio

    Cadê você, NaPrática?
    Enquanto isso: um programa de computador pode diagnosticar com certo sucesso, mas é incapaz de escrever um livro, a sua resenha do livro, ou mesmo a resenha que o seu aluno que não poderia ser médico fez da sua resenha. Na verdade, nem esse comentariozinho xôxo que eu estou fazendo um programa é capaz.

    Mas tudo isso é para enfeitar mais uma passagem sobre o Gabeira no Globo de hoje:
    “Fernando Gabeira, da coligação Frente Carioca (PV/PSDB/PPS), declarou patrimônio de R$ 54 mil, com duas motocicletas 650, ano 99, uma conta bancária e uma aplicação financeira.”
    Faz lembrar aquela sequência clássica da época da ditadura: “Brasil, à beira do abismo” – “Brasil, um passo à frente”.

  6. 6 fabio

    Pô, NaPrática, vamos escrever aí.
    Eu acho que isso que segue abaixo, na raiz, é mais uma consequência do “discurso mensalão” – aquela cruzada moral que fez o Gabeira ficar marcado, segundo O Globo, por levantar no congresso a bandeira contra o caixa dois. A pretensão de tratar o Estado como patrimônio pessoal – ou de grupo – é de uma transparência, de uma falta de pudor, que hoje não se compreenderia não fosse a desmoralização da ética que o furor orgasmático do pseudo-moralismo provocou (e eu digo orgasmático no pensando no furor dos estupradores, que estão para liberdade sexual assim como o Gabeira está para a ética):

    Carta aberta à sociedade brasileira sobre a recente decisão do Presidente do Supremo Tribunal Federal no habeas corpus nº 95.009-4.

    Dia de luto para as instituições democráticas brasileiras

    1. Os Procuradores da República subscritos vêm manifestar seu pesar com a recente decisão do Presidente do Supremo Tribunal Federal no habeas corpus nº 95.009-4, em que são pacientes Daniel Valente Dantas e Outros. As instituições democráticas brasileiras foram frontalmente atingidas pela decisão liminar que, em tempo recorde, sob o pífio argumento de falta de fundamentação, desconsiderou todo um trabalho criteriosamente tratado nas 175 (cento e setenta e cinco) páginas do decreto de prisão provisória proferido por juiz federal da 1ª instância, no Estado de São Paulo.

    2. As instituições democráticas foram frontalmente atingidas pela falsa aparência de normalidade dada ao fato de que decisões proferidas por juízos de 1ª instância possam ser diretamente desconstituídas pelo Presidente do Supremo Tribunal Federal, suprimindo-se a participação do Tribunal Regional Federal e do Superior Tribunal de Justiça. Definitivamente não há normalidade na flagrante supressão de instâncias
    do Judiciário brasileiro, sendo, nesse sentido, inédita a absurda decisão proferida pelo Presidente do Supremo Tribunal Federal.

    3. Não se deve aceitar com normalidade o fato de que a possível participação em tentativa de suborno de Autoridade Policial não sirva de fundamento para o decreto de prisão provisória. Definitivamente não há normalidade na soltura, em tempo recorde, de investigado que pode ter atuado decisivamente para corromper e atrapalhar a legítima atuação de órgãos estatais.

    4. O Regime Democrático foi frontalmente atingido pela decisão do Presidente do Supremo Tribunal Federal, proferida em tempo recorde, desconstituindo as 175 (cento e setenta e cinco) páginas da decisão que decretou a prisão temporária de conhecidas pessoas da alta sociedade brasileira, sob o argumento da necessidade de proteção ao mais fraco. Definitivamente não há normalidade em se considerar grandes banqueiros investigados por servirem de mandantes para a corrupção de servidores públicos o lado mais fraco da sociedade.

    5. As decisões judiciais, em um Estado Democrático de Direito, devem ser cumpridas, como o foi a malsinada decisão do Presidente do Supremo Tribunal Federal. Contudo, os Procuradores da República subscritos não podem permanecer silentes frente à descarada afronta às instituições democráticas brasileiras, sob pena de assim também contribuírem para a falsa aparência de normalidade que se pretende instaurar.

    Brasil, 11 de julho de 2008.

    Seguem 73 assinaturas

  7. 7 fabio

    Enquanto você não volta, vou acompanhando a eleição do Rio pelo Globo:
    – A Jandira andou de moto sem capacete. Já o Gabeira andou de metrô.
    – A Jandira não fala sobre aborto, diz a manchete. O Gabeira defende o bilhete único.
    – Os outros não existem.
    Um aparece bem. Um mal. O resto não existe.
    Será que ficou alguém curioso para saber o que a Jandira acha do bilhete único e o que o Gabeira acha do aborto? Ou, pelo menos, o que a Jandira “defende” e “sobre o que o Gabeira não fala”?
    Você não tem curiosidade em entender esse apoio ostensivo do Globo ao Gabeira?

  8. 8 fabio

    Cadê você, NaPrática?
    Agora falando sério: você se sente culpado ou ainda está tentando entender?

    Os juízes federais da 3ª região fizeram um manifesto contra o presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), ministro Gilmar Mendes. Os 130 magistrados que assinaram o documento alegam que Mendes pediu ao Conselho Nacional de Justiça para investigar o juiz Fausto Sanctis, da 6ª Vara Federal Criminal, responsável pelos mandados de prisão na Operação Satiagraha da Polícia Federal. Segundo o manifesto, Mendes coloca em risco a “independência do Poder Judiciário”.

  9. Ô Fábio, tu tá maluco? A arrecadação online é um puta progresso em direção à transparência. Se bem entendi, você acha que eu não gostei da prisão do Dantas. Porra, outro dia eu disse que esses escândalos da telefonia, sim, eram graves, e você quase teve um troço aqui. Eu, hein.

  10. 10 fabio

    Pô, NaPrática, o que eu acho é que a instrumentalização do discurso ético, que, segundo o Globo, fez o Gabeira ficar conhecido no congresso pelo combate ao caixa dois, estimula o Gilmar Mendes a tratar a lei como sua propriedade particular – quem não se informa direito.
    O problema, NaPrática, é o Gabeira, como mostra o pedro Doria:
    “Por certo causaram muita surpresa a alguns as seguintes palavras de Diogo Mainardi:
    Hoje, terça-feira, bem cedinho, olhei pela janela e vi uma câmara da TV Globo apontada para o prédio vizinho, onde mora Verônica Dantas. Pensei:
    – Oba! Daniel Dantas vai ser preso!
    Pouco depois, li que Naji Nahas havia sido preso junto com ele. Pensei:
    – Oba, oba, oba!
    Foi ele quem, em 2005, citou pela primeira vez a relação entre Daniel Dantas e Naji Nahas. Seu último podcast é uma mostra de independência que deve ser respeitada. Hoje mesmo, nos jornalões, nas rádios, há colunistas que não conseguem disfarçar seu desconforto com as prisões.

  11. 11 fabio

    Otro pobrema é o uísque.


  1. 1 quero ler «

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