Notas sobre Doha

30jul08

Não é minha especialidade, mas tenho os seguintes comentários:

1 – Se entendi direito, a posição do Brasil em toda a rodada foi exatamente a que se depreenderia da economia mainstream: acordo multilaterais são superiores, muito superiores, à acordos bilaterais, como tem gente defendendo. Se me lembro bem do argumento, se você faz um acordo bilateral você consegue um desconto de 10% no preço social (gente que perde emprego em um setor não-competitivo, etc.) de um tratado multilateral, e recebe um produto 50% pior (acesso a menos mercados, importados piores, etc.). Além do que, os países pobres têm muito poder de barganha nas multilaterais (caso negociem juntos), zero nas bilaterais.

2 – Não consegui ler um artigo realmente bom sobre os bastidores, mas suspeito que tenha havido um racha entre o grupo de Cairns (países exportadores agrários, Brasil incluso), que querem endurecer, mas querem um acordo logo, e o G-20 (Brasil também incluso) que inclui países que não têm tanta pressa no acordo, como a Índia. Posso estar errado, não achei informação sobre isso, mas li que Brasil e Austrália (Cairns) estavam tentando consertar a crise com a turma do G-20 que barrou o acordo.

3 – Quando você vê os montantes que impedem o acordo, o quanto os EUA ou a UE, por exemplo, perderiam se concedessem absolutamente tudo que o G-20 pede, e depois você pensa no quanto esses caras ganham por haver um regime comercial mundial estável, percebe que o nível de miopia é extraordinário.  O Brasil, por exemplo, provavelmente perderia alguma coisa se aceitasse o acordo proposto agora. Agora, temos todo interesse do mundo em uma economia mundial mais dinâmica. Digo sem medo de errar: a diplomacia brasileira, e que pese o que dizem as mulas de plantão, foi muito mais consistente do que a do primeiro mundo, que teve sua racionalidade travada pelos lobbies mais vagabundos do mundo. Se os EUA eliminassem o subsído ao algodão, por exemplo, a África Ocidental faria uma festa, o número de pessoas prejudicadas por isso nos EUA não encheria o estádio da Portuguesa, e o contribuinte americano se livraria de um poço sem fundo para o seu dinheiro. Que esses subsídios não sejam eliminados é uma falha grave do sistema político mundial.

4 – O prejuízo econômico talvez não seja tão grande, mas o dano político é: posso estar errado, mas acho que no pós-guerra nenhum acordo dessas dimensões tinha fracassado por falta de coordenação política. O fracasso de Doha sinaliza uma crise de governança global razoável. Repito, se o sistema é refém de poucos mil caras nos países ricos, não é forte o suficiente pra fazer nada do que precisa.



One Response to “Notas sobre Doha”

  1. 1 Fabio

    Bem, eu não entendo muito dessas coisas, mas um negociador que chama a judia do outro lado da mesa de nazista e diz que uma rodada de conversas foi “totalmente inútil” talvez pudesse ser substituído por… bem, até por mim mesmo!


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