PT e FARC

03ago08

Alguém tinha que dizer, o Hermenauta foi lá e disse: o email do cara da FARC mostra que o PT e o Marco Aurélio Garcia estavam tentando isolar as FARC do resto da esquerda latino-americana. Se você ler imprensa esses dias, vai achar que existe um email do Lula dizendo “E aí, já mataram os reféns? Não? Pôôô…Viadinhos”. E a inacreditável Barbara Gancia resolveu pedir desculpas ao Olavo de Carvalho no espetacular texto “Olavo viu o ovo“.

Os emails realmente comprometedores falam da tentativa de evitar a extradição do Medina, o que é feio, na minha opinião, mas está a um mundo de distância da conspiração de que fala o OC.

Eu já disse, e repito: deve ter alguém no Foro de São Paulo que acredita que está articulando um mega-esquema de revolução continental (o Emir Sader, sei lá). Mas, cês sabem, NPTO. Cada partido ou facção local está agindo por seus próprios interesses, segundo seus próprios objetivos e cada configuração nacional. É completamente diferente da Internacional Comunista, por exemplo, que mandava parar revolução no meio quando isso era visto como estratégico (e o pessoal parava). A IC jamais teria deixado, por exemplo, o Morales estatizar empresa do Lula, porque o Brasil seria visto como muito mais estratégico que a Bolívia.

As “provas” usadas pelo OC são textos que ele achou na Internet. garanto pra vocês que não tem nenhuma conspiração séria em curso que publica seus planos na Internet.

Há, sim, uma tentativa do Chávez de mandar na região usando uma série de fantoches, como Morales, Correa, as FARC, etc. Mas isso é bem diferente da teoria do OC, que acaba se desmoralizando e perdendo a chance de insistir no que tem razão, a crítica a Cuba, a necessidade do Brasil estar preparado para alguma merda que o Chávez faça, etc.

EM TEMPO: obviamente, se alguém for pego conspirando mesmo com as FARC para derrrubar a democracia brasileira, deve ir pra cana. Essa turma da secretaria de pesca realmente não me inspira confiança. A propósito, secretaria de pesca é foda.

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17 Responses to “PT e FARC”

  1. 1 Igor

    Permita-me ser mais simples: o PT de fato inaugurou o Foro de SP e Lula o presidiu. Era deles a responsabilidade por incluir as FARC, o que foi devidamente feito por anos e anos. Isso já é, em si, indefensável, tendo ou não qualquer conspiração concreta. Que tipo de partido consegue se articular com narguerrilheiros, convidá-los para um evento político, e conseguir resposta positiva nisso? Sem contar que essas pessoas ficavam circulando por aqui à convite do PT – como se deu essa relação de confiança?Que tipo de partido é saudado por essa mesma narcoguerrilha, através de nota “oficial”, quando se eleva à presidência. E que absurdo é esse de uma mulher de um membro das FARC recebendo cargo comissionado???

    O que vai acontecer?

    Nada. Assim como MAD MAG não pagará politicamente pelo TOP, TOP, TOP; ou o Amorim pelo “tomara que outro 11 de Setembro não seja necessário para os ricos aprenderem”; ou o dinheiro dos aloprados continuará sem dono; ou etc; ninguém vai tomar as conseqüências por ficar assinando resoluções de cunho político com uma narcoguerrilha que mata e seqüestra.

    Vamos simplesmente dar de ombros. Finito. Você acha que um país construído assim funciona?

    Na época em que o OdeC divulgou as resoluções do FSP, disponíveis na internet, nenhum jornalista se animou a exerer o próprio ofício – Ah, se fosse meia dúzia de DEMs num almoço com membros da KKK, a reação seria diferente.

    É isso.

  2. 2 João Berg

    Bravo Igor!

    Que eu saiba a conspiração que o OdeC defende que está acontecendo é uma coisa muita mais orgânica na sociedade do que organizada de cima pra baixo. É a tal revolução Gramsciana, na qual as instituições vêm sendo tomadas de dentro pra fora por pessoas que por um motivo ou outro são comperometidas com valores comunistas na sua mais antiquada conotação. OdeC defende a idéia de que os comunistas (através de Gramsci) perceberam que seria muito mais eficaz a tomada do poder se conquistassem a alma “burguesa” através da destruição de valores considerados conservadores. Isso começou com a cooptação de artistas nas décadas de 60, se estendeu à imprensa. Sob a influência dessa turma, hoje a sociedade acha normal coisas ináceitáveis, como a concessão de um status de refugiado político a um membro de uma organização notoriamente terrorista que é procurado em seu país de origem – uma democracia que vem conseguindo expressivos resultados em várias áreas.

    Discordo de OdeC em vários pontos, mas há evidência concretas de que essa revolução Gramsciana está em curso. E essas evidências não são baseadas em textos da internet. São baseadas em fatos. Não é a toa que vivemos numa sociedade na qual o relativismo moral viceja e numa quase ditadura do politivamente correto.

  3. Napalm, digo, Na Prática, v. está sendo ingênuo. É claro que Olavo é muitas vezes paranóico e erra o alvo. Mas eu vou dizer algo aqui para você, de um ex-militante petista (anti-olavista): um ou outro setor do PT tem admiração pelo PCC e até chega a defendê-lo. Outra, mesmo que não se prove, ainda assim é provável que o PT tenha recebido dinheiro das Farc em 2002. Ainda mais: Fernandinho Beira-Mar foi preso na Colômbia e tudo indica que ele trocasse armas por cocaína (“câmbio”, como o nome da revista “olavete”).

    Isso sem contar outras suspeitas muitíssimo estranhas que rondam o PT (catzo, Lula disse que Celso Daniel foi um mártir… e mais ou menos em 2002-2003 a Folha revelou esqueletos do que seria o esquema de tirar dinheiro da prefeitura de Santo André, via Gilberto Carvalho, para levá-lo para a sede do PT, na Sé, para José Dirceu… e quem, raios, Lula chama para ser seu assessor mais próximo? Gilberto Carvalho!)

    E por aí vai. Olavo pode até errar o alvo e até ter ficado doente no meio do processo… mas num país em que ele era a voz solitária estigmatizada… e em que, ele como filósofo, não tinha equipes de jornalistas a seu soldo… fez muito mais do que podia.

  4. Puxa, que beleza de caixa de comentários.

    Bem, que eu saiba, temos uma embaixada da Colômbia no Brasil, um país cujo governo está demonstravelmente tão enredado com o narconegócio quanto as FARC, e com os paramilitares também. Dar abrigo a perseguidos da guerrilha sob a égide dos direitos humanos é bem melhor do que acabar vendo as FARC construírem acampamentos na selva amazônica brasileira _ movimento que o próprio General Heleno, que tem medo de índio, confessou que é incontrolável.

    Agora, tem gente que acha que o mero funcionamento da democracia (isto é, a possibilidade da plataforma política vencedora nas eleições poder nomear seus suportadores para cargos políticos) é uma infiltração insuportável das instituições políticas pelos comunistas comedores de criancinha, ou seja, uma revolução gramsciana. Este mesmo tipo de gente parece não se importar muito quando governos com outros tipos de compromisso põem no Banco Central os famosos “profissionais da banca”. É muita hipocrisia, não é mesmo?

    Aliás, recomendo a leitura contrita deste post do Samurai:
    http://samurainoutono.wordpress.com/2008/07/29/inocencia/

  5. Legais os comentários. Vamos lá:

    1 – Igor, quando criaram o Foro, a imprensa divulgou amplamente o negócio, incluindo a discussão sobre a inclusão dos movimentos armados. Na época, se não me engano, excluiu-se o Sendero e mais um outro grupo que eu não lembro, e incluiram-se os que tinham a perspectiva de fazer a transição para movimento pacífico, como o M-19 e as FARC. Com o M-19, isso deu certo, e eles viraram um partido legítimo, mas quando as FARC ganharam controle sobre a cocaína a coisa tomou outro caminho. Mais ou menos no meio da década de 90 os movimentos que tinham que virar partido já tinham virado, e os que não viraram não iam virar mais, mesmo (acho que só sobraram as FARCs nessa situação, entre os que estavam no Foro, talvez aqueles caras do Chile). Daí em diante, a manutenção do vínculo da esquerda latino-americana democrática (alám do PT, fazem parte do Foro todos os partidos de esquerda moderados) com as FARC é realmente inaceitável. Você tem, portanto, razão. Mas isso não implica que haja uma grande conspiração em curso liderada pelo Foro (que, dentro do PT, sempre foi visto como uma piada).

    2 – João, esse negócio do OC com o Gramsci é uma tristeza, vou ver se escrevo sobre isso depois. E, apesar dele falar essa história toda de Gramsci, a narrativa dele sobre o Foro toda supõe um negócio muito mais centralizado, leninista, mesmo. Agora, isso eu te garanto: OC entende muito pouco de Marx e nada de Gramsci. Esse papo de “eu já fui marxista, eu sei” é pra enganar otário.

    3 – Adriano, eu sei que tem uma parte da esquerda que ainda se ilude com essa coisa de bandido-revolucionário, mas é pouca gente. E não me surpreenderia nada se a denúncia de dinheiro das FARC na campanha de deputados da ala radical do PT – e, especialmente, no PSOL – fosse verdade. Mas isso são fenômenos minoritários e marginais, que, repito, não chegam nem perto de embasar a história do OC sobre a revolução continental. E eu não estou dizendo que o OC seja uma mula ou que ele não diga nada certo, mas acho que essa “grande narrativa” dele pode acabar nublando problemas reais. Por exemplo, toda vez que eu tento alertar gente pra merda que o Chávez está fazendo, ouço, “ah, isso é aquela história do Foro de SP”. E mesmo se o Zé Dirceu tiver matado o Celso Daniel com as próprias mãos, isso não tem nada a ver com o assunto em pauta.

    Em suma: é um absurdo o PT ter qualquer tipo de relação com as FARC, mas não há nenhuma evidência de que essa relação seja a que afirma o OC. Mais: os e-mails recém-divulgados mostram uma tentativa de isolar as FARC, o que está em direta oposição à tese do OC.

  6. Hermenauta, quando estava respondendo os outros você comentou (aliás, os comentários aqui em geral são melhores que os posts, mesmo).

    Eu não acho que o PT deva ter relações com as FARC. O Medina argumenta que, se for extraditado, pode sofrer abusos, o que, cá entre nós, pode bem ser verdade. Mas, até aí, que se faça tudo nos conformes – a CF proíbe a extradição de presos políticos – sem envolver o partido, ou integrantes do governo não diretamente envolvidos na discussão da extradição.

    Quanto a esse negócio de ocupar cargos, realmente enche o saco. Toda vez que ouço que funcionários antigos e competentes foram retirados para colocar petistas no lugar lembro que esse é o argumento dos comunistas no Leste Europeu contra a turma que assumiu o poder depois deles. De fato, os comunistas eram mesmo mais competentes, porque estavam na máquina fazia mais tempo. De fato, o novo grupo que chegou ao poder era menos competente, pelo mesmo motivo. Mas, e aí? A solução é deixar sempre a mesma turma no poder até os caras aprenderem? Com a normalização da alternância, a situação tende a se normalizar.

    Outro problema é a existência de cargos demais para nomeação política. Mas isso quem fez não foi o PT, não, embora isso não justifique que ele não os tenha extinto. Nada disso é revolução gramsciana: é o bom e velho clientelismo.

  7. 7 Igor

    Pois é, NPTO. Sobre a cobertura da imprensa, discordo de seu “amplamente”. O assunto é até hoje pouco discutido, tendo em vista as credenciais dos participantes e o peso que muitos de seus membros na América Latina. Como eu disse antes, se membros do DEM se reunissem com a KKK, mesmo que usem a desculpa de tentar convertê-los, a coisa toda tomaria outra dimensão. A coisa toda está desequilibrada, o PT passou o limite do aceitável, mas vão continuar passando a mão na cabeça, os envolvidos e responsáveis (principalmente o presidente) serão, se houver necessidade, blindados e poupados.

    Agora, como você (e ao contrário do João Berg) acho essa história gramsciniana, no mínimo, uma tristesa. Confesso que já concordei com tal história, empolgado com os seis primeiros meses de leitura sobre o assunto, mas bastaram outrs seis meses para qualificar a tese como nada além de infinitamente improvável. Algumas pessoas podem pensar que estao conspirando, mas são pessoas que acham que o mundo realmente gira em torno delas. Acreditar no conspirador acadêmico é tão sem fundamento quanto sê-lo.

    A Academia, especialmente a de humanas, fecha as portas para direitistas, para as verbas mais polpudas das artes, para a edição de livros, para as redações dos jornais, etc. O espaço é artificialmente encolhido. Na minha opinião (na verdade, impressão), em parte é culpa da própria direita, em outra parte são cacoetes de “group thinks”, mas ninguém está fazendo isso por algo que Gramsci um dia escreveu. Isso só tem um remédio: tempo e amadurecimento, a geração passada tem de passar, já está envenenada de preconceito e escândalos. Stalin, sim, teve um papel na formação, financiamento e orientação de grupos culturais esquerdistas no mundo todo, inclusive no Brasil. Mas foi um papel direto e comprovado, e não abrangeu toda uma cultura (fora as dos países em que definitivamente tomava o poder).

    E sobre o OdeC, concordo contigo, mas isso não desculpa nada. Na verdade, não à título de conspiração, mas de prudência, isso tem que ser mais investigado.

  8. Igor, é isso aí.

  9. Pô, os caras fazem uns puta comentários e eu respondo “é isso aí”. Que beleza.

  10. 10 Igor

    Cara, por favor, corrija meu português urgentemente para fingir que pelo menos consigo escrever. “Tristesa” e “à” título estão me doendo os olhos. Mil desculpas aos que estão lendo os comentários.

    O conteúdo e a intenção continuam os mesmos.

  11. Naprática,

    Na verdade eu acho impossível o Brasil não ter algum tipo de relação com as FARC. I mean, a Amazônia é um território onde o país efetivamente não consegue exercer sua soberania (o que digo? Nem em certas favelas do Rio…).

    O problema é que o Foro foi criado em 1990, quando o PT não tinha perspectiva de chegar ao poder federal. Naquele tempo, obviamente tudo era festa. Mas depois disso a coisa mudou:

    http://www1.folha.uol.com.br/folha/mundo/ult94u407374.shtml

    É claro que almas mais atormentadas podem ficar se perguntando se isso é, assim, “de coração”, ou se se trata apenas do lobo comunista em pele de cordeiro. Eu continuo achando que o PT é um partido social democrata, reformista, cujo grande objetivo na vida é levar um hollerith a cada brasileiro no final do mês. Gramsci morreria de vergonha. 🙂

  12. Igor, eu não sei editar comentário, não, mas pode deixar que cometerei erros que distrairão os leitores. 🙂

    Hemenauta, embora me dê uma certa vergonha dizer isso de novo, é isso aí. Agora, uma coisa é você se relacionar com as FARCs mantendo os caras fora daqui, se oferecendo à diplomacia colombiana para mediar o conflito e, mesmo, porque não, tentando exortar os caras a largarem as armas em nome da esquerda democrática. Só que o PT ficou fazendo isso dez anos e, cá entre nós, ninguém acha que eles farão isso, a não ser que estejam muito por baixo. Aí eu acho melhor deixar eles lá.

    Agora, não acho que o Gramsci se envergonharia tanto, assim, não. É especulativo, mas acho que se o cara tivesse vivido para ver o relatório Kruschev teria rompido com o partido. Aliás, eu acho que se o Gramsci não tivesse indo em cana, o partido teria expulso ele.

    O PDS italiano ficou beeeeeeeeeeeeem moderado citando Gramsci até o fim. No fundo, o Gramsci é um cara cuja obra são rascunhos, mais ainda que o Marx. Ninguém deve ser gramsciano, menos ainda que marxista. O legal é ler.

    A propósito, muitos dos erros do OC lendo Gramsci vêm do fato de ele ter lido uns gramscianos brasileiros que, pelo amor de Deus.

  13. 13 Homero

    ¨O problema é que o Foro foi criado em 1990, quando o PT não tinha perspectiva de chegar ao poder federal.¨

    O hermenauta deveria ainda estar morando em seu planeta natal em 1989, quando o Collor derrotou o Lula no segundo turno da eleição presidencial por uma vantagem minúscula.

    Mas não tem problema, os gramiscianos estão completamente convencidos que os fatos são irrelevantes, o que vale é a opinião oficial do Partido.

  14. 14 Felipe Basto

    Achei isso aqui. é de um articulista num jornal conservador.
    > OLHA O QUE FIZERAM CONOSCO! Percival Puggina Periodicamente, o Datafolha realiza investigação sobre o pensamento político do brasileiro. A última pesquisa foi realizada há exatos dois anos. Para expressar sua posição no arco ideológico, o eleitor é posto diante de um gráfico com sete possibilidades, sendo que as posições 1,2 e 3 correspondem à esquerda, as posições 5, 6 e 7 à direita e a posição 4 ao centro. Resultado? Quarenta e sete por cento se colocam na direita, 23% no centro e 30% na esquerda. Surpreso, leitor? Pois saiba que a juventude não deixa por muito menos. O Datafolha acaba de divulgar pesquisa realizada nesse específico segmento, com o seguinte resultado: 37% à direita, 28% à esquerda e 23% no centro. Os dados ainda estão no site do instituto. Mas se é assim, por que a imensa maioria dos políticos gosta de se exibir com discurso de esquerda? “Ah! – responderão eles – é que a cabeça da sociedade, o senso comum das pessoas é progressista. Se você fizer perguntas objetivas, sobre temas concretos, verá que a maioria tem conceitos de esquerda”. Pois saiba, leitor, que isso é totalmente falso, como mostra a matéria daquele jornal paulista publicada em 13 de agosto de > 2006. Textualmente. “Apesar de menos da metade se definir como de direita, é esmagadora a maioria que adota posições geralmente associadas ao conservadorismo, como a condenação ao aborto, às drogas e a defesa de medidas mais duras de combate ao crime. A pesquisa mostra que são contra a descriminalização da maconha 79%. Do aborto, 63%. Outros 84% defendem a redução da maioridade penal de 18 para 16 anos e 51% querem a instituição da pena de morte”. Na pesquisa, recentíssima, feita entre jovens, sobre temas objetivos, fica ainda mais evidente a posição conservadora. No conjunto dos pesquisados, os valores mais apreciados estão radicados na família e na religião. E os objetivos majoritários estão postos no estudo, no trabalho e na aquisição de bens. A imensa maioria é contra a descriminalização das drogas. E acrescento eu: embora a pesquisa não indague sobre posições a respeito do direito de propriedade, invasões de terra, greve no setor público e por aí afora, tenho certeza de que as convicções dominantes estariam diametralmente opostas àquelas assumidas pela esquerda. Ora, com um eleitorado majoritariamente de direita e com perfil ainda mais acentuadamente conservador, como entender o tom monocórdio do atual discurso político? Aí é preciso ler Antônio Gramsci e compreender o modo através do qual se alcança a hegemonia fazendo as cabeças dos fazedores de cabeça. Isso vai evidenciar que estamos sob a ditadura do “politicamente correto”, imposta pela mídia, pela maior parte do clero católico, pelo ambiente universitário e pelo sistema de ensino em geral. É admirável a resistência e o discernimento revelados pela sociedade brasileira em suas convicções doutrinárias e ideológicas quando submetida a tamanha dominação cultural! Dias atrás, numa reunião com amigos, conversávamos sobre estes assuntos e eu indaguei: “Se nós, que somos leigos, fôssemos criar uma escola, admitiríamos no corpo docente professores ateus, comunistas, favoráveis ao aborto, materialistas, anticlericais ou inimigos declarados da Igreja?”. A resposta de todos foi a mais óbvia possível. “Não!”. Como admitir, então, que tradicionais ordens religiosas, fundadas para ensinar segundo os valores do cristianismo, implantem universidades e redes de escolas de vários níveis e graus onde vale tudo, inclusive ridicularizar a própria instituição e as crenças que alega esposar? Veja leitor, o que fizeram conosco! Nós, conservadores, que no mundo inteiro respondemos pelos valores que conduzem ao progresso e ao Bem, nos deixamos submeter e conduzir pelos tais “progressistas” de araque, sabotadores do templo e seus fazedores-de-cabeça. Em número cada vez maior lhes concedemos posições de comando nas instâncias do Poder Judiciário, na mídia e na política nacional.
    * Percival Puggina (63) é arquiteto, empresário, escritor, titular do site http://www.puggina.org , articulista de Zero Hora e de dezena de jornais e sites no país, autor de Crônicas contra o totalitarismo e de Cuba, a tragédia da utopia.

  15. Homero, aguardo ansiosamente que você nos brinde com uma exposição mais detalhada da visão epistemológica gramsciana.

    Quanto ao PT em 90, você tem razão em dizer que em 89 o Lula quase ganhou. Mas em 90 o clima era muito mais de frustração com a derrota, e a sensação era de que, não importa o que se fizesse, a direita ia sempre arrumar uma mulher do Lula, uma edição do Jornal Nacional, etc. para ganhar no final. A gente estava muito mais puto por ter perdido do que encorajado pelo segundo lugar absolutamente inesperado. O que, convenhamos, mostra o amadorismo da coisa toda.

    A compreensão de que era necessário se preparar para governar de verdade só começa de verdade com o impeachment, e é interrompida pelo Plano Real, momento em que o PT dá uma retrocedida que só se reverte perto da eleição de 2002.

    E o que não havia em 90, de maneira nenhuma, era a expectativa de uma revolução continental. Governos pró-EUA ganharam no continente todo, e o clima era de derrota absoluta.

    Felipe, legal esse artigo. Eu também acho que a população brasileira ainda é majoritariamente conservadora, embora não seja uma maioria grande. O que eu não acho que ela seja é liberal. Talvez devesse ser mais.

  16. 16 Felipe Basto

    Também acho que deveria. Mas como ser mais liberal, sem mudar valores conservadores? Mudar é natural e não esultado de uma conspiração organica. O grande problema talvez não seja ter maioria conservadora. O problema é a maioria ser ambigua. Liberal para si e conservadora para os outros. Acho que estamos ficando hipócritas.
    Se o PT tivesse começado a se preparar realmente para governar depois do Collor, ele teria participado do Governo Itamar. Ou não?

  17. 17 Fabio

    Eu fui mais pioneiro que o ODC. Eu tava olhando o governo Lula com uma certa complacência pela ausência de grandes insucessos mas o caso Bolívia me deixou puto. Faz tempo que eu digo que o problema é o Chaves e esse povo fica minimizando as coisas achando ou que o Chaves é um bobão ou latindo contra o tal foro de SP. Já o sabiam os romanos: Si vis pacem para bellum.


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