Livraço: “Chefe de Quadrilha por um Dia”, de Sudhir Venkatesh

04ago08

                       

Leitores mais antigos do NPTO com espaço demais em suas memórias devem lembrar do Venkatesh, que escreveu um dos melhores livros de sociologia que eu já li. Ele ficou famoso por conseguir o livro-caixa de uma gangue de traficantes americana, e publicar artigos com o cara do Freakonomics sobre isso. Esse livro é uma espécie de complemento do American Project, e poderia ter o título “as merdas que eu fiz até meu trabalho virar aquele estudo fechadinho e bonitinho que vocês leram”.

Como dissemos na outra resenha, o Venkatesh passou muitos anos vivendo diariamente com os membros da gangue Black Kings de Chicago, e ficou amigo do líder da gangue, JT. Nesse novo livro ele conta em mais detalhes como essa amizade se construiu, como foi o processo de ganhar acesso aos moradores, e os problemas que ocorreram ao longo da coisa toda. Ele também conta várias coisas que, se tivessem vindo à tona enquanto ele fazia seu doutorado, provavelmente teria causado a interrupção da pesquisa por alguma comissão de ética científica. Daí a polêmica causada pelo livro novo.

O título meio sensacionalista vem de um episódio real: em um dado momento da pesquisa, Venkatesh tem a idéia idiota de dizer para JT que até que seu trabalho não era tão difícil. JT então lança o desafio: então faz, por um dia só. Amanhã. No dia seguinte, Venkatesh, com o compromisso de não ter que matar ou bater em ninguém, passa o dia com JT resolvendo os problemas cotidianos da gangue (cá entre nós, só nessa o comitê de ética já ia ter uma crise de choro). Como consequência de uma decisão sua (mas a despeito de sua recomendação), um sujeito é espancado (sem maior violência, mas, ainda assim, toma umas bordoadas). Na verdade, essa não é, nem de longe, a melhor parte do livro.

Em outro momento, Venkatesh dá um chute na barriga de um cara que está sendo levado para um “julgamento” por ter arrebentado a cara de uma menina. Eu também daria, mas é fácil imaginar o cara do comitê de ética se jogando pela janela nessa hora.

Os dois grandes lances geniais do livro são:

1 – a progressiva perda de qualquer ilusão que Venkatesh pudesse ter a respeito de ser visto como um cientista “neutro”. Vencida a hostilidade inicial dos membros da gangue, ele passa a ser visto como alguém que está do lado dos Black Kings, e os resultados de sua pesquisa são mesmo utilizados por JT para melhorar a extorsão dos trambiqueiros locais. Quando se aproxima de outros líderes comunitários, os Kings começam a desconfiar deles. Quando parece que a coisa está melhorando, a polícia quer saber quem é aquele mexicano filhodaputa que fica espionando os esquemas de extorsão dos policiais. A propósito, Venkatesh, que é de origem indiana, é chamado o tempo todo de índio, mexicano, ou árabe. Quando consegue organizar uma oficina literária com meninas do local, acham que ele as está comendo. Naturalmente, qualquer um desses que invocasse de verdade com ele poderia tê-lo matado. E eu reclamo de fazer análise estatística.

2 – A história da senhora que é a matriarca do projeto habitacional. A dona administra tudo, desde esconder filhos das moradoras presas para que não sejam levados para orfanatos, até o suborno de funcionários da prefeitura para consertar portas quebradas, e leva dinheiro em cada uma dessas transações. De vez em quando cobra dívidas das meninas exigindo sexo com seus namorados (um policial também exige que a namorada de um gangster faça sexo oral nele). Mesmo JT tem um certo receio de mexer com a velha.

E as histórias humanas também são desesperadoras: o tesoureiro da gangue deixa você revoltado por ser um moleque evidentemente inteligente, que, em outro contexto, teria sido um financista bem-sucedido, ou um acadêmico. O próprio líder da gangue fez uma faculdadezinha merreca, e, evidentemente, é um talento desperdiçado, assim como a assistente da matriarca.

Enfim, todo mundo que quer saber das dificuldades de se fazer pesquisa deve ler, assim como todo mundo que goste de uma boa história.

A propósito: não fico chocado com os problemas éticos da pesquisa do Venkatesh, não. Se a gente quiser pesquisar crime, ou guerra, haverá situações difíceis. Visto que nenhum dos atos de violência presenciados teria sido evitado se Venkatesh não estivesse lá, eu acho que está valendo. Mas é difícil saber, mesmo.

UPDATE: uma resenha bem bacana, indicada pelo Jonas aí nos comentários (que continuam melhores que os posts).

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3 Responses to “Livraço: “Chefe de Quadrilha por um Dia”, de Sudhir Venkatesh”

  1. 1 Jonas

    Espero lê-lo em breve, pois parece mesmo ótimo. Se tu quiseres conferir outra resenha, dá uma lida em http://chrisblattman.blogspot.com/search?q=gang+chicago

  2. Jonas, muito legal essa resenha, vou subir. E pode ler, a gente aqui garante!

  3. 3 Felipe Basto

    A comissão de ética acaba decidindo para onde vai a verba. Se vc encontrar outro para bancar tua vida marginal nem sempre les vão chiar tanto e podem até entender que sempre existe um certo risco em pesquisas de campo.


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