Caiu a Pobreza

06ago08

No que se refere ao progresso da situação social brasileira, vale lembrar a história do irlandês que pergunta pra um cara na estrada qual o caminho pra Dublin, e ele responde: “Não parta daqui”. Partimos de uma situação horrenda, e vai demorar para a coisa ficar bacana. Mas não se pode negar quando há progresso.

A nova pesquisa do Ipea mostra que a percentagem da população pobre caiu bastante(e o nível de renda, em geral subiu): só em São Paulo um milhão de pessoas saiu da pobreza. Diz a matéria do UOL:

“Um levantamento do Ipea (Instituto de Pesquisas Econômicas Avançadas) revela que o número de pessoas pobres -com renda igual ou inferior a meio salário mínimo- caiu de 35% para 24,1% no período de 2003 a 2008. Ao analisar a outra ponta da população, o levantamento mostra que o número de indivíduos pertencentes a famílias com renda mensal igual ou superior a 40 salários mínimos (R$ 16,6 mil) cresceu de 0,8% para 1%.”

O Pochman, entretanto, reclama que os ganhos de produtividade não estão sendo repassados para os salários. Diz ele:

“Para ilustrar como os ganhos na produtividade não chegam aos salários, a pesquisa usa dados da indústria brasileira, segundo os quais os ganhos chegaram a 22,6% entre 2001 e 2008. Neste mesmo período, a folha de pagamento por trabalhador cresceu 10,5%. ”

Eu acho que isso é mudar de assunto. Torço para que os sindicatos consigam repassar o máximo possível de ganhos de produtividade para o salário, mas a divisão da renda entre o que vai para o trabalho e o que vai para o capital não equivale à distribuição de renda entre indivíduos. A grana que não vai para os salários pode ir para reinvestimentos ou impostos (e, aliás, o que vira imposto pode ser redistribuído). Daí que isso aqui é um non sequitur:

“Ao não repassar esses ganhos, os produtores terminam formando um segmento mais privilegiado da população” (Pochmann)

Respeito o Pochmann, e acho que a matéria pode não ter expresso bem o que ele disse (tem um parágrafo que é ilegível), mas isso aí em cima não é verdade, não.



5 Responses to “Caiu a Pobreza”

  1. 1 Igor

    Eu só lembro da ridícula teoria dele de que só deveríamos começar a trabalhar depois dos 25 anos, da jornada de quatro horas diárias, três dias por semana.

    Amorim, Pochmann, MAD MAG… esse pessoal está ficando totalmente sem noção. Quando não mandarem em mais nada, vão entrar para aquelas coletâneas de anedotas políticas.

  2. 2 Arthur

    NPTO,
    Meus comentários:
    1. Sobre a linha de pobreza. A adoção de uma linha de pobreza baseada no salário mnimo acaba por esconder uma queda ainda maior na pobreza nos últimos anos no Brasil. Isso porque o poder de compra de meio salário mínimo é maior que a 5 anos devido aos ganhos reais do salário mínimo. Assim, uma pessoa pode ser considerada pobre hoje em dia com uma renda real que não a tornaria pobre a 5 anos atrás.
    2. Sobre o não repasse completo dos ganhos de produtividade para os salários. Isso tem sim um efeito distributivo perverso. Muda, a favor do capital, a distribuição da renda entre trabalho e capital. Ou seja, favorece os donos do capital.
    O que temos que perguntar é qual o efeito disso sobre a renda. Se os maiores lucros resultantes do não repasse dos ganhos de produtividade resultam em maiores investimentos e, consequentemente, maior renda, pode ser o caso que tal repasse seja socialmente aceitável, pois se diminui a parcela da renda total dos trabalhadores, aumenta a renda real desses (através do crescimento da renda total).
    Mas esse é um tema bastante controverso. Tal resultado (maior investimento e maior crescimento) dependerá do regime de acumulação da economia. Se ele for “liderado por lucros” (ou seja, se o aumento da participação dos salários ou dos lucros induz a maior crescimento econômico) isso ocorrerá. Mas se a economia for “liderada por salários” o contrário ocorrerá. Não há consenso empírico sobre qual o regime de acumulação de países em desenvolvimento. De fato, não conheço nenhum trabalho sobre esse tema para o Brasil.

  3. Arthur, arrebentou, vou subir seu comentário. Só uma coisa: a divisão da renda entre capital e trabalho tem efeitos distributivos, mas eles podem variar muito, como você mesmo disse. Por isso acho que o Pochmann não deveria dizer essas coisas como “certo, caiu o Gini, mas a divisão entre capital e trabalho…”, uma vez que são duas questões diferentes, e a segunda é muito mais complexa.

  4. NPTO,

    Hoje tive uma comprovação de campo da nova classe média. Passei a manhã nos subúrbios do Rio, acompanhando a equipe de um instituto de pesquisa que está fazendo o pré-teste de um survey bastante grande para a ONG da qual sou funcionário. Era impressionante como se repetia a situação da família em que um dos membros já passou o limiar dos R$1 mil por mês e começou a investir o dinheiro extra: reforma da casa, eletrodomésticos, às vezes a criação de um pequeno negócio informal, como barraca de comida.

    Existe algo de importante acontecendo, sem dúvida. Ainda que persistam problemas muito sérios, não diretamente vinculados à renda. Por exemplo, tivemos que sair às pressas de uma favela que visitamos, por causa de confrontos entre facções rivais de traficantes.

    Abraços

  5. Maurício, acho que você teve um retrato da situação recente: o problema de renda melhorou, mas o Brasil tem um problema que piorou imensamente, a violência urbana.

    Boa sorte na pesquisa, mantenha-nos informado!


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