Sermão do Capeta

14ago08

                   

Em tempos de Daniel Dantas, não resisto a postar essa excepcional crônica, enviada pelo sobremaneira sapientíssimo, colendo, insigne e sacerdotal Michel; ela foi escrita em uma época de livre-comércio e grande especulação financeira.

“Nem sempre respondo por papéis velhos; mas aqui está um que parece autêntico; e, se o não é, vale pelo texto, que é substancial. É um pedaço do evangelho do Diabo, justamente um sermão da montanha, à maneira de S. Mateus. Não se apavorem as almas católicas. Já Santo Agostinho dizia que “a igreja do Diabo imita a igreja de Deus[1]. Daí a semelhança entre os dois evangelhos. Lá vai o do Diabo.

            “1.º E vendo o Diabo a grande multidão de povo, subiu a um monte por nome Corcovado, e, depois de se ter sentado, vieram a ele os seus discípulos.

            “2.º E ele, abrindo a boca, ensinou dizendo as palavras seguintes.

            “3.º Bem-aventurados aqueles que embaçam, porque eles não serão embaçados.

            “4.º Bem-aventurados os afoitos, porque eles possuirão a terra.

            “5.º Bem-aventurados os limpos das algibeiras, porque eles andarão mais leves.

            “6.º Bem-aventurados os que nascem finos, porque eles morrerão grossos.

            “7.º Bem-aventurados sois, quando vos injuriarem e disserem todo o mal, por meu respeito.

            “8.º Folgai e exultai, porque o vosso galardão é copioso na terra.

            “9.º Vós sois o sal do money market. E se o sal perder a força, com que outra coisa se há de salgar?

            “10.º Vós sois a luz do mundo. Não se põe uma vela acesa debaixo de um chapéu, pois assim se perdem o chapéu e a vela.

            “11.º Não julgueis que vim destruir as obras imperfeitas, mas refazer as desfeitas.

            “12.º Não acrediteis em sociedades arrebentadas. Em verdade vos digo que todas se consertam, e se não for com remendo da mesma cor, será com remendo de outra cor.

            “13.º Ouvistes que foi dito aos homens: Amai-vos uns aos outros. Pois eu digo-vos: Comei-vos uns aos outros; melhor é comer que ser comido; o lombo alheio é muito mais nutritivo que o próprio.

            “14.º Também foi dito aos homens: Não matareis a vosso irmão, nem a vosso inimigo, para que não sejais castigados. Eu digo-vos que não é preciso matar a vosso irmão para ganhardes o reino da terra, basta arrancar-lhe a última camisa.

            “15.ºAssim, se estiveres fazendo as tuas contas, e te lembrar que teu irmão anda meio desconfiado de ti, interrompe as contas, sai de casa, vai ao encontro do teu irmão na rua, restitui-lhe a confiança e tira-lhe o que ele ainda levar consigo.

            “16.º Igualmente ouvistes que foi dito aos homens: Não jurareis falso, mas cumpri ao Senhor os teus[2] juramentos.

            “17.º Eu, porém, vos digo que não jureis nunca a verdade, porque a verdade nua e crua, além de indecentes, é dura de roer; mas jurai sempre e a propósito de tudo, porque os homens foram feitos para crer antes nos que juram falso, do que nos que não juram nada. Se disserdes que o sol acabou, todos acenderão velas.

            “18.º Guardai-vos; não façais as vossas obras diante de pessoas que possam ir contá-lo à polícia.

            “19.º Quando, pois, quiserdes tapar um buraco, entendei-vos com algum sujeito hábil, que faça treze de cinco e cinco.

            “20.º Não queirais guardar para vós tesouros na terra, onde a ferrugem e a traça os consomem, e donde os ladrões os tiram e levam.

            “21.º Mas remeteis os vossos tesouros para algum banco de Londres, onde a ferrugem, nem a traça os consomem, nem os ladrões os roubam, e onde ireis vê-los no dia do juízo.

            “22.º Não vos fieis uns nos outros. Em verdade vos digo, que cada um de vós é capaz de comer o seu vizinho, e boa cara não quer dizer um bom negócio.

            “23.º Vendei gato por lebre, e concessões ordinárias por excelentes, a fim de que a terra se não despovoe de lebres, nem as más concessões pereçam nas vossas mãos.

            “24.º Não queirais julgar para que não sejais julgados; não examineis os papéis do próximo para que ele não examine os vossos, e não resulte irem os dois para a cadeia, quando é melhor não ir nenhum.

            “25º. Não tenhais medo às assembléias de acionistas, e afagai-as de preferência às simples comissões, porque as comissões amam a vanglória e as assembléias as boas palavras.

            “26.º As porcentagens são as primeiras flores do capital; cortai-as logo, para que as outras flores brotem mais viçosas e lindas.

            “27.º Não deis conta das contas passadas, porque passadas são as contas contadas, e perpétuas as contas que se não contam.

            “28.º Deixai falar os acionistas pronósticos; uma vez aliviados, assinam de boa vontade.

            “29.º Podeis excepcionalmente amar a um homem que vos arranjou um bom negócio; mas não até o ponto de o não deixar com as cartas na mão, se jogardes juntos.

            “30.º Todo aquele que ouve estas minhas palavras, e as observa, será comparado ao homem sábio, que edificou sobre a rocha e resistiu aos ventos; ao contrário do homem sem consideração, que edificou sobre a areia, e fica a ver navios…”

            Aqui acaba o manuscrito que me foi trazido pelo próprio Diabo, ou alguém por ele; mas eu creio que era o próprio. Alto, magro, barbícula ao queixo, falava alemão, como Mefistófeles. Fiz-lhe uma cruz com os dedos e ele sumiu-se. Apesar de tudo, não respondo pelo papel, nem pelas doutrinas, nem pelos erros de cópia.

            Já agora parece que estou em dia de fantasmas. Mal pingava o ponto final do outro parágrafo, quando me apareceu um senhor, que me disse ser defunto e haver-se chamado Barão Louis.

            – Conheço muito, disse-lhe eu: tenho ouvido a sua célebre máxima: “Dai-me boa política e eu vos darei boas finanças”[3].

            – Ah! meu caro senhor, acudiu o barão; essa máxima tem-me tirado o sono da eternidade. Já não a posso ouvir, sem tédio. Quer ajudar-me a publicar uma troca de palavras que fiz, mudando o sentido, a ver se pegam na segunda forma e deixa-me em descanso a primeira?

            – Senhor barão…

            – Escute-me. Em vez de “Dai-me boa política e eu vos darei boas finanças”, arranjei esta outra forma: “Dai-me boas finanças e eu vos darei boa política.” Promete-me?

            – Pois não!

            – Não esqueça: “Dai-me boas finanças e eu vos darei boa política.”

 

Lançamos agora o concurso: adivinhe quem escreveu isso e ganhe um parabéns de Amiano Marcelino.



3 Responses to “Sermão do Capeta”

  1. 1 Marcelo

    é do bruxo. Machado!

  2. 2 Marcelo

    É do bruxo! Machado!!!!!


  1. 1 Anti-Spam doidão « Na Prática a Teoria é Outra

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