Sarah Palin – Discurso na Convenção Republicana

04set08

Acabei de assistir na CNN. A dona tem carisma de preseça, centraliza bem o foco quando sobe no palco, e não, não é porque está inteiraça.

Mas fala com pouca variação de voz, pouquíssima variação de expressão, e deixa transparecer o nervosismo de quem até outro dia era responsável só por proteger os EUA de uma invasão esquimó. O redator do discurso, que, aparentemente, é um cara que escrevia para o Bush, facilitou a vida dela fazendo frases rápidas, soundbites, que não exigem a capacidade de envolver o ouvinte, como em uma conversa: Obama sabe fazer isso, Bill Clinton sabe fazer isso. Também foi um discurso sem correr riscos, com quase nenhuma improvisação. Não se tentou mostrar que ela entende de política externa, nem, o que seria igualmente plausível, que ela é capaz de domar unicórnios com o poder da mente.

O que realmente foi muito mal coreografado foi a cena com o bebezinho bonitinho com síndrome de Down. O esforço de ser enquadrada pelas câmaras foi grotesco, a cena em que ela recebe o bebê da filha e fica horas segurando ele imóvel, não transmitiu naturalidade nenhuma; e não posso ter sido só eu que fiquei preocupado com um bebê tão pequenininho sendo passado de mão em mão.

Aliás: durante todo o discurso, a Cindy McCain era filmada fazendo expressões emocionadas que eu não sei se eram sinceras ou se eram cola para a Palin: “‘o, agora faz assim, contrai assim, chora assim”. Palin não conseguiu colar direito, e sua expressão durante todo o discurso foi praticamente fixa. Não sei porque McCain não traz sua mulher para o centro do palco.

Evidentemente, trata-se de uma jogadora de time do interior disputando final de copa do mundo. Claro, tem muito jogador de terceira divisão que brilha quando tem sua chance no Maraca, mas hoje, pelo menos, Sarah Palin só brilhou porque a platéia era toda a favor. Pode ter futuro, é difícil dizer, porque no momento suas propostas não receberam polimento nenhum (uma falha, sem dúvida, do partido),  mas claramente não se preparou o suficiente para esse campeonato.

A propósito: se os republicanos querem filmar a convenção e transmiti-la ao vivo, não podem ter somente delegados com mais de 130 anos. Em especial se você quiser se contrapor a um candidato jovem que mobilizou o voto jovem como há muito tempo não se via.

Enfim, uma convenção feita para a base. É a última aposta da estratégia Karl Rove: como o voto não é obrigatório, e mais ou menos metade dos eleitores votam; se a população está mais ou menos dividida meio a meio entre os dois partidos; se você energizar a base mais do que seu oponente, você pode ganhar só com o voto dos seus. 

Problema: e se o outro cara energizar a base dele, também? E se o cara conseguir energizar a base dele sendo centrista – isto é, com maior potencial de atrair os indecisos? Dessa vez eu acho que o Rovismo se enterra. Mas talvez Sarah Palin sobreviva.



3 Responses to “Sarah Palin – Discurso na Convenção Republicana”

  1. 1 Igor T.

    Também vi a convenção. A noite foi boa para os republicanos, ninguém pode negar, mas não achei que Palin foi isso tudo. Seguiu um bom script (como todos os grandes players), algumas boas tiradas, comunica-se razoavelmente bem, mas não tem aquele brilho. Também tive a impressão que a torcida do flamengo republicana deu um grande empurrão à convenção, animou a festa, salve simpatia. Segurou os 40 minutos de discurso. Para vice, está OK. A escolha parece eleitoralmente boa, pois a base, que não tão empolgada com McCain, reconcilia-se com o partido. Outro ponto para os republicanos foi ter escolhido uma mulher para vice; os democratas, mestres do politicamente correto, terão que ser mais cuidadosos. Além disso, ela ofusca a falante pretendente à primeira-dama democrata. Fato. Mas Palin tem ainda o telhado de vidro por ter sido membro do Alaskan Independence Party – fica mais difícil de acusar Obama de ser “pouco americano”, mesmo sendo candidatos de níveis diferentes. A campanha está só começando, e ainda testará a todos nos próximos dois meses.

    Palin fala de impostos sem tê-los baixado em seu próprio Estado; Bush só fez desbalancear as contas públicas, republicanos falam de liberdade e surgem com o patriotic act e intervenções constantes. Mas os Democratas não são muito diferentes, tampouco seus planos pra política externa chegam a ser opostos. Cético, fico com a máxima de P.J. O’ Rourke: The Democrats are the party that says government will make you smarter, taller, richer, and remove the crabgrass on your lawn. The Republicans are the party that says government doesn’t work and then they get elected and prove it.

  2. Concordo com sua avaliação, embora ache a Michelle Obama muito melhor que a Palin. Agora, tem uma coisa que, aparentemente, só eu acho: eu achei que a Sarah Palin fala mal. E eu achei o discurso do McCain melhor que o dela, bem melhor. Mas o comentário geral parece ser que ela ofuscou o cara. Enfim, estou na minoria, nessa.

    E, na verdade, a diferença entre os dois partidos, como na maioria dos sistemas eleitorais estáveis, é real, mas não muito grande, o que tem suas vantagens: se fosse muito grande, seria impossível o cara planejar a vida, porque, dependendo de quem ganhasse a eleição, mudariam todas as regras.

    Eu fiquei meio desanimado com a Palin porque achei ela um retrocesso com relação a essa campanha. McCain vs. Obama é a melhor disputa que eu já vi, visto que o Bob Dole decepcionou contra o Clinton. O que é bom, porque a eleição passada foi a pior que eu já vi contando as eleições para prefeito do Rio de Janeiro. A Palin tem cara de Karl Rove, emenda contra casamento gay votada no dia da eleição presidencial para atrair voto conservador, essas coisas.

  3. 3 Igor T.

    Pois é, se fosse uma chapa McCain – Guiliani, o partido ficaria mais próximo do senso comum cosmopolita americano, mas se afastaria da base. Realmente, preferiram a estratégia de Rove. Talvez seja mais difícil para a campanha e de conseguir mais votantes indecisos, mas podem finalmente concentrar forças, focar nas urnas, e parar as brigas internas (uma distração mortal, os Democratas, pela Hillary, também sabem disso). O contrapeso não é de se ignorar.

    Quando um cara do DEM bate no PT, não é para ganhar votos heloíso-helênicos e convencer os esquerdistas, mas para mostrar firmeza aos seus própios eleitores, que é diferente mesmo. A tática não é ruim, Kerry, na época, deveria saber disso.


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