Sarah Appalling

07set08

Todos os leitores habituais sabem que, por gostar de política pra cacete, eu adoro eleição americana. Tem pesquisa pra todo gosto, debates, blogs excelentes trocando ataques e informações, é uma diversão pra quem gosta disso. Pois bem. Quando vi a Sarah Palin como vice-presidente do McCain, me senti como se tivesse pago ingresso pra olimpíada e chegasse lá assistisse aquele cara que foi nadar cachorrinho em Atlanta. Para os americanos e para o mundo é grave por milhões de motivos, mas confesso, meio com vergonha, que para mim doeu por tirarem meu lazer. Eu não vou ficar acompanhando uma dona que não vai dar entrevista porque tem medo das perguntas.

Quero meu dinheiro de volta.

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11 Responses to “Sarah Appalling”

  1. 1 Homero

    Mas você não está disposto a aguentar por 8 anos um presidente da república aqui no Brasil que nunca deu uma entrevista coletiva porque se borra de medo das perguntas dos jornalistas?

    Porque o que vale no Brasil não pode valer nos EUA?

  2. Oi Homero, seja bem-vindo. Bom, demorou, mas o Lula já deu entrevista coletiva, sim. E a Palin não está se recusando só a dar entrevista coletiva, está fugindo de jornalistas como se eles fosse satanistas democratas pró-aborto do Foro de Sã o Paulo.

    E o mais importante: antes de ser presidente, Lula deu um milhão de entrevista como candidato, de maneira que os brasileiros sabiam em quem estavam votando (tanto quanto se pode saber essas coisas). O truque de Palin é não deixar que ninguém saiba.

    A analogia com a política brasileira é o Marronzinho em 89, que aparecia na televisão gesticulando sem som até que uma voz grave ameaçava: Marronzinho vai falar! Um dia Marronzinho vai falar!

  3. 3 Homero

    Caro NPTO,

    O que a Sarah Palin deseja é concretizar o sonho de todo político e aquilo que o Lula conseguiu: chegar e se manter no poder sem ser questionado a fundo, mas apenas participar de atos de Relações Públicas travestidas de entrevistas. As chamadas Photo-Ops.

    A ¨entrevista coletiva” que o Franklin Martins organizou para que o Governo Lula não terminassem sem que o presidente tivesse concedido uma única entrevista coletiva tinha as seguintes condições:

    1. Cada jornalista só poderia fazer uma pergunta.
    2. O presidente poderia escolher responder ou não às perguntas.
    3. Nenhum jornalista poderia insistir na pergunta. Feita a pergunta, o jornalista teria que se calar e voltar para o seu lugar.

    Não sei se você já ouviu falar do repórter da BBC, Tim Sebastian, que apresentava o programas de entrevistas, Hard Talk. Aqui vai um exemplo do que realmente pode ser chamado de uma entrevista de um político, e não essa massagem de ego que a Palin está querendo e que o Lula teve em todos os anos de sua presidência:

    Abraços.

  4. 4 Igor T.

    Caro, estou com o Homero nesta.

    Não sei o que dizer dessa eleição, talvez seja a mais esquisita de todas.

  5. Igor, Homero, entendo o que vocês estão querendo dizer, mas a diferença é gritante: quando Lula foi eleito, ele já tinha sido escrutinado pela imprensa em quatro eleições, três das quais ele perdeu justamente porque, depois de dúzias de entrevistas, o eleitorado o achou radical demais. O que queremos saber é justamente se Sarah Palin é radical demais (do outro lado).

    Imaginem se Lula tivesse se recusado a dar entrevistas em 89 e, mesmo assim, tivesse ganho. Mesmo Lula hoje admite que teria sido um desastre, com o PT como era na época, com ele como era na época. É exatamente esse o risco que correm os americanos.

    Quando Lula foi eleito em 2002, teve que assinar um documento – a Carta ao Povo Brasileiro – se comprometendo a não ser louco. Palin assinaria isso? Aliás, alguém sabe o que esta débil mental acha do Irã, de Darfur, da estatização de Fannie Mae e Freddie Mac, da estratégia de saída do Iraque, ou do que quer que seja?

    Imaginem se fosse o inverso: Obama coloca Louis Farrakhan para ser seu vice. Ele se recusa a dar entrevistas. O que todo mundo diria disso (isso para não falar no que diriam se a filha de Obama estivesse grávida)?

  6. 6 Igor T.

    Olha, como brasileiro, até prefiro que Lula não apareça muito. Dá vergonha, e não só vergonha alheia. Até entendo que se tenha criado blindagem atrás de blindagem – funciona. É uma pena, mas funciona.

    Sobre a comparação, bem, não se espera que ela seja especialista em todos os assuntos – ninguém esperaria o mesmo de Lula. No meu entender, há dois pontos básicos: se o candidato compartilha de certos valores, e se ele tem bom discernimento para fazer as escolhas certas. Foi isso, em minha opinião, que Lula bandeirou com a Carta – “olha, eu sou esquerdista bonzinho, mas não sou mais aquele maluco, eu sei fazer escolhas mais óbvias para não detonar o que felizmente não me deixaram estragar”.

    Palin não tem uma Carta falando de suas boas intenções, mas tem um tempo de serviço no Executivo, no Alaska que seja. Mas tem. Lula nem isso, era candidato profissional. Entonces, a mulher mostra o que tem que mostrar na prática. E você sabe, ali a teoria é outra.

    De resto, as eleições (as americanas) servem para isso.´A hora é agora. É ótimo que joguem lama um no outro, todo mundo se beneficia com uma eleição disputada. Ainda haverá o debate dos vices, etc.

  7. Igor, experiência executiva no Alasca é menos que prefeitura de Votuporanga, e o Lula era, indiscutivelmente, muito mais envolvido nos debates importantes brasileiros do que o prefeito de Votuporanga. O Lula era candidato profissional tanto quanto qualquer líder oposicionista pelo mundo afora, do Mitterand ao Cameron na Inglaterra de hoje.

    Parêntese: o Lula estava certíssimo de nunca ter ocupado cargo executivo antes da presidência: poucos se lembram do cerco que a mídia fazia ao PT antes de 2002, e se Lula tivesse sido eleito prefeito de São Paulo e descobrisse a cura da AIDS, não há dúvida de que a manchete da Veja teria sido “Lula causa extinção de espécie delicada e complexa de vírus”. Fim de parêntese.

    A melhor comparação é com a Hillary: ela nunca exerceu qualquer cargo executivo, mas não há sombra de dúvida de que os piolhos das bactérias de seu pé-de-atleta têm mais conhecimento sobre os problemas americanos do que a simiesca vice do McCain.

    O Lula, o Bush, o Obama, o McCain, são políticos de primeira divisão, goste-se ou não deles. Essa coitada é reserva no desafio ao Galo.

  8. 8 Igor T.

    Acho que seus paralelos saem um pouco do foco da questão. Hillary sempre será mil vezes melhor que Lula. Sem comparação. Se quiserem trocar, eu juro que aceito na hora (e olha que não vou com a Hillary). Sobre Mitterand e Cameron, convenhamos, dificilmente a França ou a Inglaterra aceitariam no posto mais alto de seus respectivos governos um candidato com o perfil, digamos, exótico do Lula. As realidades são outras. Acredito que a essência da comparação é outra…

    O que comparo é a Sarah Palin de agora com o Lula antes de se eleger presidente, cuja capacidade nunca havia sido testada. Você disse que pouco sabemos sobre o conhecimento da governadora a respeito das questões mais importantes. Mas eleição, repito, tem dois pontos básicos: se o candidato compartilha de certos valores, e se ele tem bom discernimento para fazer as escolhas certas e relativamente coerentes com sua biografia política.

    Nós sabemos os valores dela por suas ações de sempre, não sabemos se terá discernimento, pois a única coisa grande que ela administrou foi o número de jogadores de hóquei no time do colégio do filho dela. OK. Mas nós só ficamos sabendo dos novos valores de Lula por uma, err, carta, e sua capacidade de dizer sim ou não para a coisa certa (trabalho executivo ou de um senador) só foi testada na hora que ele botou a faixa de presidente. Nesse quadro, acho que fica a pergunta do Homero: vale no Brasil não pode valer nos EUA?

    P.S.: Votuporanga é linda.

  9. Igor, eu não estava comparando o Lula com a Hillary ou o Cameron: e, se o fizesse, o compararia favoravelmente com os dois. No final do século XX, todos os movimentos trabalhistas do mundo colapsaram, menos o dele e o do Walesa, ambos transformaram profundamente seus países, e Lula conseguiu fazer o que se espera do grande político: não apenas surfar nas ondas da atual distribuição de poder – como fazem HIllary, Cameron, e todo mundo – mas mudar radicalmente a distribuição das forças. Há um Brasil pré e outro pós Lula, que não começa quando ele ganha a eleição, mas quando ele coloca fogo no ABC. E esse país é, na minha opinião, infinitamente superior ao que o precedeu.

    Meu ponto é que quando eu resolvi votar no Lula em 2002 e você resolveu não votar, nós sabíamos o que estávamos fazendo. Quem votar em Palin não sabe. Hoje ela defendeu a maior estatização do mundo dizendo que foi boa porque as FMs, que, como ela obviamente ignora, eram empresas privadas, custavam muito ao contribuinte. Isso é o Lula de 1989, que o Brasil sabiamente não elegeu (contra o meu conselho idiota). Pode ser que daqui a quatro eleições Palin saiba o que está fazendo. No momento, não sabe.

    E mais: quando Lula estava tentando ser candidato a presidente, sempre implorou por atenção da imprensa. Antes de Lula chegar ao segundo turno em 1989, foi virtualmente ignorado pela grande imprensa. Durante os anos 90, foi escrutinado pela mídia em todos os sentidos possíveis, e QUERIA ISSO, como todos os políticos profissionais sempre querem – ao contrário do que diz o Homero, eles querem exposição, e sabem virar a maré se o foco for negativo. Palin é uma amadora. Pode ser boa mãe, boa esposa, boa miss simpatia, E UM DIA PODE VIR A SER BOA POLÍTICA, mas, no momento, não sabe o básico da profissão que exerce.

    Vale, inclusive, dizer o seguinte: Palin entende muito menos do riscado do que Bush II entendia quando foi eleito. Realmente não há precedente para isso, nem no Brasil.

    E, Homero, quanto ao Hard Talk: nunca vi o presidente dos EUA aceitar fazer nada disso (pode ter havido uma coisa mais ou menos assim com o Clinton, não me lembro; o Bush certamente não fez nada do tipo), as entrevistas coletivas de presidente são bem domesticadas. Entrevista porrada é mais comum no parlamentarismo, em que o primeiro-ministro pode ficar com cara de idiota e mesmo cair sem ameaçar a estabilidade política.

  10. 10 Igor T.

    Quando você fala da importância que o Lula teve para o Brasil, eu só vejo relevância histórica e maiúscula depois que ele ganhou as eleições – a não ser que você ache que a presidência o Foro de São Paulo seja o que o OdeC afirme. Fala-se da imprensa, mas ninguém da esquerda, fora os Paralamas do Sucesso, parava para dizer “conforme Luiz Inácio Lula da Silva falou…”. Quando não havia eleição, ninguém consultava o Lula para saber sua cosmovisão política, o contrário do Walesa, que o mundo realmente parou para ouvir quando sindicalista.

    Posso estar falando besteira, provavelmente estou, mas a importância política de Lula se deu mais dentro das disputas ideológicas do PT, e ele surfou, sim, nas “ondas da distribuição de poder” internas. Ganhou relevo pela máquina partidária, muito maior do que ele à época. Não consigo dizer que o movimento era “o dele”, como o Solidariedade era do Walesa. O Brasil pós-Lula é quando ele inverte o jogo, deixa de ser uma figura de proa e abarca definitivamente o partido… o Congresso, e a imprensa.

    Sua biografia tem, sem dúvida, apelo romântico. Mas blindado do jeito que é, não dá para ter dimensão real de suas ações. Se a imprensa o perseguia antigamente – o que é até racional para um político inviável como o Lula em 89 – ela já o compensou por duas vidas.

    De qualquer forma, entendo melhor o seu ponto de vista, a comparação com Palin não se aplica do jeito que pensei. Mas continuo achando que “a capacidade de Lula dizer sim ou não para a coisa certa (trabalho executivo ou de um senador) só foi testada na hora que ele botou a faixa de presidente.” Acho que suas impressões são mais fortes pois você o acompanhou de dentro. De fora, a perspectiva era diferente, Lula não existia além do marketing quadrienal. Serra era definitivamente uma escolha mais segura, embora eu tenha votado no explosivo Ciro Gomes, político testado nacionalmente. Aliás, fora o Dornelles (unicamente para impedir a vitória da Jandira), nunca consegui eleger ninguém, e o mesmo provavelmente ocorrerá agora, com o Gabeira.

    P.S.: também continuo trocando o Lula pela Hillary na hora – certamente outro voto perdido por aqui.

  11. Igor, bela resposta. Pois é, vai ver minha perspectiva é enviesada (é com z ou com s?), e numa coisa você tem razão, o Lula surfou bem mesmo dentro do partido. Mas ainda acho que ele foi importante por saber ser focal point das coisas certas. Na verdade, ainda não entendemos bem o período histórico do final do século XX, mas ainda sustento que os dois caras que ficarão quando a coisa baixar serão o Walesa e o Lula.

    E prepare-se para perder (mos) mais essa. Agora, vai por mim, você ainda vai viver para ter candidato sério em quem votar. Sempre que eu falo na necessidade de constituição de uma nova direita estou pensando em vocês aí, essa turma libertária, blog ao invés do cabresto – nisso, como em outras coisas, o CM ainda será reconhecido como uma figura de transição. Ainda perderei eleição para vocês. E é assim que a coisa anda. E se você visse a cara da direita para quem eu já perdi eleição, entenderia minha preocupação com o futuro, porque eu sei que ninguém deve ganhar todas.


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