Veja contra Paulo Freire

14set08

Vi isto no site do Idelber: carta da viúva do Paulo Freire à Veja, em resposta às críticas da revista ao Freire Nem achei a resposta da senhora Freire muito boa, mas o que eu sabia que ia me divertir era a crítica da Veja. Réporter da Veja falando de filosofia da educação é um negócio que não se pode perder. E não me decepcionei:

“Muitos professores brasileiros se encantam com personagens que em classe mereceriam um tratamento mais crítico, como o guerrilheiro argentino Che Guevara, que na pesquisa aparece com 86% de citações positivas, 14% de neutras e zero, nenhum ponto negativo. Ou idolatram personagens arcanos sem contribuição efetiva à civilização ocidental, como o educador Paulo Freire, autor de um método de doutrinação esquerdista disfarçado de alfabetização.”

Antes de mais nada, vale registrar: Veja está contra muita gente boa ao dizer que Freire não tem contribuição à civilização ocidental (que, supomos, deve a Diogo Mainardi e Reinaldo Azevedo sua sobrevivência). Pelo que pude perceber em Oxford, é um pensador bastante influente, ainda que, várias décadas depois da publicação de suas obras, já se tenha progredido muito na crítica de seu trabalho (o que também é verdade sobre o Weber). Mas, como não sou filósofo da educação, não vou me meter nisso.

O que é evidentemente falso é que o método Freire seja só uma forma de doutrinação esquerdista disfarçada. O método, pelo que me lembro de minhas aulas de licenciatura, tem como idéia básica partir do mundo da criança e chegar ao conteúdo que se quer transmitir por discussões em que a criança possa participar usando suas referências. Assim, ao invés de ensinar os moleques do pavãozinho a ler fazendo-os escrever repetidamente “Ivo viu a uva”, você conversa com eles sobre a vida e vai discutindo o uso que eles fazem das palavras, como elas podem se articular de maneira que faça mais sentido, até chegar nas regras da sintaxe. Minha explicação está meio avacalhada, mas, acreditem, é bem melhor do que a da Veja.

Gente que eu conheçou que trabalhou com isso diz que para alfabetização isso é ótimo, mas que o tempo que levaria para ensinar alguém ciências assim seria completamente impraticável. Por isso, acontece com o método Freire o que acontece com toda teoria científica interessante: ele foi dissecado, sua contribuição foi apropriada por outros autores, abandonou-se o que não funciona, e assim foi.

O que acontece é que muitos professores fazem propaganda aberta de esquerda tentando se legitimar com o nome do Freire, que, de fato, era militante de esquerda (não ficaria surpreso se me dissessem que ele já encorajou isso, embora não tenha conhecimento de nada nesse sentido). Esses caras jamais seriam capazes de aplicar o método, o que, aliás, é minha crítica pessoal baseada no pouco que li:duvido que os professores sejam capazes dos exercícios sofisticadíssimos de raciocínio que seriam necessários para aplicar o método. Eu não sou.

O ponto é: o método tem hipóteses testáveis, pressupostos explícitos, etc., e se qualifica facilmente como teoria científica, o que a dona da Veja certamente teria sido capaz de entender se tivesse lido um livro, não digo nem do Freire, mas qualquer um. O método pode ser ruim, mas não é, de maneira nenhuma, propaganda disfarçada, por mais que muitas vezes seja usado como disfarce para propaganda.

E fica aqui minha última crítica ao método Freire. Se você tivesse que explicar o método Freire a uma turma de repórteres da Veja, teria saco de usar o método Freire e se expor a seu, er, universo cultural?

Modéstia à parte, QED.



2 Responses to “Veja contra Paulo Freire”

  1. 1 Artur

    Hehe… muito bom o post. O método freire aplicado a Veja?! Bem, com essa, vc delimitou o alcance do método. Ou vc popperianamente refutou-o? Na verdade, vc foi sacana (hehe)…

  2. Fiz um post sobre a carta da Nita Freire e sobre como a equipe de reportagem da Veja (mas eu estenderia essa crítica para a maioria dos jornalistas da grande imprensa hoje) simplesmente não fizeram nenhuma pesquisa decente sobre quem é Paulo Freire, ou o alcance do seu método.

    Aliás, o Paulo Ghiraldelli Jr, em um de seus blogs (ele tem um monte deles…), contou uma história interessante: ele foi procurado por uma repórter da revista Veja para uma entrevista sobre a situação do ensino no Brasil. No entanto, como o Paulo Ghiraldelli começou a debater com a repórter, insistindo que não havia nenhuma conspiração comunista para dominar o sistema brasileiro de ensino – a entrevista acabou não acontecendo, uma vez que o Paulo se recusou a endossar os argumentos da revista.

    Essa é a prática da Veja: entrevistar pessoas apenas para referendar o que ela pensa ser certo. Os entrevistados ganham notoriedade, a revista ganha uma opinião “especializada” de graça, e a entrevista segue essa lógica do “você me diz o que eu quero ouvir e eu publico o que você quer falar”.

    Para conferir a conversa de Paulo Ghiraldelli Jr. com o repórter da supracitada revista, ver http://ghiraldelli.multiply.com/journal/item/149


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