Gabeira e Lula

01out08

              

O sempre alerta Fábio Reis alega nos comentários abaixo que há uma separação insuperável entre os campos “Lacerdistas” e de esquerda no Rio de Janeiro, com Gabeira no primeiro campo e Lula no segundo. Vários comentaristas no Pedro Doria estão dizendo o mesmo. Vale resposta.

O NPTO apóia o governo Lula, apóia o PT sempre que pode, e apóia Gabeira para prefeito do Rio. Não sei em quem vota o Pedro Dória para presidente, mas suspeito que não seja muito diferente disso. Conheço outros colegas de longa data que têm posição semelhante. Essa posição se justifica pelos seguintes pontos:

1) Depois da recomendação de voto em Garotinho em 1998, a direção nacional do PT, que obviamente acha mais importante a eleição em Guarulhos do que no Rio, desistiu de construir o partido no Estado, e preferiu continuar utilizando-o como moeda de troca para os aliados. Isso, é claro, sem jamais questionar que uma aliança com Covas em São Paulo, por exemplo, estaria muito mais de acordo com a história do partido. A candidatura Molon, praticamente a única que não é apoiada pelo governo federal no Rio, é um heróico esforço de resistência, mas desde que Molon perdeu o apoio de Cabral, já sabíamos que não ia ter estrutura para disputar. Alianças estratégicas nacionais são obviamente importantes, mas se partirmos do princípio de que o principal adversário é, por definição, o adversário do PT em São Paulo, a conversa não começa. Não há, portanto, uma candidatura óbvia para os petistas cariocas, visto que a direção nacional abandonou o PT do Rio às moscas.

2) Os cariocas têm o direito de ser bem governados, e essa deve ser a primeira preocupação do PT do Rio.  Gabeira inspira confiança de que enfrentará o monopólio dos transportes (como Marta fez em São Paulo), terá coragem para cobrar desempenho dos funcionários públicos (algo em que o PT ainda precisa avançar), e dará a prioridade ao meio-ambiente que o Rio tem obrigação de dar, em retribuição ao Criador. Não há nada disso que seja ofensivo aos princípios de esquerda, muito pelo contrário.

3) Gabeira é um nome que sempre contou com a admiração dos petistas cariocas, uma figura histórica da esquerda brasileira, e representa muitas das mudanças que o PT precisa fazer em si mesmo: por exemplo, na crítica ao totalitarismo cubano. O que o PT do Rio deveria ter sido era a aliança dos movimentos sociais com a esquerda ambiental intelectualizada, e é isso que deve voltar a tentar ser, ao invés de ser o último reduto de tendências radicais que não têm porra nenhuma a dizer sobre porra nenhuma.

4) Gabeira fez oposição ao governo Lula na crise de 2005. É difícil discutir que esse foi o ponto mais baixo da história do PT, e, se formos brigar com todo mundo que era contra a gente na época, ficaremos menores que o PSTU. Não dá para negar que Gabeira tem um pouco de narcisismo de ex-petista, por exemplo, quando diz “o bilhete único, implantado em Curitiba…”, como se não fosse Marta Suplicy a autora do que Elio Gaspari já chamou de maior revolução urbanística do Brasil nos últimos tempos. Mas quando diz que o governo Lula foi “bom na política econômica, bom na política social, ruim na relação política com o congresso”, que petista discorda? Não há como negar que a frente com PSDB e PPS vai pressionar o Gabeira para fazer oposição ao Lula. Mas esse é um risco que estamos prontos a correr, por motivos explicados no próximo ponto.

5) No Pós-Lula, a esquerda brasileira vai ter uma janela para se reestruturar profundamente, e consolidar as duas grandes lições dos últimos anos: é possível uma administração social-democrata no Brasil, e é necessária a aliança de todos que concordem com esse programa para evitar a necessidade de compor maiorias parlamentares fisiológicas (e, inclusive, no futuro, forçar a criação de uma direita decente). A turma que está compondo o bloquinho já percebeu isso, os mineiros já perceberam isso, o Ciro já percebeu isso. Gabeira constrói esse consenso melhor do que Jandira.

Se Jandira for para o segundo turno, eu votarei nela. Se Molon fosse, eu votaria nele com entusiasmo. Mas tendo a opção, prefiro Gabeira, porque acho que o risco de curto prazo (um prefeito de oposição a um governo que eu apóio) são menores que os riscos de longo prazo (comprometer a renovação programática da esquerda brasileira).

E, como dito ontem, para vereador voto na legenda do PT.

PS: quando é que alguém vai ter a idéia de reformar o PCdoB?



11 Responses to “Gabeira e Lula”

  1. 1 Arthur

    NPTO, eu devia estar estudando, mas como a vontade de dar pitacos em tudo é muito grande segue o meu. A esquerda carioca não vai fazer voto útil no Gabeira porque não identifica alguém coligado com o PSDB e o PPS de Denise Frossard como de esquerda. Talvez vote na Jandira, vai saber… Não creio, mas pode ocorrer. De qualquer forma, apesar de eleição ser imprevisível, não acho que nem Gabeira nem Jandira são capazes de vencerem o Eduardo Paes num eventual segundo turno.
    PS: Acharei positivo se o Molon continuar subindo (um pouco que seja) nessa última semana de campanha e terminar com uns 8-10% dos votos válidos e em quinto lugar. Ele me parece ser uma boa liderança e seria bom se essa eleição lhe desse um pouco de força. Até porque em 2010 vagarão dois assentos no Senado.

  2. Arthur, eu também tenho um certo medo do segundo turno. E se o Gabeira não tivesse chance, ia fazer “voto inútil” no Molon só para ele subir mais um pouco.

    Quanto ao voto útil da esquerda, eu acho que já aconteceu: essa troca de votos com a Jandira foi gente que não prefere nenhum dos dois, mas vai fechar com quem tiver mais chance. O pecado da Jandira foi ter empacado no terceiro lugar tempo demais.

  3. 3 Felipe Basto

    Se o Bispo ficar de fora, eu já estou feliz. DrNPTO, vc ainda vota em Copa? Eu, sim. Se eu for, te ligo.

  4. 4 fabio

    1. O PT nacional atribui muita importância ao Rio. Tanto que, escancaradamente, tenta intervir nas decisões do partido no estado.

    2. Os cariocas tem o direito de serem bem governados. Por isso o PT deveria ter ido de Jandira.

    3. Justamente para evitar que pessoas que ganharam prestígio defendendo idéias libertárias como a descriminalização do aborto e da maconha, e que hoje ora se desviam do tema e ora criticam abertamente as autoridades que não se desviam, abusem desse prestígio que não lhes corresponde mais e assumam o discurso da esquerda no Rio.

    4. Porque, nesse caso, a posição do Gabeira em relação ao governo federal seria o de menos: PV, PSDB e PPS estariam na prefeitura, e com eles suas práticas e suas políticas.

    5. Assim, teríamos uma “esquerda” nova, reestruturada, capaz de compreender que o aborto e a criminalização das drogas e suas implicações na segurança e na saúde pública não têm importância para o prefeito moderno. Capaz de compreender que o verdadeiro problema do Rio é o totalitarismo cubano e seus malditos comunistas comedores de criançinhas.

    Se o Gabeira fosse para o segundo turno, eu votaria em qualquer outro candidato. O Rio toma as suas próprias decisões e é o único responsável por elas, mas lamentaria muito se fosse essa, tanto pelo Rio mesmo quanto como pela responsabilidade que ele tem de assumir no país.

  5. Fábio, essa aqui doeu:

    “O PT nacional atribui muita importância ao Rio. Tanto que, escancaradamente, tenta intervir nas decisões do partido no estado”

    Com o que, suponho, você está argumentando que a direção nacional (não o PT nacional, a direção nacional) acabou com o partido no Rio forçando-o a apoiar Garotinho porque estava preocupado que os cariocas escolhessem um cara ruim. Que bonito.

    É justamente porque a direção considera a eleição para vereador de Campinas mais importante do que a eleição para prefeito do Rio que aceita trocar a chapa com os mais duvidosos aliados no Rio, mas não em São Paulo. Lembre-se, a Jandira está na conversa porque teve o mérito de subir na pesquisa, mas a DN provavelmente aceitaria apoiar o Crivella. Você imagina isso acontecendo em São Paulo? Ora, o PP é da base. A direção do PT apoiaria Maluf em alguma situação? Não, porque é muito mais responsável com relação ao eleitorado paulista do que com o carioca.

    Quanto ao Gabeira parar de falar de drogas e aborto: a Marta, vale dizer, que tem provavelmente as mesmas posições do Gabeira nessas questões, não tem ido para a TV falar disso. No que estão ambos certos, porque, como prefeitos, não poderiam fazer nada a esse respeito.

    A crise do PT no Rio tem duas faces: uma é Benedita vice de Garotinho, a pior decisão que o PT tomou em seus quse 30 anos de existência. A outra é Chico Alencar no PSOL, o desperdício de boas lideranças por preguiça de estudar nos últimos vinte anos. Se os moderados forem oportunistas e os ideólogos forem ignorantes, estamos fudidos.

    O Molon, que era um candidato muito mais carismático que a Jandira, vai herdar esse troço. Boa sorte pra ele.

  6. 6 fabio

    “É justamente porque a direção considera a eleição para vereador de Campinas mais importante do que a eleição para prefeito do Rio que aceita trocar a chapa com os mais duvidosos aliados no Rio, mas não em São Paulo.”
    NaPrática, em Campinas o PT apóia o Dr. Hélio, do PDT. É triste constatar que o Rio tem que aprender com Campinas.

    Não, a Marta não centraliza a campanha nesses temas, mas defende esses tremas abertamente e publicamente. Por exemplo:
    “Cobrada por evangélicos, Marta reafirma apoio a LGBTs
    17/9/2008
    Durante um encontro nesta semana com representantes de 540 igrejas evangélicas, a candidata petista à Prefeitura de São Paulo, Marta Suplicy, foi cobrada pelo grupo para que lutasse com eles contra o projeto de lei 122, que criminaliza a homofobia e atualmente tramita no Congresso. Mesmo encostada na parede, Marta manteve sua postura de tolerância às diferenças e disse que não poderia atender a esse pedido.
    Segundo o jornal carioca O Globo, a candidata declarou que “se for pra xingar homossexual, dizer que é doente, desacatar, sou contra. Com toda a minha formação de psicanalista e na área de sexualidade, não posso ser a favor”. Marta disse ainda que não será ela quem votará o projeto, “mas a minha opinião pessoal vocês têm de ter: não sou a favor disso, gente, não sou!”.
    http://mixbrasil.uol.com.br/mp/upload/noticia/11_101_68961.shtml
    O que é bem diferente de:
    ”Droga legal-já” é inútil, diz Gabeira
    Candidato do PV a prefeito recua da defesa da descriminação da maconha na quarta sabatina do Grupo Estado”
    http://www.estadao.com.br/estadaodehoje/20080827/not_imp231436,0.php
    e também de:
    “Gabeira muda de tom sobre a maconha
    ‘Neste momento, eu não seria a favor da legalização’, disse
    O Globo, 27 de agosto de 2008, página 10
    Uma das marcas da vida política do candidato Fernando Gabeira (PV), a legalização da maconha não é mais a sua bandeira. Ontem, ao ser sabatinado na Associação Brasileira de Imprensa (ABI) Gabeira disse que, atualmente, não defenderia a legalização.
    — O foco agora não é legalização. Neste momento, eu não seria a favor da legalização. Foi uma discussão um pouco inútil, perdi energia — disse Gabeira na sabatina, organizada pelo jornal “Estado de São Paulo”. — A colocação do debate entre legalizar ou não coloca os dois lados numa posição insatisfatória.”
    http://www.growroom.net/blog/2008/gabeira-muda-de-tom-sobre-a-maconha/

    Um abração, NaPrática.

  7. Fábio, que eu saiba o Gabeira continua sendo a favor da união civil homossexual, e a Marta não se manifestou a favor da liberação da maconha. A primeira questão é muito menos controversa do que a segunda. E, nas duas, não há nada que o prefeito possa fazer.

    Agora, a idéia de que o Gabeira assumiu um discurso reacionário na questão da violência é mentira, basta ver as críticas à política do Cabral na sabatina do Estadão.

    É impressão minha ou você acaba de citar o Dr. Hélio como exemplo a ser seguido? É assim agora? Para São Paulo, a Marta, progressista, cheia de secretários e assessores acadêmicos bacanas da USP, moderna. Para o resto, Dr. Hélio, que ainda é maizomenozinho (afinal, Campinas é só 500 Km distante de Sampa) e, de Queluz pra lá, Crivella?

    E a propósito: Marta indo para o segundo turno em desvantagem na pesquisa dois a dois contra o PFLuf, e você acha mesmo que vale a pena centrar fogo em petista que conversa com o PSDB? Essa é a hora de lembrar do apoio da Marta ao Covas, na mesma eleição em que Kassab apoiava Maluf. É hora de eleger o Gabeira no Rio e perguntar à classe média paulistana: vocês querem eleger o Kassab enquanto no Rio elegeram o Gabeira?

    E, já que estamos no assunto: quando Campinas vai ter um prefeito à altura da UNICAMP?

  8. Quando o PT vai deixar de sabotar o PC do B?

  9. 9 fabio

    NaPrática, as duas questões são controversas, e as duas servem para a difamação.
    É compreensível não querer colocar esses temas no centro da campanha. Só o que eu disse é quem quem defende essas posições deve arcar usufruir do bônus com arcar com ônus da posição. Tentar usufruir do bônus depois de ter abandonado a posição é canalhice.

    Por exemplo, a Marta assume claramente uma posição:
    “No campo institucional o assunto também provoca polvorosa. Sob iniciativa de duas estrelas do PT, chegam ao Brasil políticas liberalizantes adotadas em países como a Inglaterra e o Canadá de retirar o uso da maconha da esfera das liberdades individuais e tratá-lo como questão de saúde e segurança pública. A prefeitura de São Paulo – comandada por Marta Suplicy, que já admitiu ter fumado maconha na juventude – fincou posição sobre o tema há três meses. O governo municipal é oficialmente a favor da descriminalização do uso recreativo da droga – e também é a favor do uso medicinal. “Não há dano maior ao usuário eventual de droga do que ser colocado em uma cela brasileira”, argumenta o sanitarista Fábio Mesquita, coordenador do programa de DST/Aids da Secretaria Municipal da Saúde. Na prática, a iniciativa não resulta em efeitos imediatos – mas, de olho no eleitorado jovem, normalmente identificado com a legenda, a prefeitura de Marta quer colocar o assunto em pauta. ”
    http://epoca.globo.com/edic/20011119/especial1a.htm

    É reconhecida por essa posição:
    “Para o professor titular de Ciência Política da USP Lúcio Kowarick, 63, a separação do casal Suplicy não terá consequências políticas. “Acredito que nenhum dos dois ganha nem perde. Lamento apenas do ponto-de-vista pessoal. Conheço os dois há anos e juntos eles construíram muitas coisas”, diz.
    Kowarick não acha que Marta-divorciada teria menos chances de chegar à Presidência -ela já disse que pretende se candidatar. “O Brasil é um país machista, mas já avançou ao ponto de um divórcio não ser um empecilho para o futuro político de Marta. Muito da sua imagem foi baseada inclusive na contramão.”
    Valeriano Ferreira Costa, 40, cientista político da Unicamp, concorda que a pecha de divorciada não deve ser problema. “Marta sempre foi vinculada a temas polêmicos: aborto, maconha, casamento entre homossexuais. Tinha um programa de sexo na televisão. Ser divorciada é fichinha perto de tudo isso”, diz.”
    http://www1.folha.uol.com.br/folha/equilibrio/comportamento/ult561u11.shtml

    “E assume o ônus de sua posição:”
    Maluf parte para ataque pessoal a Marta
    Paulo Maluf (PPB) partiu no domingo (08) para a estratégia do tudo ou nada para tentar chegar à Prefeitura de São Paulo. Fazendo ataques pessoais e tentando desmoralizar a adversária Marta Suplicy (PT), o pepebista afirmou que ela “nunca teve ética” porque declarou ter fumado maconha na década de 70.
    […]
    Para o pepebista, as atitudes de Tuma e de Marta são incompatíveis. “Por exemplo, o senador combateu as drogas. Já a dona Marta, em entrevista aos jornais, disse que fuma maconha. Tuma sempre foi muito duro com os bandidos, e o PT sempre foi parcimonioso”, afirmou o candidato.
    http://www1.folha.uol.com.br/folha/brasil/ult96u8642.shtml

    O Gabeira, pelo que eu ouvi dele, não apenas apenas acha a descriminalização secundária, como equivocada, e condena publicamente as figuras públicas que se manifestam pela descriminalização.
    Qualquer um tem o direito de mudar de opinião, mas a nova opinião do Gabeira não é a minha e contradiz as opiniões dele que um dia me fizeram admirá-lo.

    Qualquer discurso sobre segurança, e sobre liberdade, que não passar por essa questão, é, na minha opinião, equivocado. Todos os prefeitos, como todas as pessoas com influência na sociedade, deveriam “militar” pelo liberdade, o que o Gabeira deixou de fazer faz tempo.

    Mas o principal, acima de tudo, é que qualquer que seja a importância dessa questão, ela é muito mais importante, muito mais imediata, muito mais relevante, do que uma posição diante do socialismo cubano.

  10. 10 fabio

    NaPrática, vou esperar o uísque abaixar, senão eu não consigo escrever.

    Abração

  11. Fábio, sua citação sobre o ônus não prova o que você disse. Procure nos arquivos de jornais e você vai ver o Crivella nessa eleição criticando o Gabeira em termos semelhantes. A questão é que ambos, Gabeira e Marta, sempre enfatizam que nada disso pode ser resolvido pelo prefeito

    E: o totalitarismo cubano é mais importante do que tudo isso.

    PS: pô, rapaz, desrespeitando a lei seca?🙂


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