Lula e a Crise

01out08

Diz o Alon:

Eu tenho, por exemplo, a curiosidade de saber quem foi o gênio que, certo dia, soprou a dica nos ouvidos da oposição brasileira: “Vamos dizer que o Lula só está indo bem porque é um cara de sorte, porque, diferentemente do Fernando Henrique, não teve que enfrentar nenhuma crise internacional”. Consultem os arquivos da imprensa para constatar a profusão de vezes em que tucanos e democratas disseram isso.

Bem, o mundo vive a mais aguda crise financeira desde 1929 e há uma chance de o Brasil, assim como outros emergentes, sofrer relativamente menos do que seria habitual. Se isso acontecer, o presidente da República poderá utilizar doravante como bumerangue contra a oposição todo o trabalho de propaganda feito por ela própria. “Enfrentei a crise mundial mais grave dos últimos oitenta anos, e mesmo assim fiz mais do que vocês jamais fizeram.” Alguém duvida de que Lula tem esse discurso engatilhado? No lugar dele, você agiria diferentemente?”

Eu vou mais além: durante esses anos todos, foi dito que o Brasil era um mané porque não aproveitou tudo o que podia do boom da economia internacional; o que se deveria ao excessivo rigor do BACEN na política de juros.

Imaginem, por exemplo, que mais gente tivesse montado fábrica em 2006 para exportar. Em que situação estariam esses caras agora? Vejam, é possível que ainda assim tivesse valido a pena, pela grana ganha nesse meio tempo; mas ainda espero que alguém me mostre essa conta.

O que eu suspeito é que, se o Brasil aguentar bem a crise, vão dizer que a política era do Meirelles. Se der merda, vai ser do Lula. Mais ou menos o inverso do que ocorreu com o câmbio supervalorizado do FHC, que passou a ser do Gustavo Franco quando estourou.



5 Responses to “Lula e a Crise”

  1. 1 Arthur

    NPTO, não discuto o argumento central do texto, i.e., que nosso desempenho econômico recente é fruto da sorte que acompanha o Lula, mas queria expressar algumas ressalvas a política econômica.

    É óbvio que a crise financeira acontece em um momento em que nossa situação econômica é muito mais saudável do que era durante as crises dos anos 1990, porque temos reservas cambiais a rodo e um resultado comercial ainda razoável.

    Mas quem acompanha as contas externas vê claramente que o resultado externo brasileiro piorou rapidamente durante esse ano (com importações subindo a galope e remessas de lucros e dividendos altíssimas, resultando em uma conta corrente bastante negativa).

    Uma conta corrente negativa tem implicações bastantes fortes para a economia. A longo prazo não há reservas capazes de manterem a estabilidade cambial se a conta corrente é negativa (como ela já é hoje). E diante do crescimento da demanda interna, a perspectiva de recessão mundial e, consequentemente, queda do preço (e também da quantidade exportada) das commodities significa que a conta corrente brasileira caminha para piorar muito se o mundo em recessão.

    Nesse contexto, as soluções (não excludentes) para promover o equilíbrio externo são: i) a desvalorização cambial (mas essa tem como custo o aumento da inflação interna); ii) o aumento dos juros para reduzir a demanda interna e consequentemente as importações (mas essa tem como custo estimular a valorização ainda maior do câmbio); iii) endividamento externo (que obviamente tem um limite).

    Onde entram as ações do Governo Lula nessa história toda? Desde que o Lula assumiu em 2003 o câmbio se valorizou mais de 50% em termos nominais (e ainda mais em termos reais). Se a desvalorização tivesse sido menor possivelmente as contas externas estariam melhores, com a conta corrente positiva, reservas ainda maiores, superávits comerciais batendo US$ 50 bi e maiores exportações de bens de alto conteúdo tecnológico (cuja volatilidade do preço é menor que das commodities e cujos diversos produtores nacionais tinham sido induzidos a entrar no mercado externo pelas sucessivas desvalorizações do período 1999-2002 o que á favorável numa crise).

    Aí sim, nesse caso, eu seria capaz de dizer que o Brasil estaria muito bem equipado (como poucos países no mundo) para superar os efeitos da crise financeira sem reduzir muito seu crescimento econômico, mesmo que essa fosse + longa. Aliás, aí sim eu diria que o Brasil estaria no rumo da superação definitiva dos estrangulamentos externos que interromperam o crescimento brasileiro tantas vezes nas últimas seis décadas.

    Mas para segurar o câmbio num nível mais alto (digamos, R$2,50/US$1,00) o governo brasileiro teria de ter feito algumas opções de política econômica (todas elas com custos econômicos e políticos) que não fez. Para segurar a pressão pela valorização cambial o governo teria que ter: i) cortado gastos públicos; ii) mantido um diferencial de juros externo e interno um pouco menor; iii) imposto controles de capital mais severos (e antes) dos impostos no início do ano. A primeira medida tem um custo econômico em termos da expansão da demanda agregada e um custo politico (na medida que significa aumentos menos frequentes de salários e/ou menor ritmo de contratações). A segunda medida significaria política monetária mais folgada, especialmente em alguns momentos, o que teria um custo de um pouco mais de inflação. A terceira medida não parece ter muitos efeitos econômicos, mas teria efeitos políticos ruins tanto junto a banca internacional quanto junto aos grupos mais conservadores quanto a política econômica.

    Na minha opinião, entretanto, câmbio mais desvalorizado (apesar dos custos de sua obtenção) não significaria nem mais inflação nem menos crescimento no momento atual (nem mesmo menos crescimento no agregado do governo Lula).

    De qualquer forma, acho que a economia brasileira está relativamente preparada para enfrentar uma recessão e aperto de liquidez mundial curto sem se endividar demais e sem diminuir demais seu crescimento.

    Minha preocupação é com uma crise mais longa e uma recessão mundial mais severa (mas aí nesse caso ninguém estará imune…) ou com uma recessão não muito forte, mas que deprecie fortemente os preços das commodities com resultados fortes para as receitas exportadoras atuais e futuras (ex: pré-sal). Nesse caso, a manutenção do crescimento acelerado da demanda interna sob câmbio valorizado levaria a uma deterioração rápida das contas externas e poderia nos conduzir a uma crise cambial na ausência de um ajuste recessivo ou inflacionário.

    Att

    PS: Fiz toda a análise pensando no equilíbrio externo exclusivamente. Mas não posso deixar de dizer que o câmbio valorizado pode levar a desindustrialização e perda de dinamismo da economia.
    PSTU: um fator importante a ser notado é que o câmbio valorizado aumenta o salário real (porque diminui o preço dos bens importados ou que tem preço fixado no mercado internacional). A sensação de riqueza dos brasileiros seria menor se o câmbio tivesse a R$ 2,50. Uma solução para isso seria distribuir renda via impostos, i.e., fazer uma reforma tributária que preste.

  2. 2 Arthur

    Mudando o primeito parágrafo:

    NPTO, não discuto o argumento central do texto, i.e., que nosso desempenho econômico recente NÃO é fruto da sorte que acompanha o Lula, mas queria expressar algumas ressalvas a política econômica.

    Att

    Arthur

  3. A questão não é de sorte ou de falta de sorte. A questão é de fortalecimento de identidade. Bom que, em parte, o Brasil esteja fortalecendo-se como nação, estabelecendo as regras e não se submetendo a elas. As pressões econômicas não vêm só de fora, mas de uma postura cultural. Enquanto não introjetarmos o nosso real valor, continuaremos fragilizados às variações externas.

  4. Palocci rules!

  5. Meirelles rules!


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