Diário de campanha NPTO: Rocinha

15out08

O marcado era chegar às 18:30 no Largo dos Boiadeiros, mais ou menos perto do asfalto. Miraculosamente, acertei o ônibus, mas, previsivelmente, errei o ponto, de maneira que fui parar na putaqueopariu e tive que andar um pedação de São Conrado de volta. Resultado: cheguei quase meia hora atrasado.

Um sujeito muito gente boa que encontrei na rua me ajudou a achar o Largo. Fazia muito tempo que não ia à Rocinha, desde a campanha de 92 para prefeito. Está bem maior, tem Bradesco logo na entrada, e um comércio bastante dinâmico. Todas as ruas ali pelo pé do morro são asfaltadas.

Chegando no Largo dos Boiadeiros, não encontrei ninguém da campanha. Perguntei pra todo mundo por ali se a campanha do Gabeira tinha passado por lá, mas ninguém tinha visto nada. Deduzi que os caras já tinham subido o morro, e comecei a subir também, embora não me lembrasse mais de caminho nenhum, mais ou menos decidido a voltar se não encontrasse ninguém duas ou três “quadras” acima. 

A Rocinha é uma favela bem singular. A proximidade da Barra, com bons equipamentos públicos e possibilidades de emprego, fazem com que vários indicadores sociais ali sejam bem melhores do que, por exemplo, na Maré. Andando pelas ruas ali no início (nunca fui lá no cimão, mesmo), pelo menos, a impressão que se tem é a de um bairrão popular, cheio de pequenos negócios, e com muita, muita gente. O clima ali onde eu fui é muito bom, muitos botecos, o pessoal animado.Tem uma cara bem de bairro, mesmo.

Quer dizer, a não ser pelo cidadão com um fuzil e um colete cheio de munição que encontrei poucas ruas adentro. O cara me olhou de cima à baixo e resolveu não me dar a menor importância: eu provavelmente estava procurando cocaína para comprar. Tentei agir naturalmente, porque, afinal, eu não tinha comido a mulher dele, e, se ele comeu alguma mulher minha, espero que eles sejam felizes até hoje.

Continuei perguntando sobre o pessoal da campanha, que ninguém tinha visto. Comprei um CD pirata do Zeca Pagodinho, que depois dei de presente pra um moleque que aceitou ir me comprar uma Pepsi (bom, na verdade, uma Coca, mas se eu disser “um moleque que foi me comprar uma coca” vocês vão pensar merda).

Resolvi ir embora, e eis que encontro o pessoal da campanha bem no comecinho do morro, já no asfalto, no comecinho da Via Ápia, a principal rua da Rocinha. Tudo gente de classe média, entre classe média baixa e classe média alta. Evidentemente, a maioria com medo de subir o morro. Dois ou três caras bem novos, mais com cara de militante estudantil, se posicionaram um pouco mais lá pra cima e ficamos distribuindo os adesivos da campanha e conversando com o pessoal.

A receptividade foi muito boa: muita gente já ia votar no Gabeira, e os adesivos acabaram rápido (entre sete e quinze e nove horas). Minha impressão é de que os homens era mais receptivos que as mulheres, os jovens mais receptivos que os velhos. Alguns eleitores do Crivella manifestaram sua intenção de votar no Gabeira no segundo turno, e um eleitor do Lula reclamou do apoio ao Paes.

Havia, claro, eleitores do Paes, mas os que eu encontrei foram perfeitamente civilizados.

Um sujeito me propôs que lia meu panfleto se eu lesse o jornal da Universal que ele ia me dar. Aceitei, e se ele estiver lendo isso aqui, garanto que li: a matéria principal é sobre síndrome de down, e há uma matéria sobre a crise nas bolsas.

A uma certa altura, uma colega de campanha, uma senhora, achou que seria uma boa idéia dar umas folhas de adesivo para um sujeito que se ofereceu para ajudar a distribuir. Só que o cara estava completamente bêbado, e distribuía dizendo, “o Gabeira vai dar três casas pra cada um!”, “O Gabeira vai dar dinheiro pra todo mundo!”, “O Gabeira é fooooooooooda!!!”,  uma beleza. Felizmente, o sujeito cansou após uma meia hora, e foi embora.

Um outro cara me perguntou se queria que ele distribuísse pra galera em um boteco. Fiquei meio receoso do cara jogar fora o material, mas topei, e o cara realmente ficou meia hora lá conversando com os caras e distribuíndo os adesivos. Também deu para conversar um pouco com os caras do moto-táxi, um negócio capitalista muito organizado que fica bem ali em frente. Alguns saíram com adesivos nas motos.

Um camelô disse que não queria colar adesivo na camisa do Flamengo. Ganhou meu respeito imediatamente.

Deu para sacar pelas conversas, também, que o foco na saúde, que todos os candidatos à prefeitura tiveram esse ano, se justifica: é, sem dúvida, a reclamação mais recorrente do pessoal com quem eu conversei. Muitas reclamações sobre filas em hospital, e medo da volta da dengue. Parece ter sido mesmo o ponto cego da era César Maia. Um sujeito muito simples me falou muito mal das tais UPAs, que o Eduardo Paes defende, com notável desenvoltura, dizendo que o importante é equipar os hospitais existentes, não fazer novos.

No final, cada um levou suas folhas de adesivo sem adesivo para jogar fora em casa, pela regra da campanha limpa.

Mas é claro que tem uma coisa que não poderia faltar: na saída, dois PMs me pararam, me pediram documento, e me deram uma dura. Mas o que vocês não vão acreditar é o seguinte: foram muito educados, e quando viram que eu não tinha nada, me dispensaram com um “Boa Noite, cidadão”. Fica aqui minha recomendação a seus superiores por sua evidente civilidade.

Cá entre nós, sujeito com cara de Zona Sul descendo o morro deve parecer suspeito pros caras, mesmo. E acho que os adesivos do Gabeira não ajudaram.

Na volta, peguei, adivinhem, a van errada, e tive que descer e pegar um ônibus para casa. Antes de chegar em casa, comprei a Placar fui comer empada.

Enfim, uma noite excelente.



8 Responses to “Diário de campanha NPTO: Rocinha”

  1. Pena que a campanha aqui em Belém não é tão interessante…
    Me deu saudades do Rio agora! Estou nesse exílio equatorial há 20 anos…

  2. 2 Fabio`

    Você é mais macho do que eu pensava.

  3. Claudia, como está a campanha aí em Belém?

    Fabio, eu não tenho certeza de que isso é um elogio. Você achava exatamente o que?

  4. 4 Japajato

    Você é mais doido do que eu pensava. Quer dizer, mais, MAIS, como em “quantidade maior de alguma qualidade” não, mas…

  5. Meu caro, com certeza a Cláudia vai te dizer como está a eleição em Belém.

    Mas você está com estômago MESMO para saber?

    Abraços, Renato

  6. Peralá. Você está me dizendo que foi à Rocinha, botou um garoto pra comprar coca, confraternizou com um traficante armado e com policiais (foi chamado de cidadão!!), e ainda passou seu trabalho pra um sujeito embriagado? A Marta teve é sorte de você não estar em SP fazendo campanha pra ela!

  7. 7 Felipe Basto

    CD pirata???????? Já acusam o cara de ligação com traficantes, e vc ainda se torna rsponsável pelos boatos de ligação com pirataria e quanto ao incentivo ao trabalho sob efeito de alcool? Sem falar nessa mania burguesa de tratar comunidade como outro mundo. Essa última parte é séria. Seja lá quem for eleito a cidade vai continuar partida. Mas tá bem escrito.

  8. Hehehe, cês não perdoam.

    Felipe, quanto ao ponto sério que você levantou: valeu por chamar atenção, mas a minha impressão continua a mesma: seria um bairro popular como qualquer outro (na verdade, com indicadores sociais melhores que muitos), mas o cara de fuzil patrulhando ostensivamente a rua faz diferença, é uma população sujeita à ocupação armada.

    Quanto aos comentários sobre a coragem de ir lá, isso sim é exagero. Tenho bem mais medo de andar em certas áreas do Centro, ou de parar em sinal em várias áreas da Zona Sul.

    E sempre fiz campanha em favela sem nunca encontrar nenhum problema maior (bom, se mandarem você embora, você vai, né, porra?), embora aí eu deva dizer que não conheço a nova realidade das favelas ocupadas por milícias, que parecem ter candidatos próprios, o que eu nunca vi no tráfico (embora seja possível que tivesse, eu é que não sabia).


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