Diário de Campanha NPTO: Central do Brasil

19out08

Cheguei na Central à 1:30. O pessoal estava todo reunido para fazer uma caminhada até o Hemocentro, onde todo mundo doaria sangue. Eu não posso doar sangue, porque tive mononucleose. Enquanto esperava todo mundo chegar, fui distribuir uns adesivos ali pela Central, e senti muita receptividade. Sempre achei a Central o melhor lugar para panfletar no Rio, porque passa gente de tudo que é lado. Daí procurei o Fabiano, que estava organizando o ato, e propus o seguinte: vocês vão lá que eu vou ficar a tarde toda aqui distribuindo adesivos. Peguei vinte folhas de adesivos (240 unidades) e fui pra dentro fazer campanha de um homem só.

E já tive que ir pra fora de novo, porque a PM me disse que campanha só fora do portão da Central. Até aí, beleza, mas o problema é que começou a chover torrencialmente. Resultado: peguei minhas coisas e fui tomar um café lá dentro e esperar a chuva passar.

Enquanto esperava, tive a oportunidade de fazer uma coisa que já pretendia fazer havia tempo: comprar o glorioso Jornal da Nação, um tablóide só com notícias sobre o Flamengo. Aprendi, por exemplo, que em 1975 o Mengão massacrou o CSA com grande atuação de Luizinho. E que hoje haveria Flamengo X América pelo campeonato de juniores. Comi um pastel bacana e tomei um cafezinho civilizado.

A chuva estava demorando para passar, por isso, assim que deu uma melhorada, resolvi arriscar e correr para baixo de uma coberturazinha que tem na frente de um dos portões. Tive que dividir o espaço com um cara distribuindo panfletos das Testemunhas de Jeová. Logo estabelecemos um padrão de não abordar quem o outro abordasse, e até a chuva parar a convivência foi bastante pacífica.

A receptividade foi bem maior que eu esperava. Os adesivos acabaram em duas horas, o que, considerando a pressa das pessoas correndo para ir pegar trem na chuva, foi ótimo.

Novamente, o padrão de homens e jovens serem mais receptivos do que mulheres e idosos, mas menos pronunciado do que na Rocinha (o DataFolha de ontem, se não me falha a memória, deu esse mesmo resultado). 

Para ser completamente honesto com relação a meus próprios preconceitos, não imaginava que uma galera evidentemente muito pobre (o cara que ajudava o vendedor de biscoito no trem; um cara que carregava mercadoria para um camelô; um engraxate com o filho) tivessem uma imagem tão consistente do Gabeira, com alto nível de informação, desde a luta contra a ditadura até o episódio citado por quase todo mundo, a derrubada do Severino (alguns caras confundiam o nome do Severino, mas o episódio que citavam era claramente esse).

Além das camisas das pessoas, o adesivo do Gabeira foi parar em: quatro bancadas de camelô, duas caixas de engraxate, um isopor de sorvete, um carrinho que eu acho que vendia milho (não tenho certeza). 

No entanto: pela primeira vez fui confrontado com o que eu mais tinha medo de que me dissessem desde o primeiro dia: “Vem cá, e aquela história contra suburbano?”, me disse um camelô que vendia Playboys velhas. Não tinha nada melhor para dizer do que “Pois é, o cara falou uma puta de uma merda”.  

Também encontrei um cara que, quando ofereci o adesivo, iniciou o seguinte diálogo:

– Eu sou PT.

– Eu também, porra, mas não vou votar no Paes.

– Eu também não.

– Então vota no Gabeira logo e não enche o saco, porra. 

– Não vou votar em ninguém, estou achando tudo uma merda.

Sem dúvida nenhuma, um clássico do debate político moderno. O colega que estava com ele pegou um adesivo.

Fiquei me revezando entre os três portões da Central. No portão menor, onde há vários pontos de ônibus, conversei com algumas pessoas dos morros da vizinhança, que estavam bastante animados com o Gabeira, e diziam que era a primeira vez que encontravam alguém distribuindo material de campanha (faltou estrutura, aí). Minha impressão é de que nos Bairros da Central Gabeira deve se sair bem.

Uma impressão altamente subjetiva: as moças com aparência de evangélica praticante (cabelo muito longo, vestido idem) não aceitavam o adesivo nunca. É possível que o apoio do Crivella esteja influenciando isso.

Uma senhorita severamente alcoolizada pediu para distribuir material em troca de dinheiro. Disse a ela que a campanha só usava voluntários, e ela não acreditou muito. Acabou dizendo que distribuiria de graça, mas, mesmo assim, tendo em vista a experiência com o panfletista bêbado na Rocinha, achei melhor dizer não. Acho que ela vai votar no Paes.

Os últimos adesivos foram para: um senhor de uns oitenta anos (só pra furar minha estatística) que novamente elogiou o Gabeira contra o Severino; e um sujeito gigantesco, devia ter uns dois metros.

Me despedi do Testemunha de Jeová (não sem antes pegar um panfleto dele), tomei uma coca na Central e voltei pra casa de metrô. 

E assim se encerra a campanha NPTO 2008 pelo Rio de Janeiro. Amanhã o Gabeira estará caminhando pela orla Leme-Leblon (um grupo sairá do Leme, outro do Leblon, todos se encontrarão no Arpoador), mas acho que não vai dar pra ir, e eu queria mesmo concentrar minha campanha nos bairros populares, onde, para ser honesto, eles estavam precisando mais de petista viciado nessas coisas. Quem quiser aparecer, deve ser legal. Depois divulgo o resto da agenda da semana, assim que me mandarem. No feriado, por exemplo, deve ir todo mundo para o Piscinão de Ramos.

Amanhã me mando de volta para Sampa, e semana que vem volto para votar.



4 Responses to “Diário de Campanha NPTO: Central do Brasil”

  1. Acompanhei o Diário de Campanha de forma quase religiosa… pena que acabou.
    Agora é torcer. O Rio precisa de alguém como o Gabeira: acho que será um governante que, realmente, saberá entender essa cidade.
    Do meu exílio, espero voltar e ver o Rio com novas perspectivas!


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